Arquivo para Julho 28th, 2008

28
Jul
08

A primeira confidência de Magno

Paranavaí, 14 de setembro de 1981.

Minha cara amiga, bem sabe que a ti não escrevo há muito tempo. Se ainda rememora, nos conhecemos no alvorecer do inverno de 1974, ano em que minha família mudou para esta cidade. Não sei se já lhe mencionei, mas a senhora minha mãe, a priori, hesitou em deixar a antiga morada, principalmente a pequena estufa onde cultivava suas amalgamadas hortaliças; mas como sabia que resultaria em significativa evolução pecuniária, não impôs obstáculos. Durante a viagem, tivemos inúmeras discussões no interior do Mercedes-Benz 220S. Quando aqui chegamos, observei a cidade através do vidro embaçado pela geada. Meu pai recomendou não abrir a janela para evitar que contraíssemos resfriado.

 

Insatisfeito, friccionei minha mão contra o vidro e deslizei os dedos em movimentos circulares. Não fiquei extasiado no primeiro encontro com a cidade, mas me recordo bem de quatro imagens: uma bela jovem de aspecto taciturno atravessando a rua a passos céleres; um cão de raça indefinida e olhos fechados, bebendo a água da chuva que escorria em direção a galeria pluvial; um senhor idoso em pé sob a marquise de uma loja de departamentos, com cachimbo enviesado na boca, apontando o dedo para o céu e monologando; uma criança sentada sobre um balão vermelho-carmesim e degustando sofregamente um doce de caramelo. Todas essas imagens me foram proporcionadas tendo como trilha sonora a música Invisible Tears, do mestre Conniff, executada em volume aprazível no toca-fitas de meu pai.

 

Naquele dia, quando chegamos à nova residência a garoa se dissipara e minha mãe ficou mais serena. Meus pais não me pediram nenhuma ajuda, apenas adentraram a casa e recomendaram que não ficasse muito tempo ali fora. Sentei sobre o meio-fio e percorri as imediações com os olhos. Tive abrupta curiosidade em saber quem eram os vizinhos, o que faziam, se tinham animais e filhos. Da residência em frente à nossa, um casarão de madeira abandonado há décadas, vi apenas as chamas de um castiçal por detrás de uma cortina bege. Minutos depois, você veio até mim, caminhando sutilmente, com um olhar tímido, proporcional à sua beleza pueril. Fiquei calado, sem saber se deveria falar ou aguardar que você se manifestasse. Quando entrelacei as mãos e comecei a pressionar os dedos, me cumprimentou cordialmente, com voz suave e amistosa; assim iniciamos, em uma conversa trivial, amizade que sempre considerei infindável.

 

Por respeito, carinho e, acima de tudo, considerar-te a pessoa mais confiável com quem tive o prazer de conviver, resolvi relatar algumas experiências que tive depois de sua partida no dia 21 de dezembro de 1980. Os relatos talvez representem apenas a minha perspectiva memorial. Porém, tentarei ser o mais fidedigno possível aos acontecimentos que me marcaram profundamente. Saiba, dirimiram-me comportamentos e fizeram despontar no cerne de minha existência, reflexões desconhecidas por mim nos meandros de uma juventude ora quixotesca, ora melindrosa. Admito ter refletido muito antes de escrever esta carta; muitas vezes optei por amassar essas folhas e jogá-las na sarjeta, inclusive o fiz. Mas, suplantado por um remorso varonil, decidi, conclusivamente, enfrentar o desafio. Sem digressões, apresentar-lhe-ei, minha amiga, os fatos mais obscuros já vivenciados por mim.

 

Não estou a fazer revelações com o desígnio de receber qualquer retorno, pois julgamentos de ordem sentimental, penso eu, não cabem a ser humano algum, nem mesmo no estado mais próspero de sua lacônica sobriedade. Oferto-te, com palavras tremidas pelo destempero de minha leniência, o juvenil alvorecer de uma de minhas facetas, forjada por uma inconcussa personificação. De qualquer modo, ressalto-lhe que o opróbrio vergasta-me compulsivamente, fazendo sentir-me como se pertencesse a uma raça ou espécie de ser desconhecido, nascido de um ritual de acasalamento entre a apatia e o medo. Pois bem, perdoe-me a subjetividade; deve estar enfastiada por tantas tergiversações. Comecemos os relatos para os quais lhe cobro exímia atenção.

 

Por alguns meses, semeei com alguns camaradas uma relação regozijante, embora volúvel. Saíamos nos finais de semana e viajávamos para cidades da região. Buscávamos fenômenos naturais passíveis de serem fotografados com a minha câmera Leica, a qual você deve se recordar, ganhei de meu avô no natal de 1976. A princípio, percorríamos até oitenta quilômetros com o Jeep Willys de meu pai; depois decidimos ir além, chegando a ficar de três a cinco dias acampados às margens do Rio Paraná e Paranapanema. Viajávamos em quatro e, para minha surpresa, os três camaradas para os quais darei nomes fictícios por discrição, carregavam armas brancas e de fogo em meio aos mantimentos armazenados em três sacos de estopa. A primeira vez que me mostraram as armas, estávamos acampando a 150 metros do Rio Paraná, na Ilha Floresta.

 

Foi em um final de tarde, e a iniciativa de apresentá-las a mim partiu de Ulisses. Ele preparou uma fogueira com gravetos recolhidos nas imediações e trouxe um pequeno saco escuro fechado por um cordão de fibra. Me pediu para abri-lo e quando coloquei a mão no fundo encontrei um revólver municiado. Curioso, questionei o motivo pelo qual levaram pistolas. Alfeu disse que fui tolo em denominar um peculiar instrumento de limpeza e purificação como simples arma. Bem, naquele momento resolvi me calar, inclusive pensei em voltar para casa. Preocupado, Beni fez sinal para o camarada se calar e me ofertou informações reveladoras. Contou-me primeiro que cada uma das três armas de fogo tinha um nome: expiação, expurgação e remissão; a primeira pertencente a Ulisses, a segunda a Beni e a terceira a Alfeu.

 

Segundo eles, as usavam com a intenção divina de livrar o Estado da degradação. Algumas de suas frases ainda continuam frescas em minha memória, como se as ouvisse agora: “Nem todos que vivem nasceram para existir. Muitos ainda não enxergam na morte o prelúdio para o renascimento. São esses que eliminamos. Muitos daqueles que vemos no horizonte e nos certificamos de sua inferioridade. Sim, eles têm os mesmos órgãos que nós; fisicamente são semelhantes. Mas por isso devem ser tratados como iguais? De modo algum! Nascer pode ser um direito, mas para existir você precisa merecer”.

 

Ulisses me entregou uma pistola no mesmo dia, por volta das 15h. Ressaltou que tomou a liberdade de batizá-la antes de me presentear. A denominou como catuiara; era negra como a noite e representava para os membros da pequena organização um artefato de características magnânimas. A tonalidade escura simbolizava a sua autoridade como agenciadora da morte; pensei também que remetia aos magistrados. Enquanto refletia, Alfeu interveio: “Agora você é um de nós, membro da Juventude Carayba”, e bateu a mão sobre o meu ombro, complementando que eu tinha um legado a defender com a própria vida, se necessário. Ignorei tal comentário, mas resolvi, em um ímpeto transviado, participar do grupo para saber quais eram as atividades desempenhadas por eles.

 

Na minha primeira experiência como Carayba, percorremos o Rio Paraná com o auxílio de um pescador local chamado Catulo, que complementava a renda familiar trabalhando como guia em horários alternativos. Ulisses explicou a ele que estávamos em busca de boas caças. Conhecido do grupo, o pescador sorriu e nos levou até a Ilha do Mártir, a trinta e sete quilômetros do local onde acampamos no dia anterior. Ao chegar lá, vi uma pequena vila; crianças imundas brincavam em torno de casebres de barro. Apenas as mais pequenas não se incomodavam com a nossa presença. Os adultos nos observavam como se fôssemos a mais fidedigna representação do mal.

 

Fiquei calado e caminhei ladeado por Beni. Catulo, Ulisses e Alfeu estavam à nossa frente, dialogando em tão baixo tom que não consegui compreender. Beni chamou minha atenção e declarou, apontando com a mão esquerda: “Veja, meu amigo, poderia chamar isso de civilização? Isso é tão degradante quanto a realidade vivenciada nos cortiços das megalópoles. Sabe por que nos incomoda tanto? É um vil retorno ao arcaico, à degeneração do homem e a pressuposição da banalização existencial e, também, de valores. Mas não se preocupe, pois aos poucos ceifaremos o mal. No fim, a árvore se tornará estéril e poucos frutos podres se manterão nos galhos. Por pouco tempo, pois, com a força de um mero sopro, nada há de restar, e logo a brisa de um novo tempo irá se instaurar. Serão novas árvores, com frutos sadios e promissores”.

 

Entramos em um dos casebres, onde um senhor seminu, de pele enrugada, fina e escura, tiritava sobre uma cama composta por galhos e folhas de bananeira. Além dele, outras duas crianças também contraíram malária; uma de cinco e outra de sete anos que dormiam profundamente sobre uma disforme, embora circular poça de vômitos. Betânia, mãe das crianças e filha do senhor adoentado, estava desesperada. Veio até nós e, com lábios trêmulos, suplicou por uma intervenção. Prostrada diante de meus pés, descalça e trajando apenas os retalhos desbotados de algo que fora um vestido, começou a afirmar, aos prantos e agarrando a barra de minha calça, que não tinham condições financeiras para ir até a cidade mais próxima, muito menos levá-los a um hospital.

