Paranavaí, 14 de setembro de 1981.
Minha cara amiga, bem sabe que a ti não escrevo há muito tempo. Se ainda rememora, nos conhecemos no alvorecer do inverno de 1974, ano em que minha família mudou para esta cidade. Não sei se já lhe mencionei, mas a senhora minha mãe, a priori, hesitou em deixar a antiga morada, principalmente a pequena estufa onde cultivava suas amalgamadas hortaliças; mas como sabia que resultaria em significativa evolução pecuniária, não impôs obstáculos. Durante a viagem, tivemos inúmeras discussões no interior do Mercedes-Benz 220S. Quando aqui chegamos, observei a cidade através do vidro embaçado pela geada. Meu pai recomendou não abrir a janela para evitar que contraíssemos resfriado.
Insatisfeito, friccionei minha mão contra o vidro e deslizei os dedos em movimentos circulares. Não fiquei extasiado no primeiro encontro com a cidade, mas me recordo bem de quatro imagens: uma bela jovem de aspecto taciturno atravessando a rua a passos céleres; um cão de raça indefinida e olhos fechados, bebendo a água da chuva que escorria em direção a galeria pluvial; um senhor idoso em pé sob a marquise de uma loja de departamentos, com cachimbo enviesado na boca, apontando o dedo para o céu e monologando; uma criança sentada sobre um balão vermelho-carmesim e degustando sofregamente um doce de caramelo. Todas essas imagens me foram proporcionadas tendo como trilha sonora a música Invisible Tears, do mestre Conniff, executada em volume aprazível no toca-fitas de meu pai.
Naquele dia, quando chegamos à nova residência a garoa se dissipara e minha mãe ficou mais serena. Meus pais não me pediram nenhuma ajuda, apenas adentraram a casa e recomendaram que não ficasse muito tempo ali fora. Sentei sobre o meio-fio e percorri as imediações com os olhos. Tive abrupta curiosidade em saber quem eram os vizinhos, o que faziam, se tinham animais e filhos. Da residência em frente à nossa, um casarão de madeira abandonado há décadas, vi apenas as chamas de um castiçal por detrás de uma cortina bege. Minutos depois, você veio até mim, caminhando sutilmente, com um olhar tímido, proporcional à sua beleza pueril. Fiquei calado, sem saber se deveria falar ou aguardar que você se manifestasse. Quando entrelacei as mãos e comecei a pressionar os dedos, me cumprimentou cordialmente, com voz suave e amistosa; assim iniciamos, em uma conversa trivial, amizade que sempre considerei infindável.
Por respeito, carinho e, acima de tudo, considerar-te a pessoa mais confiável com quem tive o prazer de conviver, resolvi relatar algumas experiências que tive depois de sua partida no dia 21 de dezembro de 1980. Os relatos talvez representem apenas a minha perspectiva memorial. Porém, tentarei ser o mais fidedigno possível aos acontecimentos que me marcaram profundamente. Saiba, dirimiram-me comportamentos e fizeram despontar no cerne de minha existência, reflexões desconhecidas por mim nos meandros de uma juventude ora quixotesca, ora melindrosa. Admito ter refletido muito antes de escrever esta carta; muitas vezes optei por amassar essas folhas e jogá-las na sarjeta, inclusive o fiz. Mas, suplantado por um remorso varonil, decidi, conclusivamente, enfrentar o desafio. Sem digressões, apresentar-lhe-ei, minha amiga, os fatos mais obscuros já vivenciados por mim.
Não estou a fazer revelações com o desígnio de receber qualquer retorno, pois julgamentos de ordem sentimental, penso eu, não cabem a ser humano algum, nem mesmo no estado mais próspero de sua lacônica sobriedade. Oferto-te, com palavras tremidas pelo destempero de minha leniência, o juvenil alvorecer de uma de minhas facetas, forjada por uma inconcussa personificação. De qualquer modo, ressalto-lhe que o opróbrio vergasta-me compulsivamente, fazendo sentir-me como se pertencesse a uma raça ou espécie de ser desconhecido, nascido de um ritual de acasalamento entre a apatia e o medo. Pois bem, perdoe-me a subjetividade; deve estar enfastiada por tantas tergiversações. Comecemos os relatos para os quais lhe cobro exímia atenção.
