27
Jul
08

Obsoleto: penumbra de um novo mundo

No despontar do crepúsculo observo com olhos intumescidos a virilidade de canas verdes e esguias; é a sapiência de décadas na labuta. Sob a imensidão azul e límpida meu coração digladia com a razão; um duelo mortal contra a gestação de sonhos, inestimáveis desde outrora, quando a minha maior ideologia de servo campeiro era conquistar a liberdade atemporal. Fixar-me! Uma terra onde o anseio de posse ultrapassa a fatídica e lúgubre realidade de encontrar, a contento, a fragrância da terra molhada. Ainda posso senti-la! Uma propriedade de miligramas que subsiste no resto de minhas unhas. Ah! Minha idealização como posseiro! Sempre suplantada por uma condição existencial que, incessante, tenta planificar minhas razões oníricas.

 

Reluto em meu âmago, inconformado com a juventude arrebatada. Eram tempos de fácil regozijo; displicente ingenuidade. Rememoro meus passos pelo canavial; sentia-me como se descobrisse a cada dia um labirinto que esconde o tesouro dos Nibelungos. Sôfrego! Normalmente acordava assim! Com tanta destreza que o canavial me cumprimentava seguindo o ritmo cadenciado e augusto dos ventos do Sul. Poucos pensamentos quebrantavam meu espírito aguerrido, pois ocupava meu corpo com a subsistência e a mente com reminiscências de décadas atrás. Recordo minha mãe defronte ao velho forno à lenha; sua voz suave entoava cantigas com a aptidão de um rouxinol. Nada a distraía, nem mesmo a fuligem que resplandecia sobre seus braços delgados.

 

Recobrava os sentidos quando a dualidade entre sonho e realidade me fazia sentir a perfilada lâmina, em um golpe sutil, atestando a ablução do sangue espesso com o suor que, salgado, lembrou-me o mar onde nunca estive. Está tudo bem! Apenas uma ferida temporária que em breve se unirá a tantas outras. São marcas litúrgicas em meu corpo; registros da minha degeneração, pois, mesmo sem direito a unção, fui contribuinte do progresso que assegurou minha desilusão.

Ontem, às 16 horas, assisti o princípio do fim. Meu coração exasperou-se! Senti o palato incandescer e tentei me conter. Foi impossível vencer a iminência de um passeio pela orla dos derrotados. A causa? A imagem que se formou no horizonte. O sorriso de um senhor bem vestido, com os braços envolvidos em uma máquina colossal. Tão ditoso que me recordei de arquitetar feição semelhante quando meu primeiro filho Roberto nasceu. Fechei os olhos na expectativa de um mero devaneio. Quando abri, lá estava eu, prostrado; de joelhos, com punhos e dentes cerrados. Decidi tirar a pequena faixa branca de meu braço direito para assistir o filete de sangue escorrer; o ferimento não me incomodou. Continuei ali, em ostracismo, sem perceber as lágrimas escorrendo pelo meu rosto e minhas mãos tremulando.

 

Gritaram meu nome e, aturdido, perambulei pelas minhas companheiras até chegar a uma fila. Sobre a carroceria do pau de arara, com um sutil movimento de lábios rachados pela estiagem, gritei: “Adeus, canavial que me sorveu a existência. Principia um novo tempo que deglute o velho mundo, sem oferecer aurora ao moribundo”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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