 

Dessa mulher, ainda me recordo a dualidade dos olhos; pessimistas, mas curiosamente auspiciosos. Não cintilava de modo algum, nem com as lágrimas que, incessantes, faziam o rosto brilhar com a plasticidade de uma bola de bilhar. Notei uma efêmera chama tentando transcender; para mim, foi como observar uma vela ao fundo de um poço descoberto, resfolegando, lutando para se esquivar da chuva. Contudo, julguei ser mais fácil enxergar vivacidade nos olhos fixos de um animal recém alvejado por um caçador.

 

Apesar de pequeno, o casebre de chão de terra batida parecia apto a receber os passos do ceifador. Por um momento, o imaginei deslizando sua foice de cabo longo e lâmina coruscante pelo chão, fazendo brotar, no centro de lugar nenhum, o prelúdio da Marcha Fúnebre. Perguntei a Betânia se aqueles eram seus únicos filhos; quando ouvi a resposta, senti um calafrio que percorreu a espinha dorsal. “Não são meus únicos, são meus últimos”, declarou. Joaquim, Antônio e Lucinda eram remanescentes de um grupo de doze filhos. As outras nove crianças estavam enterradas atrás do casebre. Questionei por qual motivo resolveu sepultá-los ao lado da única parte do cômodo onde estavam dispostas as camas feitas com galhos e folhas de bananeiras. Imagine só! O que separava os filhos vivos dos mortos era uma pequena parede que, aos poucos, tornava-se cada vez mais fina. Parecia próxima do desvanecimento; até imaginei o desmoronar do humilde casebre.

 

Betânia, depois de ouvir a pergunta e o comentário, não se incomodou em respondê-la, muito pelo contrário. Olhou-me como se o questionamento fosse natural. Levou as mãos aos cabelos, coçou a cabeça em um gesto acanhado e contou: “Meu filho, não é a chuva que desfaz esse barro, mas a vontade deles de estarem mais próximos de mim. Quando me deito e encosto a cabeça junto à parede, às vezes escuto a respiração de Roberto atravessando esse pequenino furo. Se um dia acontecer dessa casa cair, a vida não poderá nos separar mais”, relatou Betânia em tom de voz condescendente.

 

Cada palavra daquela jovem mulher, com o corpo marcado por diversas cicatrizes, em vez de sanar minha curiosidade, apenas aumentava. A observava e me sentia impelido a perguntar a história de cada uma daquelas marcas. Não tive coragem, mas pareciam registros litúrgicos. Ulisses, Alfeu e Beni ao perceberem meu interesse em conversar com Betânia, me julgaram copiosamente com olhares flamejantes. Tentavam me acovardar, me impelindo a ignorá-la. Queriam inebriar-me por um medo ainda desconhecido por mim.

 

Quando a mulher percebeu que eu não desviava os olhos das cicatrizes em seus braços, ela os aproximou de mim, os estirou em minha direção e disse: “É isso que chama a sua atenção? Algumas são grandes, né? Essas fui eu mesma quem fiz. Para cada filho perdido, desenho em minha pele um símbolo do que ele representava pra mim. O tamanho varia conforme a idade e a altura. Vê essa espinha de peixe? Fiz pensando em Roberto; nadava como se tivesse barbatanas nos pés. O bichinho era rápido como um lambari”, contou a mulher, sorrindo pela primeira vez desde a minha chegada. Betânia, com ingente simplicidade, se limitava a uma vida de penitência. Suas cicatrizes, confeccionadas com lâminas de pedra, eram como tatuagens, castigos físicos e psicológicos com os quais convivia.

 

Mas, entenda minha amiga, não eram as únicas cicatrizes estampadas no corpo da mulher. Em suas costas, parcialmente descobertas, havia outras; assim como nos ombros, nas duas panturrilhas e nos calcanhares. Eram muito diferentes das demais. Quando as fitei, ela fez o possível para ocultá-las; mudou a feição na hora. A ternura dos minutos anteriores foi substituída por vergonha e cólera incompreendida por mim. Resolvi me calar e desviei o olhar; Ulisses me puxou pelo braço e disse precisar falar comigo em particular. A alguns metros do casebre, sob a sombra de um limoeiro, me disse, em tom irascível, que se eu tivesse alguma dúvida ou curiosidade deveria perguntar a eles e não a uma estranha de quem eu nada sabia. Então ele me revelou algo de que duvidei no primeiro momento. “Somos os responsáveis por aquelas cicatrizes. Essa gente que nada representa para o mundo, a não ser uma úlcera em ebulição, não têm sentimentos. Não se engane, meu amigo! O que fazemos aqui é reeducá-los e, se necessário, eliminar o lixo nocivo à natureza”, revelou Ulisses, mantendo o olhar turvo e esboçando sorriso satírico.

 

Quando retornamos ao interior do casebre, Betânia estava ao lado de seu pai, que depois soube se chamar Ajuricaba e era conhecido no vilarejo como frei. Observei o homem adoecido, a filha de um lado, e os netos do outro, cabisbaixos e inertes como se fossem bonecos de pano e não humanos. Tentei entender o que significava as outras cicatrizes no corpo daquela mulher, mas não consegui. Ela percebeu a minha ânsia quando se levantou e me flagrou observando a marca de um corte transversal em suas costas. Betânia pediu aos meus camaradas para saírem do casebre por alguns minutos, pois tencionava falar comigo sobre um assunto que, segundo ela, não era do interesse deles. Alfeu tentou resistir e caminhou em direção a mulher, mas foi interrompido por Beni que o puxou pelo braço.

 

Sozinho com ela e sua família, Betânia disse: “Para você, talvez sejam apenas cicatrizes; algumas mais profundas que outras. Mas não é isso que vejo, de modo algum. Vê essa maior em minhas costas? A chamo de dignidade; perdida quando fracassei em resistir à dor. Vê essa no meu calcanhar? Seu nome é resignação, pois aceitei o que me foi imposto. Tenho muitas outras, como humilhação, fraqueza, torpor, desprezo, agonia e desespero. São tantas marcas visíveis em meu corpo. Mas nenhuma superior ao sentimento que a representa”.

 

Depois de ouvi-la, não percebi em seu rosto nenhuma emoção. Tive dificuldade em enxergar uma expressão vaga, mas que escondia no cerne de sua existência a dor intangível; a única e incômoda inquilina. O corpo estampava muitos sentimentos espoliados; se julgava inapta a recuperá-los. Betânia aguardava em seu mundo tornado vazio, o golpe de misericórdia; para ela, o único sonho próximo da realidade.

 

Pergunto-lhe, minha cara, se nada restava a mulher, em seu universo de incongruências e degenerescências, por que quando adentrei o casebre desesperou-se e pediu minha ajuda? Betânia me contou ter visto em mim a fragrância da vida. “Senti seu cheiro ao longe; não é de um moribundo como de seus amigos, e sim de alguém que carrega a unção na própria alma. Me senti liberta por um instante, e vi em você a ponte que poderia nos levar a algum lugar”, justificou Betânia.

 

Passados onze minutos, impaciente, Alfeu empurrou a porta e chamou a mulher para fora do casebre. Quando ela estava saindo, mandou que escolhesse dois dos três filhos para levá-los consigo. Ulisses me chamou e pediu para buscar a minha Leica, deixada dentro da mochila no barco de Catulo. Fui correndo e ao retornar vi Betânia do lado de fora da casa, recostada à parede, abraçada com os filhos Joaquim e Antônio. Quinho e Toninho, como eram chamados pela mãe, estavam descalços e sonolentos; vestidos com largas e surradas túnicas amendoadas.

 

Toninho, o mais velho, de sete anos, segurava o irmão de cinco anos pelo braço, para evitar que se machucasse ao se chocar contra o chão forrado de gravetos e cascalho. Não foi capaz de mantê-lo de pé por muito tempo; Quinho começou a regurgitar, então Alfeu gritou. Fatigado, com olhar esparso e lábios ressecados, Joaquim, o pequenino homem, não conseguiu chorar. Betânia, que adotara feição melancólica, ficou calada. Ulisses se aproximou dela e ordenou a limpeza do vômito do filho com a língua. Julguei que Beni e Alfeu sorririam, com base em minhas experiências junto a eles – o burlesco regozijo nutrido pela humilhação de outrem. Mas a obviedade de suas origens, refiro-me em específico a proeminente educação da casta aristocracia, os impelia a deixar transparecer somente expressões faciais despida de sons; embora o suficiente para evidenciar satisfação incomensurável.

 

Fiquei parado observando atentamente o acontecido. A mulher deslizou a língua pelo chão com ternura e comiseração, como se tocasse o rosto do filho. Em nenhum momento a vi franzir a testa ou demonstrar repugnância. Quando se levantou, sequer limpou os lábios; continuou silenciosa ao lado dos filhos. Com feição de desprezo, Alfeu deu três passos em direção a Betânia e fez uma proposta: “Se você resistir à dor que lhe infligiremos, nos comprometemos em levá-los de barco até o porto. De lá, vamos para a cidade e pagamos para os seus dois filhos o melhor hospital da região. Mas se você desfalecer, eles quem pagarão o preço. O que você acha? Penso que não há nada a perder, pois ficando aqui, morrerão de qualquer jeito”. Betânia olhou ternamente para os filhos algumas vezes, titubeou por instantes, mas suponho que admitiu a si mesma a falta de condições; aceitou a proposta.