Por alguns meses, semeei com alguns camaradas uma relação regozijante, embora volúvel. Saíamos nos finais de semana e viajávamos para cidades da região. Buscávamos fenômenos naturais passíveis de serem fotografados com a minha câmera Leica, a qual você deve se recordar, ganhei de meu avô no natal de 1976. A princípio, percorríamos até oitenta quilômetros com o Jeep Willys de meu pai; depois decidimos ir além, chegando a ficar de três a cinco dias acampados às margens do Rio Paraná e Paranapanema. Viajávamos em quatro e, para minha surpresa, os três camaradas para os quais darei nomes fictícios por discrição, carregavam armas brancas e de fogo em meio aos mantimentos armazenados em três sacos de estopa. A primeira vez que me mostraram as armas, estávamos acampando a 150 metros do Rio Paraná, na Ilha Floresta.
Foi em um final de tarde, e a iniciativa de apresentá-las a mim partiu de Ulisses. Ele preparou uma fogueira com gravetos recolhidos nas imediações e trouxe um pequeno saco escuro fechado por um cordão de fibra. Me pediu para abri-lo e quando coloquei a mão no fundo encontrei um revólver municiado. Curioso, questionei o motivo pelo qual levaram pistolas. Alfeu disse que fui tolo em denominar um peculiar instrumento de limpeza e purificação como simples arma. Bem, naquele momento resolvi me calar, inclusive pensei em voltar para casa. Preocupado, Beni fez sinal para o camarada se calar e me ofertou informações reveladoras. Contou-me primeiro que cada uma das três armas de fogo tinha um nome: expiação, expurgação e remissão; a primeira pertencente a Ulisses, a segunda a Beni e a terceira a Alfeu.
Segundo eles, as usavam com a intenção divina de livrar o Estado da degradação. Algumas de suas frases ainda continuam frescas em minha memória, como se as ouvisse agora: “Nem todos que vivem nasceram para existir. Muitos ainda não enxergam na morte o prelúdio para o renascimento. São esses que eliminamos. Muitos daqueles que vemos no horizonte e nos certificamos de sua inferioridade. Sim, eles têm os mesmos órgãos que nós; fisicamente são semelhantes. Mas por isso devem ser tratados como iguais? De modo algum! Nascer pode ser um direito, mas para existir você precisa merecer”.
Ulisses me entregou uma pistola no mesmo dia, por volta das 15h. Ressaltou que tomou a liberdade de batizá-la antes de me presentear. A denominou como catuiara; era negra como a noite e representava para os membros da pequena organização um artefato de características magnânimas. A tonalidade escura simbolizava a sua autoridade como agenciadora da morte; pensei também que remetia aos magistrados. Enquanto refletia, Alfeu interveio: “Agora você é um de nós, membro da Juventude Carayba”, e bateu a mão sobre o meu ombro, complementando que eu tinha um legado a defender com a própria vida, se necessário. Ignorei tal comentário, mas resolvi, em um ímpeto transviado, participar do grupo para saber quais eram as atividades desempenhadas por eles.
Na minha primeira experiência como Carayba, percorremos o Rio Paraná com o auxílio de um pescador local chamado Catulo, que complementava a renda familiar trabalhando como guia em horários alternativos. Ulisses explicou a ele que estávamos em busca de boas caças. Conhecido do grupo, o pescador sorriu e nos levou até a Ilha do Mártir, a trinta e sete quilômetros do local onde acampamos no dia anterior. Ao chegar lá, vi uma pequena vila; crianças imundas brincavam em torno de casebres de barro. Apenas as mais pequenas não se incomodavam com a nossa presença. Os adultos nos observavam como se fôssemos a mais fidedigna representação do mal.
Fiquei calado e caminhei ladeado por Beni. Catulo, Ulisses e Alfeu estavam à nossa frente, dialogando em tão baixo tom que não consegui compreender. Beni chamou minha atenção e declarou, apontando com a mão esquerda: “Veja, meu amigo, poderia chamar isso de civilização? Isso é tão degradante quanto a realidade vivenciada nos cortiços das megalópoles. Sabe por que nos incomoda tanto? É um vil retorno ao arcaico, à degeneração do homem e a pressuposição da banalização existencial e, também, de valores. Mas não se preocupe, pois aos poucos ceifaremos o mal. No fim, a árvore se tornará estéril e poucos frutos podres se manterão nos galhos. Por pouco tempo, pois, com a força de um mero sopro, nada há de restar, e logo a brisa de um novo tempo irá se instaurar. Serão novas árvores, com frutos sadios e promissores”.