 

Ulisses e Beni comemoraram a decisão trocando mórbidos olhares. Continuei calado, assistindo o acontecido como mero voyeur. As cenas de violência contra Betânia foram grotescas em demasia, então prefiro não relatar as minúcias da sevícia aplicada pelos três camaradas. Para que tenha noção da gravidade dos atos, hei de citar exemplos. Os primeiros golpes foram desferidos por Alfeu; usou como instrumento um anzol preso a um roliço cabo de madeira. Betânia resistiu, mas não por muito tempo. Depois dos doze primeiros golpes, começou a gemer e ofegar enquanto tentava agarrar com as unhas a parede de barro. Olhava para os filhos e se desesperava cada vez mais, consciente da fraqueza poder lhe tirar algo mais importante que a própria vida.

 

Depois, Beni apareceu com uma fivela de ferro presa a uma enegrecida cinta de couro; machucou-lhe as costas e a cabeça com golpes severos. Ulisses também participou; usando um fundíbulo, arremessou pedras contra o ventre de Betânia. Considerei a situação insustentável quando o rosto da mulher ficou ensangüentado. Resolvi intervir; despertei a ira de meus companheiros. Beni pediu que eu me afastasse e, com um olhar reprovador, citou Nietzche: “As próprias mulheres, no fundo de toda a sua vaidade pessoal, têm sempre um desprezo impessoal, meu amigo”. A atitude de Beni foi corroborada por Alfeu e Ulisses; este último seguiu o exemplo do amigo: “Saiba, meu camarada, quase sempre elas fingem desprezar o que mais vivamente desejam”, bradou.

 

Os ignorei e ordenei que parassem enquanto Betânia mantinha-se de pé, sob pernas trêmulas, mas com os olhos semicerrados. Começamos a discutir e me esqueci do grave estado da mulher. Olhei para o lado e, ela estava arqueando o corpo em direção ao solo. Dentro de mim, emergiu um sentimento confuso de culpa pelo que acontecera. Me joguei no chão, tentando evitar a sua derrota. Era tarde demais; Betânia sucumbira mais uma vez. Enquanto continuava desfalecida no chão, os três buscaram os seus revólveres no interior do barco e voltaram para o local onde estávamos. Fiquei ali, divagando enquanto segurava a cabeça de Betânia e umedecia-lhe o rosto com a água de uma poça a menos de um metro do seu corpo. Sabia que não estava morta, mas não entendi o motivo pelo qual resistia tanto em abrir os olhos e lutar pela vida. A resposta para tal pergunta não me foi ofertada por Betânia, e sim por seis sons taciturnos que adentraram o meu ouvido como se, juntos, formassem uma lâmina dilaceradora de princípios e convicções.

 

Não soube o que sentir, ou como reagir, quando percebi mais uma vez o meu fracasso. Eram elas triunfando novamente: a expiação, a expurgação e a remissão. Minha cara, descobri naquele dia que não é o formato o responsável por dignificá-las, e sim a capacidade em enxergá-las. Sei do meu desmerecimento pelo perdão, pois fui ineficaz em desempenhar o papel de um bom juiz. Mas naquele dia percebi que mesmo sem usar a catuiara, eu também fui um Carayba; e a derrota que atribui a Betânia era alegoria da minha própria. Tive mais certeza ainda ao voltar para casa e me conscientizar de ter retornado incompleto. Muitos sentimentos foram sepultados naquela ilha, mesmo que eu não tenha tido a capacidade de enterrá-los.

 

Me despeço de ti envergonhado por desapontá-la e também por não ter coragem de cotejá-la. Entrementes, orgulhoso de jamais hesitar em partilhar com você os fatos que somam e circundam a minha realidade, mesmo descritos em frágeis folhas de papel. Espero, um dia, o obséquio de poder revê-la, mesmo que seja de longe, em um turvo dia, com o rosto próximo à janela do Mercedes 220S, onde as lágrimas invisíveis de Conniff deslizam com amiúde maestria atemporal.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

28
Jul
08

O último solstício de inverno

Nuvens plácidas ornamentavam a imponente e fulgurante lua no dia 22 de junho de 1978. Para Gustavo Coronato, a chegada do solstício de inverno simbolizava a maior realização estética da natureza. O rapaz sentia-se tão cativado pelo fenômeno que seus olhos abissais davam a impressão de captar, sorver e então refletir a claridade lunar. Todos os anos, na data, inebriava-se logo cedo, mantendo o corpo levemente arqueado no centro da janela de características rupestres – se restringia a cumprimentar o horizonte e admitir subserviência ao satélite natural.

 

Os jansenistas religiosos de Paranavaí especulavam que a liturgia individualista de Coronato, praticada todos os anos, mesmo aparentando complacência e singularidade, era um ato pagão com o intuito de profanar o solo cristão. “O que quer este rapaz, afinal de contas? Jamais aceitaremos que alguém rendido às crenças panteístas interfira em nossos costumes. Será que ele tenciona dissuadir os moradores das imediações a agirem como ele?”, questionou a dona-de-casa Gertrudes Avanka durante uma reunião na sede da Congregação Cristalizadora da Fé. Estórias sobre o rapaz, que vivia em um sítio de nove alqueires nas imediações da cidade, proporcionavam misto de excitação e medo, mesmo sem nunca ter sido visto de perto por outras pessoas além dos pais.

 

Alguns moradores dizem que durante o inverno de 1978 era comum a cerração formar magnificente abóbada de proporções geométricas cobrindo Paranavaí de norte a sul. A chegada do nevoeiro prognosticava mais um ciclo da “prisão das terracotas”. A Denominação criada pelo advogado Cícero Vesuvili referia-se ao princípio invernal acompanhado por um som peculiar que lembrava ocarinas de terracota. “A sonoridade era acompanhada por um reboar de vozes, ora antropomorfas, ora rudimentares. A verdade é que, apesar de ser um evento inédito, ninguém arriscava inferir se o som era de origem humana ou animal. A maioria decidiu usar a imaginação para semear idéias a serem disseminadas como fatos. Era normal, principalmente em uma sociedade construída sob a égide do temor ao desconhecido”, explicou Vesuvili.

 

Segundo relatos do pioneiro Orfeu Alencastro, os mais céticos defendiam que o fenômeno se resumia aos efeitos de nuvens convectivas de trovoada. O comentário gerou embate com o posicionamento intransigente dos religiosos; estes julgaram ser as brumas de 1978 o exórdio do fim. Porém, inquestionável era o fato de que com a chegada do nevoeiro nenhum habitante conseguia enxergar qualquer coisa à altura superior a vinte metros. Apenas as crianças mais maroteiras se arriscavam em chacoalhar os galhos dos ipês na esperança de avaliar a intangibilidade da redoma.

 

O fenômeno despertou a preocupação de Marcos Roberto Barbero, tenente do Corpo de Bombeiros, que designou sete homens para retirarem as crianças de cima das árvores. Alexandre Vaz Tariani, 12, o mais traquinas dos garotos, foi encontrado mudo e exaurido no topo de um ipê-amarelo, abraçado a alguns galhos. Quando chegou ao chão, teve de ser colocado sobre uma maca frente a um prédio comercial na Rua Getúlio Vargas e levado pelo sargento Roque Frei Cruz para a residência do médico João Miercole, visto cruzando a Rua Marechal Cândido Rondon e avisado sobre o incidente.

 

Na residência de Miercole, na Rua Rio Grande do Norte, o comerciante Norberto Tariani, pai de Alexandre, ficou chocado ao ver os olhos verdes do filho transfigurados em um negro tão abissal que assumira tonalidade plástica. As mãos gélidas pareciam recém tiradas de uma câmara fria. O diagnóstico do médico evidenciou hipotermia – o termômetro registrou temperatura corporal de 25º C. Assustado, Alexandre se mantinha calado, mas arquejava involuntariamente. Os cabelos castanhos na altura do nariz ficaram rijos após contato com uma substância desconhecida de composição viscosa e aderente.

 

Naquele dia 21 de junho de 1978, o tenente da Polícia Militar Manoel Fortunato Gastri e o delegado-titular da 9ª Subdivisão Policial (SDP) Gilmar Tavares decidiram unir forças para conter os populares. Somados ao contingente do tenente Barbero, designaram trinta e dois homens, encarregando-os de percorrerem as ruas da cidade em viaturas, solicitando que os habitantes ficassem dentro de suas casas e evitassem atitudes temerárias.

 

Às 9h do dia seguinte, o sargento Joaquim Magrão, da Polícia Militar, contabilizou que percorreram todas as ruas do município; do distrito de Graciosa ao Sumaré. Pouco mais tarde, às 12h do dia 22, relatório apresentado durante reunião no Batalhão da Polícia Militar, que contou com a presença de cinquenta membros da sociedade civil, revelou ausência de danos materiais e humanos. Mesmo assim, o resultado não satisfez todos os presentes. O empresário Antenor Malagato fez frente ao dissidente coro de religiosos que balbuciavam palavras de depreciação o tempo todo durante o encontro.

 

A dona-de-casa Gertrudes Avanka chacoalhou um guarda-chuva branco apontado em direção a Gastri e bradou: “culpados devem ser encontrados e imputados pelas heresias que acontecem nesta cidade”. Manoel Fortunato, incomodado com o comentário, se dirigiu a ela e afirmou ser lamentável que tal pedido ilógico e plangente adviesse de uma mulher com formação acadêmica. A questionou sobre as relações entre intempéries e bruxaria. Antes de Gertrudes responder, o policial declarou: “cristã como se caracteriza deveria ter a indulgência e sensatez como premissa. Esteja ciente de que vossa descortesia me espanta, dona Gertrudes. A senhora nada mais é que uma inquisidora! Quer deflagrar uma guerra pessoal com o objetivo de preencher o seu vazio existencial com um anátema”.

 

Encolerizado pelos comentários da senhora Avanka, Gastri pediu a todos que tivessem opinião análoga a Gertrudes para se retirarem do Batalhão. Trinta e quatro pessoas continuaram na reunião com a PM, PC e CB. O tenente Marcos Roberto, ciente da alteração comportamental de Manoel Fortunato, pediu para deixá-lo assumir a assembléia popular. Aproveitou a oportunidade para, vinte minutos depois, fazer uma declaração oficial. “A todos os presentes devo informar que acabamos de entrar em contato com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Se comprometeram a enviar ainda hoje número suficiente de profissionais habilitados para as diligências”. A informação conquistou a simpatia da maioria dos presentes. Concomitantemente, na residência de Malagato, um grupo liderado por Gertrudes, composto por nove donas-de-casa, quatro empresários e um produtor rural, deliberou que aquele fenômeno, atribuído pela maioria à natureza, era resultado de artifícios inebriantes e suntuosos de alguém avesso ao progresso da comunidade.

 

A dona-de-casa Guilhermina Mastiggio de Souza, braço direito de Gertrudes, pediu autorização ao impaciente anfitrião e fez a primeira revelação do encontro. Enquanto gesticulava com a mão direita e segurava com a esquerda um exemplar de bolso do Novo Testamento, contou que viu se propagar no ar, na noite anterior, uma substância de coloração amarela. Ao ouvir a declaração da companheira, a impaciente senhora Avanka, que caminhava a passos desconcertados, esbravejou: “Pois bem, Guilhermina nos ofertou a mais casta das verdades. Ontem eu senti um narcotizante odor de enxofre quanto trafeguei pela Avenida Heitor Alencar Furtado em direção ao Jardim São Jorge”.

 

Gertrudes acusou Gustavo Coronato de praticar goécia e usou o agricultor Demóstenes Souto Lins como exemplo para persuadir os presentes a crerem que o rapaz simbolizava a derrocada do progresso citadino e interesses coletivos. Lins, com olhar intumescido e expressão facial ligeiramente mordaz, recobrou o silêncio no salão de festas da residência de Antenor. Contou a todos que começou a investir na cafeicultura em meados de 1960, e desde então todos os anos a safra lhe possibilitava aumentar a produtividade em 15%.

 

Quando Valter Oliveira Coronato e Lucélia Alegari Coronato faleceram em fevereiro de 1973, após acidente ferroviário em Paranaguá, Demóstenes assistiu decadência sem precedentes na história econômica de sua família. Relatou que certa noite, em março daquele ano, ouvira sons ininteligíveis ecoando em direção à sua propriedade. “Pensei que fosse coisa da minha cabeça; nada além de pura imaginação. Só acreditei nos negativos artifícios da experiência quando, em abril de 1973, antes que os frutos dos cafeeiros começaram a amadurecer, os encontrei forrando o chão. Meus amigos, foi algo inacreditável! Os frutos tinham características de ervilhas se avaliada coloração, enquanto que em proporção e tesura lembravam uvas-passas”, destacou.

 

Paulatino, Demóstenes afirmou que nas duas primeiras semanas de julho apenas os cafeeiros que estavam a leste da propriedade, próximos ao sítio da família Coronato, se desvaneceram. Em contraponto, havia frutos em vigoroso processo de maturação a oeste, ladeado pela chácara do farmacêutico Orestes Goschalk. Duas semanas mais tarde, o que restou do cafezal fora dizimado por brocas-do-café.

 

Durante alguns segundos, Lins respirou profundamente e a estouvada Gertrudes aproveitou para intervir. “Meus caros, não sei se é do conhecimento de vocês, mas em março de 1972 a Secretaria Estadual de Agricultura enviou quatro agrônomos ao Sítio do Demóstenes para avaliar a fertilidade do solo. Adivinhem o que descobriram? A incidência de pragas era nula. Foi registrado índice pluviométrico regular na região, sem adversidades”, relatou a senhora Avanka enquanto caminhou, balançou os braços e coçou a cabeça inúmeras vezes. Conforme falava, os olhos de Gertrudes cintilavam como a lâmina de uma foice preparada para a ceifa. Emendou que não havia explicação racional ou científica para os acontecimentos posteriores no sítio de Lins; atribuiu o problema a práticas de sortilégio e quebranto.

 

Gertrudes opinou que o ostracismo simboliza o arquétipo da degeneração, lembrando que Coronato caíra em total isolamento há cinco anos, desde a morte dos pais. O nome do rapaz fora precedido por olhares desdenhosos e gesticulações de menoscabo. Comentários vieram à tona na sala; uns questionando os outros sobre Gustavo, com quem nenhum deles jamais conversou. Tiveram conhecimento de sua existência por intermédio dos pais que não participavam ativamente da sociedade local, mas eram conhecidos pela discrição. Valter era agrônomo e Lucélia se restringia a cuidar do filho único e também das atividades domésticas.

 

Passados poucos minutos, Guilhermina frisou, em tom inseguro, que Ágata Fernanda Mastiggio, 15, no dia anterior, por volta das 17h20, passou de bicicleta pela BR-376. “Minha neta avistou alguém no Sítio Theia correndo em meio ao cafezal. O ser não identificado girava algo que parecia uma corda com uma grande bola de fogo na extremidade”, afirmou a senhora Mastiggio com olhos trêmulos e bíblia pressionada contra o peito. No dia mencionado pela mulher, o pôr-do-sol, de modo ímpar, pincelara o céu com cores que transcendem a beleza dionisíaca.

 

Uma outra integrante do grupo, a dona-de-casa Rosa Bargona, revelou que seu filho Geraldo Luiz Bargona, 21, também presenciou situação aterradora na noite precedente ao retornar de Alto Paraná às 20h30. O cabo do acelerador do jipe CJ5, conduzido por Bargona, se rompeu e ele teve de empurrá-lo para fora da estrada. Retirou uma lanterna à bateria de trás do banco e mirou à sua direita; foi quando percebeu que estava a 45 metros de distância da entrada do Theia. Não ficou preocupado, até porque sua mãe afirmou ser tão cético quanto um cientista diante da perspectiva de um milagre; não se deixava influenciar por mexericos.

 

Contudo, empalideceu ao se deparar com restos mortais. Suas pernas tremularam ao reconhecer fragmentos de um crânio humano recostado ao alambrado, próximo a uma embalagem plástica de velas a nove metros da porteira. Teve um extremo sobressalto quando olhou para o céu e avistou fagulhas se sovertendo a cinco metros de sua cabeça. Nos primeiros instantes, sentiu-se como se seus pés fossem as raízes de uma amendoeira. Boquiaberto, salivou e deslizou as mãos úmidas contra o rosto. Após cinco minutos, voltou a si e seguiu caminho a pé até a residência da família no Jardim Iguaçu.

 

A dona-de-casa Brenda Gonçalves dos Reis, percebendo a oportunidade de ofertar mais um depoimento, salientou: “Meu marido, José Marcos Abraão dos Reis; vocês devem conhecê-lo pelo trabalho dele na Tornearia Arenito Caiuá. Pois então, saibam que ele enfrentou situação tenebrosa quando passou em frente ao Sítio Theia. Tudo aconteceu quando retornava da casa do seu patrão Juvenal Gusmão Apronge, que mora a pouco mais de um quilômetro da propriedade dos Coronato. Era mais de cinco horas e, como sempre, ele conduzia a sua moto Guzzi. Como devem saber, ele jamais se envolveu em qualquer acidente, mas, por um artifício melindroso, quase perdeu o controle da motocicleta quando olhou para a direita, em direção ao Theia. O coitadinho viu um licantropo saltando o alambrado da propriedade com os braços arqueados. Podem acreditar nisso? Não entrou em contato direto com ele. Mas até agora se recorda de sua voz antropomorfa gutural. O ser bradou-lhe, a metros de distância e em alto tom, para nunca mais passar por aquelas bandas. Quando chegou em casa falou dezenas de vezes que não conseguia pensar em nada além da fealdade repulsiva do nefasto ser”. Ao ouvirem o relato, ninguém rejeitou o fato da suposta história induzir qualquer morador da cidade a digressões pelo extraordinário; mesmo assim a preservaram como fragmento de uma realidade inquestionável.

 

Antenor, aproveitando o silêncio deixado pelo relato de Brenda, explicou o motivo pelo qual quis contribuir com o grupo. “Peço permissão para revelar a todos os presentes, vocês, meus amigos de longa data, que minha participação na comoção social é de cunho solidário; estamos todos juntos cumprindo com nosso dever cívico. Mas peço que não esqueçam da cautela nas nossas próximas eleições. Para resolvermos problemas como esse é imprescindível a atuação de um gestor com braço forte”, frisou, com um sorriso amarelecido e punho erguido na altura do rosto, e mirando a luminária.