Entramos em um dos casebres, onde um senhor seminu, de pele enrugada, fina e escura, tiritava sobre uma cama composta por galhos e folhas de bananeira. Além dele, outras duas crianças também contraíram malária; uma de cinco e outra de sete anos que dormiam profundamente sobre uma disforme, embora circular poça de vômitos. Betânia, mãe das crianças e filha do senhor adoentado, estava desesperada. Veio até nós e, com lábios trêmulos, suplicou por uma intervenção. Prostrada diante de meus pés, descalça e trajando apenas os retalhos desbotados de algo que fora um vestido, começou a afirmar, aos prantos e agarrando a barra de minha calça, que não tinham condições financeiras para ir até a cidade mais próxima, muito menos levá-los a um hospital.
Dessa mulher, ainda me recordo a dualidade dos olhos; pessimistas, mas curiosamente auspiciosos. Não cintilava de modo algum, nem com as lágrimas que, incessantes, faziam o rosto brilhar com a plasticidade de uma bola de bilhar. Notei uma efêmera chama tentando transcender; para mim, foi como observar uma vela ao fundo de um poço descoberto, resfolegando, lutando para se esquivar da chuva. Contudo, julguei ser mais fácil enxergar vivacidade nos olhos fixos de um animal recém alvejado por um caçador.
Apesar de pequeno, o casebre de chão de terra batida parecia apto a receber os passos do ceifador. Por um momento, o imaginei deslizando sua foice de cabo longo e lâmina coruscante pelo chão, fazendo brotar, no centro de lugar nenhum, o prelúdio da Marcha Fúnebre. Perguntei a Betânia se aqueles eram seus únicos filhos; quando ouvi a resposta, senti um calafrio que percorreu a espinha dorsal. “Não são meus únicos, são meus últimos”, declarou. Joaquim, Antônio e Lucinda eram remanescentes de um grupo de doze filhos. As outras nove crianças estavam enterradas atrás do casebre. Questionei por qual motivo resolveu sepultá-los ao lado da única parte do cômodo onde estavam dispostas as camas feitas com galhos e folhas de bananeiras. Imagine só! O que separava os filhos vivos dos mortos era uma pequena parede que, aos poucos, tornava-se cada vez mais fina. Parecia próxima do desvanecimento; até imaginei o desmoronar do humilde casebre.
Betânia, depois de ouvir a pergunta e o comentário, não se incomodou em respondê-la, muito pelo contrário. Olhou-me como se o questionamento fosse natural. Levou as mãos aos cabelos, coçou a cabeça em um gesto acanhado e contou: “Meu filho, não é a chuva que desfaz esse barro, mas a vontade deles de estarem mais próximos de mim. Quando me deito e encosto a cabeça junto à parede, às vezes escuto a respiração de Roberto atravessando esse pequenino furo. Se um dia acontecer dessa casa cair, a vida não poderá nos separar mais”, relatou Betânia em tom de voz condescendente.
Cada palavra daquela jovem mulher, com o corpo marcado por diversas cicatrizes, em vez de sanar minha curiosidade, apenas aumentava. A observava e me sentia impelido a perguntar a história de cada uma daquelas marcas. Não tive coragem, mas pareciam registros litúrgicos. Ulisses, Alfeu e Beni ao perceberem meu interesse em conversar com Betânia, me julgaram copiosamente com olhares flamejantes. Tentavam me acovardar, me impelindo a ignorá-la. Queriam inebriar-me por um medo ainda desconhecido por mim.
Quando a mulher percebeu que eu não desviava os olhos das cicatrizes em seus braços, ela os aproximou de mim, os estirou em minha direção e disse: “É isso que chama a sua atenção? Algumas são grandes, né? Essas fui eu mesma quem fiz. Para cada filho perdido, desenho em minha pele um símbolo do que ele representava pra mim. O tamanho varia conforme a idade e a altura. Vê essa espinha de peixe? Fiz pensando em Roberto; nadava como se tivesse barbatanas nos pés. O bichinho era rápido como um lambari”, contou a mulher, sorrindo pela primeira vez desde a minha chegada. Betânia, com ingente simplicidade, se limitava a uma vida de penitência. Suas cicatrizes, confeccionadas com lâminas de pedra, eram como tatuagens, castigos físicos e psicológicos com os quais convivia.
Mas, entenda minha amiga, não eram as únicas cicatrizes estampadas no corpo da mulher. Em suas costas, parcialmente descobertas, havia outras; assim como nos ombros, nas duas panturrilhas e nos calcanhares. Eram muito diferentes das demais. Quando as fitei, ela fez o possível para ocultá-las; mudou a feição na hora. A ternura dos minutos anteriores foi substituída por vergonha e cólera incompreendida por mim. Resolvi me calar e desviei o olhar; Ulisses me puxou pelo braço e disse precisar falar comigo em particular. A alguns metros do casebre, sob a sombra de um limoeiro, me disse, em tom irascível, que se eu tivesse alguma dúvida ou curiosidade deveria perguntar a eles e não a uma estranha de quem eu nada sabia. Então ele me revelou algo de que duvidei no primeiro momento. “Somos os responsáveis por aquelas cicatrizes. Essa gente que nada representa para o mundo, a não ser uma úlcera em ebulição, não têm sentimentos. Não se engane, meu amigo! O que fazemos aqui é reeducá-los e, se necessário, eliminar o lixo nocivo à natureza”, revelou Ulisses, mantendo o olhar turvo e esboçando sorriso satírico.