 

Focado no pleito eleitoral de 1980, cada frase de Antenor era precedida por uma breve explanação de sua atuação como gestor, se auto-adjetivando como o homem mais apto a estabelecer diretrizes para um futuro de plena prosperidade. Encerrava comentários com um sorriso tão exagerado que os sardônicos desafetos políticos diziam que fizera cirurgia plástica para erguer os lábios. O intuito era possibilitar que pessoas ao longe pudessem ver seus dentes à mostra, conhecido, de modo pejorativo, como um cult semblante de artificial regozijo. Outra curiosidade era um bottom confeccionado para ser distribuído às escusas em bairros periféricos. O seu era de cor escura e com a frase em branco: “Malagato O Eletivo” – sempre preso ao bolso direito da camisa branca de seda.

 

A sediciosa Gertrudes, que durante alguns minutos dedicara-se a prática de onicofagia, pediu o direito à palavra e apelou para o Velho Testamento: “Como sabem, consta no livro de Êxodo que nenhum cristão deve permitir que viva o feiticeiro”. Emitiu a frase com tanto fervor que tornou mais salientes algumas veias do pescoço. Citou episódios em que amigos e familiares viram de longe Gustavo sentado no chão arenoso, envolto por círculo de velas, adorando a lua.

 

Concluído o relato, as nove mulheres presentes, pertencentes ao grupo religioso “Congregação Cristalizadora da Fé”, em uníssono, disseram: “In nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti, Amen”. Sem velar inclinações totalitaristas, a senhora Avanka discursou que em sociedade organizada, agir de forma catoniana é o único meio efetivo para evitar que uma cidade seja catapultada aos umbrais das trevas. Quando se calou, as religiosas fizeram o sinal da cruz e içaram bíblias como um emblemático símbolo de concordância e adesão.

 

Algumas das mulheres presentes, entre as quais as donas-de-casa Filomena Jezebel de Oliveira, Josefa da Silva Brunholi e Maria Almeida Ramos, concentravam forças na iconofilia; intermitentemente abraçavam ornamentados crucifixos de prata com 35 centímetros de comprimento e 750 gramas. Já os empresários, que também eram gestores de sindicatos patronais e diretórios políticos, estavam alheios à conversa, dispersos em vislumbres particularistas. Minutos depois, não lembravam mais o nome do inimigo; sorrisos evidenciavam corriqueiras projeções futuras. O agroindustrial e líder de um partido local, Alberto Mendes Biaroni, estremeceu ao imaginar-se defronte a prefeitura; aclamado por multidão de milhares que lhe arremessavam clívias em agradecimento por salvar a cidade.

 

A divagação foi interrompida quando o empresário Rui Novaes Bérgamo lhe chamou avisando que o grupo começaria a discutir métodos para aniquilar o recôndito inimigo que vivia em Paranavaí há 25 anos, mas nunca visto na área urbana. Como desconheciam a face do ímpio e receavam qualquer feitiço, decidiram pensar em meios de exterminá-lo sem estabelecer contato direto. Na noite do dia 22, se comprometeram em resolver o problema. Decidiram que Alberto e Rui iriam até o Sítio Theia às 23h45 com a missão de detectar alguma manifestação suspeita.

 

Por volta das 23h57, Bérgamo estacionou o automóvel Alfa Romeo Giulietta Sprint a 850 metros do sítio e percorreram o resto do caminho a pé. Ao chegarem perto da casa estava tudo escuro; não havia nem mesmo uma vela acesa. Pularam o alambrado e encostaram o ouvido à porta; não ouviram nada – o silêncio era pleno. Saíram da propriedade sem fazer barulho e se deslocaram até um prédio comercial no centro da cidade, onde se comprometeram em encontrar os outros membros do grupo à 1h. O escritório na Rua Manoel Ribas, pertencia a Antenor Malagato, que mais uma vez foi o anfitrião e recebeu os dois aventureiros com sutis apertos de mão.

 

Alberto relatou a Gertrudes que Gustavo estava dormindo. Então ela os chamou e mostrou o que armazenaram dentro de um cômodo que funcionava como despensa. No interior, havia 13 galões contendo 12 litros de gasolina por unidade. Todos entenderam o que deveria ser feito. Para dar continuidade ao plano pagaram quatro foragidos de uma instituição penal paulista. Os homens colocaram os galões camuflados por caixas de papelão no interior do baú de um caminhão que pertenceu a uma transportadora de Campo Mourão.

 

Liderados por Alcides Cabral, conhecido como Javali, apelido que recebera pela saliência dos dentes frontais, que o impedia de mantê-los dentro da boca quando a fechasse, os criminosos chegaram ao Sítio Theia à 1h43. Apressados, espalharam o combustível por todo o exterior da casa. Javali pediu que mantivessem distância da residência e depois acendeu um cigarro, deu quatro tragadas, o prendeu entre os dedos médio e anelar, e o arremessou em direção a trilha de gasolina. Correram até a portaria, subiram no caminhão e nunca mais retornaram a Paranavaí.

 

Um dos foragidos, Nelson Veiga Prates, o Condor, esqueceu um galão no baú do caminhão. Javali, desinformado sobre a falha do companheiro, fez algumas manobras perigosas no percurso entre Paranavaí e Nova Esperança. A tampa do recipiente se rompeu com as pancadas provocadas pelo balanço do veículo e a gasolina logo se espalhou por todo o baú. Quando Nelson questionou que sentia cheiro de combustível, Cabral o acalmou. “Cara, não se preocupe. Fique tranqüilo; de certo, é o cheiro de gasolina em nossas mãos”, argumentou. Nelson, mesmo descrente, se calou.

 

Na cabine, o compartimento de acesso ao baú foi deixado aberto e quando Javali arremessou o toco de um cigarro pela janela, uma corrente de ar o levou de volta para dentro, em direção ao interior do baú, próximo à cabeça de Condor. Passados alguns segundos, a fumaça chegou à cabine. Quando perceberam a situação, os criminosos começaram a tossir e se digladiar para tentar sair o mais rápido possível do veículo. Javali, golpeado no rosto pelo desesperado Gringo, um dos comparsas, perdeu o controle do veículo próximo a um trevo. O caminhão caiu dentro de uma profunda erosão hídrica entre Nova Esperança e Uniflor. Com o impacto, a explosão do veículo carbonizou todos os passageiros.

 

Em 23 de junho, o Corpo de Bombeiros foi avisado por Orestes Goschalk sobre o incêndio na residência de Coronato. No local, encontraram o rapaz falecido, com queimaduras de terceiro grau em 80% do corpo. Gustavo estava estirado sobre uma pilha de centenas de livros. Seus olhos estavam intactos e fechados, como se prognosticasse o que lhe aconteceria. Tal dia marcou para sempre os moradores da cidade; não em função da morte de Coronato, com quem pouco se importavam, mas de pareceres da Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar), Secretaria Estadual de Agricultura e Instituto Nacional de Meteorologia.

 

Armando Navarro, gerente regional da Sanepar, reuniu milhares de membros da comunidade em frente ao prédio da companhia e, com um megafone, informou aos presentes que alguém invadiu a Estação de Tratamento de Água (ETA) há dois dias e despejou 37 quilos de Amanita Muscaria, cogumelo tóxico que provoca alucinações. Em meio à multidão era impossível encontrar pelo menos uma pessoa que não se surpreendera com a revelação. Depois, o assessor Élcio Gonzaga, da Secretaria Estadual de Agricultura, apresentou retratos de quatro homens presos em Londrina. Eram contratados por grileiros da região para se passarem por agrônomos do Estado. Demóstenes ficou ruborizado ao reconhecer os rostos dos logradores e foi embora antes de Gonzaga frisar que agiam no Noroeste do Estado há 14 anos. O encontro foi finalizado com o pronunciamento de um meteorologista do Inmet revelando que o quadro climático do município se enquadrava perfeitamente no padrão regional, sem qualquer alteração excepcional.

 

Hoje, poucos moradores conhecem a história de Gustavo. Lins foi o único que, de vez em quando, dedicava algum tempo tentando encontrar meios de saber como o vizinho misantropo ocupava o tempo. Ninguém sabia que Coronato laborava a roça da família todas as madrugadas, quando se sentia mais disposto a abandonar a velha casa de madeira rústica, onde passava 18 horas diárias. Trabalhava para a subsistência na lavoura subdividida em pequenas produções de arroz, feijão, berinjela e tomate. Todos os anos, os únicos dias em que não trabalhava eram 21 e 22 de junho, datas marcadas pelo solstício de inverno.

 

Não é de conhecimento popular, mas é importante ressaltar que na última noite de sua vida, Gustavo viu se formar nas nuvens projeções fisionômicas de Valter, Lucélia e também a própria quando não tinha mais de cinco anos. No latíbulo, sua mãe segurava-lhe a mão efusivamente e o pai se aproximava entregando-a uma rosa vermelha com algumas das pétalas amarelas. Ficou emocionado ao perceber a semelhança com o quadro Vendedor de Flores, do pintor suíço Jacques-Laurent Agasse. Tal sentimento arrebatador remetia ao fato dos pais terem se conhecido há 32 anos em uma floricultura, onde Valter ajudava o pai. Diante dos olhos do jovem Coronato, os personagens se moviam no céu com tanto realismo que se sentiu em uma sessão de cinema, arte que conheceu apenas nos livros. Vislumbrava a experiência ao divagar acordado; assistindo fragmentos de sua vida registrados em rolos super-8. Como background de suas digressões, o rapaz ouvia no gramofone Pailard, da década de 1940, Moonlight Serenade, de Glenn Miller.

 

Coronato acreditava que a força lunar transmitia energia enquanto que os raios solares as usurpavam diretamente do ser humano. O excesso de luminosidade o inebriava em exaustão, motivo pelo qual abandonava a residência apenas com o triunfo da lua. Quando resolvia admirá-la, o fazia por horas, formando um círculo de velas em torno do seu corpo. A intenção sempre foi evitar a aproximação de animais peçonhentos. O jovem enxergava no satélite natural uma semelhante que, como ele, vagava tanto pelo contínuo quanto pelo descontínuo. A cada dia via a lua mais distante e solitária; para a sociedade, não mais que um objeto de fetiches intransponíveis. “Sempre que a vejo ratifico-me da finitude de minha natureza. Ao contrário de vós, o declive da minha existência reafirma a sua infinitude. Ignóbil e parvo seria eu se julgasse que de ti a humanidade capacitada fosse para extrair mais que a cártula. Se lágrimas destoadas umedecem meu rosto quando a admiro é porque nem mesmo distância incomensurável e a magnitude da intangibilidade me impedem de admitir que em ti me vejo refletido em forma inominável”, declarou Gustavo à lua.

 

Às 23h27 do dia 22, o rapaz ajoelhou-se diante da lua com olhar fixo e tenro, preservado desde a infância. Recordou que a relação entre eles surgiu quando tinha apenas cinco anos. Na infância, corria à noite descalço pelo solo arenoso, em meio aos cafeeiros, gritando que a maior satisfação ao fim do dia era encontrar a lua; para ele, a intangível melhor amiga. Porém, se quando criança eram emoções pueris que despertavam atração pelo satélite natural, principalmente a beleza irradiada, na fase adulta teve certeza de ser algo mais profundo.

 

“Iludi-me com sua imagem superficial, que incendiou tantas vezes meus olhos nus. Demorei a perceber o real motivo de nossa aproximação: uma conseqüência contínua de sentimentos sôfregos incitados em mim. Como vós, também sou filho da noite; hoje mais do que nunca abjurado pela minha espécie. Embora seja eu um corpo humano de carne e ossos, e você um corpo celeste de solo e rochas, partilharemos do mesmo destino. Serei eu maculado pelo torpe assim como você. Somos naturezas que se coadunam em um espectro, alvo da jactância que visa profligar a quintessência”, disse Coronato em tom reflexivo.

 

Tal afirmação levou em conta percepções inferidas do mezanino de sua casa. Sempre que alguém lhe invadia a privacidade, com olhares acres e desdenhosos, o rapaz percebia. A vida no ostracismo despertou-lhe perspicácia sensorial a ponto de identificar pelo som até mesmo insetos que voavam a três metros de distância. Fingia não ver os perturbadores, nutrindo menoscabo por todos que tentavam aturdir-lhe a paz.

 

Antisocial desde a infância, fora alfabetizado em casa pelos pais. Ainda criança sentiu-se consubstanciado pelas palavras, seu hobby preferido. Sentado defronte à lareira em noites de inverno, Gustavo enxergava no fogo a mais perfeita projeção de sentimentos arcaicos inerentes à natureza humana. Tonalidades mais claras lhe dirimiam a fúria e desprezo pela humanidade, cedendo espaço ao amor e complacência que conhecera no seio familiar. Já cores mais escuras e vibrantes estimulavam sentimentos arrebatadores de cólera e angustia. Tais emoções se construíam sob a égide das palavras; conhecimento adquirido por meio dos livros. Gustavo se interessava por diversos gêneros, influenciado pelo pai que lhe deixou como herança uma biblioteca doméstica com 1,7 mil títulos.

 

“Desprezado sou por abraçar livros em vez de humanos. Mesmo que na terra me infiltrasse e vivesse no subsolo, lá ainda seria um inquilino indesejável perseguido como hagiômaco. Ah! Se não fosse pela Garatuja de Nepomuceno, difícil seria confrontar o derradeiro a olhos abertos. Oh Lua! Se a ti pudesse tocar com minhas mãos adormecidas pelas chamas de Golgotha, tenho certeza que suas rochas me envolveriam como braços; cairia em visceral sono, ladeado por meus pais. Sentiria o aroma das hoyas carnosas cultivadas pela minha mãe”. Estas foram as últimas frases balbuciadas por Gustavo antes de seu corpo ser consumido pelo fogo. Os olhos negros deixaram de cintilar à 1h57, quando se despediu do seu último solstício de inverno.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

28
Jul
08

Rio de águas vermelhas

Meu nome é Pablo Mearim e morri aos quinze anos, após ver minha família ser dizimada nas imediações do Rio Nhu-Guaçu na tarde do dia 16 de agosto de 1869. Na data, saímos da nossa vila por volta das 6h30. Fomos acordados às 5h45 com a cantoria do nosso galo Guará. Quando o vimos, nos surpreendemos. As penas dele que eram claras como o céu prognosticando a chuva estavam com uma sutil tonalidade rubra. Pensamos na possibilidade de ter adoecido, tanta era a agitação quando percebeu que ficaria sozinho. Meu pai, Solano Mearim, ficou ainda mais surpreso, pois o galo nunca agira daquela forma.

O movimento das asas de Guará era tão frenético. Ele digladiou contra a própria natureza e tentou alçar vôo. Minhas irmãs, Melina, 13, e Angela, 11, gargalharam ao ver a cena. Quando nos distanciamos alguns metros o galo subiu no telhado da pequena guarita de barro construída por meu pai e saltou. Os quatro quilos de Guará fizeram-no chocar-se contra o chão arenoso. Sua vontade foi sobrepujada pela natureza. Para consolá-lo, corri até ele e o levei para dentro de casa; com um pano umedecido limpei suas penas.

Enquanto o asseava, percebi tanta complacência nos olhos de Guará que quase pedi a meu pai que deixasse levá-lo. Mas, conhecendo seu comportamento intransigente, desisti e corri até a entrada. Quando fiquei frente à cerca, olhei para trás; o movimento que fiz com as mãos o galo respondeu com a cabeça. Depois de alguns segundos, uma corrente de ar fez com que a terra emergisse e o galo se perdesse em meio à poeira. Sem avistá-lo mais, corri quarenta metros até alcançar minha família.

Eu e Guará tivemos uma amizade que durou os quinze anos da minha vida. O ganhei quando nasci; foi meu primeiro presente. Uma vizinha estava em débito com minha mãe, Carmen Alianza Mearim, pela venda de sete quilos de sabão de soda. Como não tinha condições de quitar a dívida ofertou Guará que à época tinha dois anos.

Quando os alcancei, meu pai entregou-me uma sacola contendo algumas frutas, para o caso de não obtermos êxito com a pescaria. Minha mãe e as garotas levaram mel de cana com queijo, pastel mandió e chipá-guazú. Já os gêmeos Raul e Aurélio tinham apenas cinco anos, então ocupavam as mãos com os bonequinhos confeccionados com choclo (milho terno). Apesar dos dedos miúdos, os dois tinham grande aptidão para criar os próprios brinquedos.

Durante a caminhada, o silêncio equacionou o vôo das aves que percorriam o céu sem sobreporem os cantos umas das outras. Os pássaros almas-de-gato cantavam com basilar maestria. Tive a impressão de que entre aquelas aves havia um regente. Adentramos a Floresta dos Cucos para encurtar o caminho até o rio; trajeto que também não seria completado em menos de duas horas. Após sessenta minutos de caminhada, Raul e Aurélio foram consumidos pela estafa; paramos debaixo de uma congonheira e ficamos ali sentados pelo menos vinte minutos. Às 7h50, nosso pai deu a ordem para seguir viagem. Raul se aproximou vagarosamente de mim, tocou em meu ombro e disse em baixo tom: “Minhas pernas formigam de tanta fadiga”. Me abaixei e ele subiu em minhas costas para continuamos o percurso.

Circunspecto, nosso pai sempre pedia para sermos cautelosos a tudo ao nosso redor; três anos antes seu compadre Gabriel Cales fora morto por uma sucuri de 8,5 metros. A cobra logo recebera o apelido de Bapo porque era a única que tinha um chocalho na cauda e emitia um som semelhante ao executado pelo maracá dos nativos. Os moradores do povoado de Cori costumavam dizer que a cobra era a encarnação do pajé tupi-guarani Essá-Etê que teve sua aldeia incinerada pelos brancos.

No último mês, comentou-se que em um período de três anos a cobra se alimentou de vinte e oito pessoas. A história chegou ao conhecimento de todos por intermédio de um ancião indígena de 105 anos, Aderbal Tucunaré, único remanescente da tribo Eçabara. O líder tribal aprendeu a ler e escrever para catalogar os nomes das árvores que existiam nas imediações da nossa vila. Apesar da idade, a decrepitude jamais suplantou a ladinice de Tucunaré. Inclusive, no dia da morte de Cales, ele observou tudo a quatro metros de altura. Subiu em um lapacho rosado logo após o alarde de Bapo. Infeliz foi Cales; nunca imaginou que uma cobra tão grande carregaria um chocalho na cauda. A confundiu com o maracá dos nativos, um erro infactível. Enganou-se ao interpretar o som e após correr dois metros se deparou com a cabeça da anaconda. Ficou vertiginosamente espantado, tanto que o ancião tem dúvidas se Gabriel morreu antes ou depois de ser asfixiado por Bapo.