Quando retornamos ao interior do casebre, Betânia estava ao lado de seu pai, que depois soube se chamar Ajuricaba e era conhecido no vilarejo como frei. Observei o homem adoecido, a filha de um lado, e os netos do outro, cabisbaixos e inertes como se fossem bonecos de pano e não humanos. Tentei entender o que significava as outras cicatrizes no corpo daquela mulher, mas não consegui. Ela percebeu a minha ânsia quando se levantou e me flagrou observando a marca de um corte transversal em suas costas. Betânia pediu aos meus camaradas para saírem do casebre por alguns minutos, pois tencionava falar comigo sobre um assunto que, segundo ela, não era do interesse deles. Alfeu tentou resistir e caminhou em direção a mulher, mas foi interrompido por Beni que o puxou pelo braço.
Sozinho com ela e sua família, Betânia disse: “Para você, talvez sejam apenas cicatrizes; algumas mais profundas que outras. Mas não é isso que vejo, de modo algum. Vê essa maior em minhas costas? A chamo de dignidade; perdida quando fracassei em resistir à dor. Vê essa no meu calcanhar? Seu nome é resignação, pois aceitei o que me foi imposto. Tenho muitas outras, como humilhação, fraqueza, torpor, desprezo, agonia e desespero. São tantas marcas visíveis em meu corpo. Mas nenhuma superior ao sentimento que a representa”.
Depois de ouvi-la, não percebi em seu rosto nenhuma emoção. Tive dificuldade em enxergar uma expressão vaga, mas que escondia no cerne de sua existência a dor intangível; a única e incômoda inquilina. O corpo estampava muitos sentimentos espoliados; se julgava inapta a recuperá-los. Betânia aguardava em seu mundo tornado vazio, o golpe de misericórdia; para ela, o único sonho próximo da realidade.
Pergunto-lhe, minha cara, se nada restava a mulher, em seu universo de incongruências e degenerescências, por que quando adentrei o casebre desesperou-se e pediu minha ajuda? Betânia me contou ter visto em mim a fragrância da vida. “Senti seu cheiro ao longe; não é de um moribundo como de seus amigos, e sim de alguém que carrega a unção na própria alma. Me senti liberta por um instante, e vi em você a ponte que poderia nos levar a algum lugar”, justificou Betânia.
Passados onze minutos, impaciente, Alfeu empurrou a porta e chamou a mulher para fora do casebre. Quando ela estava saindo, mandou que escolhesse dois dos três filhos para levá-los consigo. Ulisses me chamou e pediu para buscar a minha Leica, deixada dentro da mochila no barco de Catulo. Fui correndo e ao retornar vi Betânia do lado de fora da casa, recostada à parede, abraçada com os filhos Joaquim e Antônio. Quinho e Toninho, como eram chamados pela mãe, estavam descalços e sonolentos; vestidos com largas e surradas túnicas amendoadas.
Toninho, o mais velho, de sete anos, segurava o irmão de cinco anos pelo braço, para evitar que se machucasse ao se chocar contra o chão forrado de gravetos e cascalho. Não foi capaz de mantê-lo de pé por muito tempo; Quinho começou a regurgitar, então Alfeu gritou. Fatigado, com olhar esparso e lábios ressecados, Joaquim, o pequenino homem, não conseguiu chorar. Betânia, que adotara feição melancólica, ficou calada. Ulisses se aproximou dela e ordenou a limpeza do vômito do filho com a língua. Julguei que Beni e Alfeu sorririam, com base em minhas experiências junto a eles – o burlesco regozijo nutrido pela humilhação de outrem. Mas a obviedade de suas origens, refiro-me em específico a proeminente educação da casta aristocracia, os impelia a deixar transparecer somente expressões faciais despida de sons; embora o suficiente para evidenciar satisfação incomensurável.