Quando estávamos nos aproximando do Nhu-Guaçu, fitei Aurélio parado e inerte. Sua atenção estava voltada para o bando de queixadas que seguia para o oeste. Ele apontou o miúdo dedo indicador para cada um dos animais e gritou eufórico: “27! 27! 27! É isso! Acertei!”. Estava tão feliz por vê-los quanto por demonstrar ao nosso pai que já sabia contar. Aurélio cativava os taguicatis com naturalidade. Cheguei a pensar que se comunicava com eles. Recordo-me de um queixada saindo da fila indiana e observando Aurélio por alguns segundos. Tempo suficiente para o macho mais velho do bando, um tajaçu de 108 centímetros e pelagem tão negra que parecia pintada, interromper o trajeto. O dissidente voltou exatamente para o lugar onde estava, respeitando a hierarquia pecari.

Já era pouco mais de 8h30 quando avistamos o Nhu-Guaçu. A água era tão límpida que os raios de sol projetavam a imagem do céu naquela imensidão diáfana. Esperto, Raul saltou das minhas costas e correu em direção à margem. Quando chegamos, pela primeira vez ao longo do trajeto, nosso pai sorriu, rotacionou o corpo e gritou: “Meus filhos, a beleza natural subsiste no imaculado, por isso nunca deve ser passível de transmutação, evitando disformidade. A perfeição do intangível e do impalpável impelem os olhos às lagrimas e por que? É onde a mão reversa do homem ainda não alcançou”. Emocionado, o senhor Mearim abriu os braços, ficou sobre as pontas dos dedos e deixou-se conduzir pelo vento que vinha do Norte. De olhos fechados, entrou em introspecção por dois minutos.

Minha mãe, preocupada com a refeição, me chamou e pediu para tomar conta de Raul e Aurélio enquanto Melina e Angela ajudavam com as iguarias e especiarias. Fiquei ao lado dos garotos que davam golpes na água com os pés. Conforme lhes umedecia os rostos, sorriam de forma tão pueril e benevolente que os percebi extasiados em sua Babilônia. Nem mesmo os extemporâneos pernilongos, sequiosos por sangue, lhes proporcionavam qualquer incômodo. Em breve reflexão, me dei conta de que haviam criado um mundo ocluso, do qual faria parte apenas quem eles quisessem. Uma condição meramente psicológica, mas motivada por uma vontade cândida; truísta para crianças, todavia hermética aos adultos.

Não se passou mais de quinze minutos e meu pai me chamou. Pediu para ajudá-lo a colocar morenitas nos anzóis. Terminado o trabalho, percorremos onze metros e posicionamos, em paralelo, duas varas de bambu presas a uma rocha com corda de palha. Conhecedor da área, meu pai contou que há cinco anos presenciou o pescador Castilho Rojas retirar trezentos quilos de peixe do Nhu-Guaçu; entre as espécies havia pintado, dourado e pacu. Mas a situação se complicou três anos antes, quando cresceu a incidência de traíras e piranhas. Por algumas semanas resultou na decaída do número de pescadores na área. Porém, logo apareceram as ariranhas que reduziram em mais de 50% a presença de peixes carnívoros.

Instantes depois de ouvir a história, escutei passos curtos e rápidos de alguém arquejando; Raul gritou que tinha visto uma ariranha emergir do fundo do rio. O mamífero de 1,80 metro despertou abrupta curiosidade nos garotos, principalmente pela aparência dócil e esguia. “Pabi, podemos tocá-las? É tão bonita. Nada me deixaria mais feliz agora que tocar aquela pele lisa e macia”, perguntou e comentou Aurélio com olhar fixo. Quando abri a boca para articular uma frase, minha mãe relatou-lhes que só podiam observar, porque qualquer mordida provocaria infecção e os levaria a morte. Os olhos de Aurélio e Raul intumesceram e ficaram lívidos em imaginar tal possibilidade.

Melina e Angela estenderam uma toalha de mesa sobre o chão, preparando a ceia. Já era mais de 11h quando Aurélio se aproximou e disse sentir tanta fome que seu estômago começou a entoar a guarânia (música típica paraguaia). A mãe deu um breve sorriso e pediu para chamarem o pai. Passaram-se duas horas desde que ele sentou-se diante do Nhu-Guaçu. Estava tão atento ao movimento do anzol que acompanhava com os olhos a profundidade até onde alcançava a linha. Não pescou muito, mas garantiu a ceia; me entregou um saco com dois pintados que pesavam em torno de cinco quilos cada.

Antes de comermos, sentamos os sete em torno da toalha de mesa, onde estavam todos os alimentos. Começamos a ceia tomando tererê. A guampa confeccionada com chifre bovino foi passada de mão em mão. Depois de satisfeitos, o que restou da erva-mate foi enterrado ao lado da toalha, respeitando um ritual cíclico: o que é da terra volta para a terra. Quando tomávamos tererê sentíamos os efeitos da catarse. Meu pai enfatizava ser a única bebida que carrega a essência imutável da natureza e da nossa identidade cultural.

Aurélio e Raul não tiravam os olhos do pastel mandió e do chipa-guazú, então a senhora Carmen apressou-se em servi-los. Eu e o senhor Mearim nos abstemos de outros pratos enquanto comíamos o peixe. Para nós, uma peculiar tradicão, visando evitar que o sabor da carne branca fosse maculado pelo sincretismo de outros alimentos. Às 13h, satisfeitos, resolvemos fazer a sesta. Apenas Aurélio e Raul não quiseram, os únicos que não foram conquistados pela massa verde e circunforme balançando suavemente. Sentados frente a frente, os garotos posicionaram os bonequinhos de choclo com os pés enterrados na terra, correram até a margem e buscaram um pouco de água. Usaram um pequeno pedaço de madeira pontiaguda de cedro e escavaram oitenta e seis centímetros. Ali preencheram o buraco e, em segundos, a água, de diáfana, se transformou em um líquido marrom avermelhado. Brincaram durante quarenta e dois minutos, arremessando os bonequinhos, até que todos acordaram.

Minha mãe pediu a Melina e Angela para procurarem frutas para levarmos a nossa vila. Preocupado com a segurança delas, o senhor Solano pediu que levassem facas, pois não tinham experiência alguma em exploração florestal. Logo empreenderam caminhada em meio aos cedros; as perdemos de vista bem rápido. De qualquer modo, Melina era tão verborrágica que não precisávamos vê-la para identificar sua voz a noventa metros.

Estávamos em uma área de grande flora herbácea, possibilitando que a senhora Carmen logo se distraísse, principalmente com o grande volume de estévias. Seus dedos hábeis acariciavam os galhos delgados antes de cortá-los. A precisão denunciou vinte anos de conhecimento sobre ervas aromáticas e medicinais. Antes de cortar cada galho, tinha o hábito de distanciar-se trinta e cinco centímetros da planta e efetuar um movimento circunforme com a cabeça, algo que, segundo ela, definiria o ponto ideal do corte. “A fragrância de cada planta denuncia que algumas folhas têm mais qualidade que outras, mesmo dividindo o mesmo galho”, afirmou a senhora Mearim.

Meu pai estava novamente à margem do rio, atento a qualquer vibração do anzol. Por alguns minutos, observei tudo a minha volta, mas o que mais despertou minha atenção foi o silêncio. Em meio à floresta, senti o conforto emanado pela natividade. Era incomum demais para compor um elemento cotidiano. Preocupei-me quando não localizei nenhuma ave sobre cedros e congonheiras. Até mesmo os pernilongos que tanto nos incomodaram estavam recônditos. Corri até a margem do Nhu-Guaçu e também não identifiquei nenhum ser vivo na água. Apenas vi o senhor Solano segurando a vara com destreza, embora esporadicamente cochilasse.

Todos estavam dispersos em realidades distintas, avessos ao que acontecia na floresta. Nutri desespero; meus olhos fumegaram e meus lábios secaram. Carmen estava oclusa em pouco mais de trezentos metros quadrados; seus olhos amendoados se limitavam a acompanhar a dimensão das folhas de estévia. Raul e Aurélio gargalhavam atrás da congonheiras e saltitavam pelos arbustos; era como se o mundo de Raul encontrasse seu fim no fundo dos olhos abissais de Aurélio. A vontade de um era, amiúde, catapultada pela do outro. As garotas, apesar de não observá-las, as percebi quando se ausentaram. Melina tinha com Ângela uma relação de simbiose que beirava o comensalismo, principalmente quando a mais jovem resolvia se expressar, algo raro. A relação de interdependência sempre existiu. O pedantismo de Melina era enriquecido com a esqualidez da irmã que a idolatrava. Quando voltaram, após vinte e sete minutos, minhas reflexões foram confirmadas assim que vi Angela carregando um pesado saco de frutas e logo à frente Melina a verborrágica segurando as duas facas. A fragilidade de uma identificava que sua submissão à outra era tão perpétua quanto a cegueira de um lagostim.

Abandonei minhas reflexões ao ouvir um grito que me tirou da inércia. Era meu pai chamando para ajudá-lo; algo fisgou o anzol. Quando me aproximei, fui surpreendido pela flexibilidade da vara de pescar. O senhor Mearim fez tanta força para içar o peixe que cerrou os dentes e fechou os olhos. Voltou a sorrir quando deitou o pacu de oito quilos em terra firme. O peixe lutou bravamente pela vida; deu um último salto de quinze centímetros antes de entregar-se à morte. Não tardei a questioná-lo sobre a isca usada para pegar o pacu. “Jenipapo, meu filho. Não há nada mais digno e justo que conquistar a sua presa oferecendo a ela uma refeição proporcional ao seu valor”, justificou meu pai.

Como estávamos sem faca para extrair as vísceras do peixe, corri até a senhora Alianza Mearim. Ao seu lado vi Melina e Angela sentadas no chão, descansando. Quando encostei a mão direita no cabo do instrumento, ouvi um estrondo. De imediato, não imaginei se foi provocado por homens ou animais. Receoso, fui até a margem e chamei meu pai. Assustados, Raul e Aurélio também vieram até nós. Ficamos todos juntos, atentos àquele som inidentificável.

Meu pai tentou nos acalmar dizendo que deveriam ser nativos colhendo jenipapo com o intuito de extrair tinta; era a melhor época do ano para a colheita. Os caçulas acreditaram, minha mãe também tentou dar veracidade à informação ao perceber que Melina e Angela estavam com olhos marejados. Passados três minutos desde a primeira tentativa de nos acalmar, o som continuava ecoando entre as congonheiras. As vozes contrastavam com o canto dos almas-de-gato que pareciam porta-vozes alertando a toda a fauna daquele local sobre um iminente acontecimento.

Fiquei desconcertado diante da situação. Por alguns segundos senti náuseas e movimentei a cabeça inúmeras vezes procurando uma explicação para tanto barulho. Depois de quatorze minutos, meu corpo estremeceu. Devagar, olhei a minha esquerda e vi meu pai caído no chão; estava com o olhar fixo para o céu e a boca aberta. Um filete de sangue percorreu-lhe os lábios enquanto esfregava as botas na terra. Tentou se levantar, mas conseguiu apenas resfolegar e encostar o queixo no peito. Uma lágrima percorreu-lhe a maçã e uniu-se ao sangue. Ainda tentou proferir algumas palavras, mas foi interrompido pelo inevitável quando apertou as pontas dos dedos da minha mão direita. Uma resfolegada derradeira indicou que de meu pai restou, naquele chão, apenas a matéria. Foi alvejado com três tiros no peito; me dei conta quando vi seus olhos pretrificados. Levei as mãos ao meu rosto e senti uma forte fragrância de pólvora sincretizada com um entorpecente cheiro de sangue.

Naquele dia, minha mãe estava usando o seu melhor vestido, usado aos domingo nas reuniões do Centro Cultural Moema. Era tão branco que lembrava cápsulas de algodão. A encontrei recostada em uma árvore, pouco tempo depois de eu abandonar o corpo de meu pai. Junto a ela, observei os cabelos finos de Raul e Aurélio. Estavam com o rosto pressionado contra os seios de Carmen Alianza. Algumas gotinhas vermelhas respingavam do bonequinho de choclo de Aurélio, à direita de nossa mãe. Foi a primeira vez que o vi imóvel naquele dia; fiquei desalentado e tive receio de me aproximar.

Frente a eles, os vi desvanecidos; serenos como se divagassem pelo mundo de Morfeu. Eram tão semelhantes vivos quanto mortos; foram assassinados com dois tiros. Um pequeno furo no centro da testa de cada um sorveu a existência dos meus dois irmãos. Fitei o sapatinho de Raul todo manchado de sangue; contra o seu peito estava o bonequinho de choclo que ele chamava de Pope. Na mão direita de Carmen Mearim havia um pequeno buraco; o primeiro tiro desferido contra ela. Na tentativa de proteger os filhos, tomou a frente, esticou o braço e abriu a mão. A primeira e a segunda bala se alojaram no pescoço. Tentou resistir, mas não conseguiu. Quando a encontrei, o sangue havia transfigurado o vestido branco em rubro. Os cabelos dos garotos estavam molhados com o sangue da mãe. Depois percebi que do lado do corpo dela havia algumas folhas de estévia.

Não consegui processar o que presenciei, fechei os olhos por um minuto, então olhei para o céu e algumas alucinações vieram à tona. Juro ter visto diante de minha cabeça uma abóbada tão rubra quanto o sangue derramado. Caí de costas e deitei no chão; ouvi um barulho e senti a poeira enegrecendo meu rosto e invadindo a minha boca. Não me importei, até que lembrei de Melina e Angela. Levantei e olhei a minha direita; as duas estavam abraçadas contra uma congonheira. Eram tão distintas quanto complementares, mas nunca havia visto-as em um abraço tão fraternal como aquele. Me aproximei e encostei minha mão no ombro de Angela; as duas caíram juntas sobre as raízes da árvore. Foram alvejadas na altura do ombro e não resistiram aos ferimentos. Tudo indica que, prevendo uma situação letal, Melina tentou proteger a irmã mais nova, porém não foi o suficiente para neutralizar as balas da carabina Spencer. Desferiram quatro tiros contra minhas irmãs e fiquei tão encolerizado que me esqueci de ter pertencido a espécie dos homens; comecei a urrar como um animal selvagem.

Peguei a faca que estava ao lado do corpo de meu pai e corri até a margem do Rio Nhu-Guaçu, onde ouvi pessoas conversando em um idioma desconhecido por mim. Fiquei mais exasperado ainda ao vê-los assando o peixe do meu pai e comendo o que sobrou do pastel mandió preparado por minha mãe. Frente ao rio, me dispersei por um instante e senti encostarem algo em minhas costas; uma arma de fogo, e não levou mais que alguns segundos para reconhecer o convite da morte. Não sei quanto tempo se passou, talvez segundos até sentir um tiro à queima roupa. Enquanto sangrei, não tencionei procurar o ferimento. Olhei para um senhor esguio e de bigode, e questionei: “Por que assassinaram minha família? Receio desconhecê-lo. Isso é terrível! Sem justificativas, nos restam apenas mortes desdouradas. Pouco sei sobre a vida, mas de algo tenho certeza, senhor. Morrer por nada é como viver sem jamais ter nascido. Para partir tranquilamente é preciso abraçar, no leito de morte, algum valor entranhado em seu coração”. O homem, de aspecto carrancudo, tirou o chapéu e se apresentou como Sargento Marco Antônio Fogassa e revelou: “De ti, tiro a individualidade para saldar os erros da coletividade, em plano específico. Entretanto, sob linhas gerais, você representa o coletivismo que suplantamos em favorecimento de interesses individuais. Me desculpe, meu amigo, mas não cabe a nós decidir onde e quando as beligerâncias acontecerão. Estou aqui para cumprir o meu papel, de dar a você e seus semelhantes uma passagem para o outro mundo, algo simplificado geograficamente. Vê aquela copa de árvores a cem metros daqui? Pois bem, ali está a nascente por onde brota a étnica inimizade. Não sei quem é você, o que faz, ou qual a sua idade, afinal, nada disso nos interessa. Poderia bem ser uma minhoca e rastejar diante de meus pés, ainda assim não lhe outorgaria o direito de viver, pois fora gestado em solo inóspito”.

Quando perguntei o que o estimulava a aniquilar inocentes, o sargento deu uma gargalhada e bradou: “A morte, nesse caso, não atesta o fim do homem, mas suja a bandeira que no mastro mais alto se move respingando sangue pelos rostos dos seus. Na guerra, não matamos homens, mas ideologias. Deitam-se os hinos e as constituições; sob a chancela dos nossos, praticamos a política da boa vizinhança. Para cada fim, cinco hectares. Uma proporção justa para assegurar o direito à saúde, moradia e alimentação”. Ao perceber meu sobressalto, o homem deu uma gargalhada, fitou os homens ao seu redor e afirmou que seria tarefa inteligível me colocar em situação de perigo real e imediato.

Sem mais esclarecimentos, o homem pediu a um soldado, com palavras e gestos, que lhe trouxesse a espada. A ergueu e vociferou: “Pelo Império do Brasil” e desferiu um golpe contra o meu peito. Comecei a perder os sentidos quando a lâmina atravessou minhas costas. Com olhos semicerrados, vi o meu mundo apagar-se vagarosamente. Ainda consegui direcionar meu rosto para o corpo de meus pais e irmãos.

Enquanto agonizava, observei soldados obnóxios colocarem em suas mãos as facas que levamos para preparar os alimentos. As pequenas mãos de Raul e Aurélio foram abertas para substituir o bonequinho de choclo por adagas com lâminas fulgurantes. Sabia que a derrocada seria inevitável, mesmo assim, quando não havia nenhum soldado próximo de mim, rastejei até a margem do Nhu-Guaçu e a ele entreguei meu corpo. Sorri pela última vez quando vi em suas águas diáfanas a imagem de Guará. Deitei de braços abertos e senti uma leveza sublime. Um efeito catártico impossibilitou que a dor consumisse meus últimos segundos de vida. Do resto, a natureza benevolente das ariranhas se encarregou; me protegeram das piranhas ansiosas por flagelarem meu corpo.

Antes do pôr-do-sol, às 17h38 do dia 16 de agosto de 1869, as águas do Nhu-Guaçu ficaram vermelhas após a ablução. Levou setenta e cinco dias para retornar à transparência. A guerra que desconhecíamos findou no ano seguinte, mas de meu corpo não encontraram vestígios.