Fiquei parado observando atentamente o acontecido. A mulher deslizou a língua pelo chão com ternura e comiseração, como se tocasse o rosto do filho. Em nenhum momento a vi franzir a testa ou demonstrar repugnância. Quando se levantou, sequer limpou os lábios; continuou silenciosa ao lado dos filhos. Com feição de desprezo, Alfeu deu três passos em direção a Betânia e fez uma proposta: “Se você resistir à dor que lhe infligiremos, nos comprometemos em levá-los de barco até o porto. De lá, vamos para a cidade e pagamos para os seus dois filhos o melhor hospital da região. Mas se você desfalecer, eles quem pagarão o preço. O que você acha? Penso que não há nada a perder, pois ficando aqui, morrerão de qualquer jeito”. Betânia olhou ternamente para os filhos algumas vezes, titubeou por instantes, mas suponho que admitiu a si mesma a falta de condições; aceitou a proposta.
Ulisses e Beni comemoraram a decisão trocando mórbidos olhares. Continuei calado, assistindo o acontecido como mero voyeur. As cenas de violência contra Betânia foram grotescas em demasia, então prefiro não relatar as minúcias da sevícia aplicada pelos três camaradas. Para que tenha noção da gravidade dos atos, hei de citar exemplos. Os primeiros golpes foram desferidos por Alfeu; usou como instrumento um anzol preso a um roliço cabo de madeira. Betânia resistiu, mas não por muito tempo. Depois dos doze primeiros golpes, começou a gemer e ofegar enquanto tentava agarrar com as unhas a parede de barro. Olhava para os filhos e se desesperava cada vez mais, consciente da fraqueza poder lhe tirar algo mais importante que a própria vida.
Depois, Beni apareceu com uma fivela de ferro presa a uma enegrecida cinta de couro; machucou-lhe as costas e a cabeça com golpes severos. Ulisses também participou; usando um fundíbulo, arremessou pedras contra o ventre de Betânia. Considerei a situação insustentável quando o rosto da mulher ficou ensangüentado. Resolvi intervir; despertei a ira de meus companheiros. Beni pediu que eu me afastasse e, com um olhar reprovador, citou Nietzche: “As próprias mulheres, no fundo de toda a sua vaidade pessoal, têm sempre um desprezo impessoal, meu amigo”. A atitude de Beni foi corroborada por Alfeu e Ulisses; este último seguiu o exemplo do amigo: “Saiba, meu camarada, quase sempre elas fingem desprezar o que mais vivamente desejam”, bradou.
Os ignorei e ordenei que parassem enquanto Betânia mantinha-se de pé, sob pernas trêmulas, mas com os olhos semicerrados. Começamos a discutir e me esqueci do grave estado da mulher. Olhei para o lado e, ela estava arqueando o corpo em direção ao solo. Dentro de mim, emergiu um sentimento confuso de culpa pelo que acontecera. Me joguei no chão, tentando evitar a sua derrota. Era tarde demais; Betânia sucumbira mais uma vez. Enquanto continuava desfalecida no chão, os três buscaram os seus revólveres no interior do barco e voltaram para o local onde estávamos. Fiquei ali, divagando enquanto segurava a cabeça de Betânia e umedecia-lhe o rosto com a água de uma poça a menos de um metro do seu corpo. Sabia que não estava morta, mas não entendi o motivo pelo qual resistia tanto em abrir os olhos e lutar pela vida. A resposta para tal pergunta não me foi ofertada por Betânia, e sim por seis sons taciturnos que adentraram o meu ouvido como se, juntos, formassem uma lâmina dilaceradora de princípios e convicções.
Não soube o que sentir, ou como reagir, quando percebi mais uma vez o meu fracasso. Eram elas triunfando novamente: a expiação, a expurgação e a remissão. Minha cara, descobri naquele dia que não é o formato o responsável por dignificá-las, e sim a capacidade em enxergá-las. Sei do meu desmerecimento pelo perdão, pois fui ineficaz em desempenhar o papel de um bom juiz. Mas naquele dia percebi que mesmo sem usar a catuiara, eu também fui um Carayba; e a derrota que atribui a Betânia era alegoria da minha própria. Tive mais certeza ainda ao voltar para casa e me conscientizar de ter retornado incompleto. Muitos sentimentos foram sepultados naquela ilha, mesmo que eu não tenha tido a capacidade de enterrá-los.
Me despeço de ti envergonhado por desapontá-la e também por não ter coragem de cotejá-la. Entrementes, orgulhoso de jamais hesitar em partilhar com você os fatos que somam e circundam a minha realidade, mesmo descritos em frágeis folhas de papel. Espero, um dia, o obséquio de poder revê-la, mesmo que seja de longe, em um turvo dia, com o rosto próximo à janela do Mercedes 220S, onde as lágrimas invisíveis de Conniff deslizam com amiúde maestria atemporal.