28
Jul
08

O último solstício de inverno

Nuvens plácidas ornamentavam a imponente e fulgurante lua no dia 22 de junho de 1978. Para Gustavo Coronato, a chegada do solstício de inverno simbolizava a maior realização estética da natureza. O rapaz sentia-se tão cativado pelo fenômeno que seus olhos abissais davam a impressão de captar, sorver e então refletir a claridade lunar. Todos os anos, na data, inebriava-se logo cedo, mantendo o corpo levemente arqueado no centro da janela de características rupestres – se restringia a cumprimentar o horizonte e admitir subserviência ao satélite natural.

 

Os jansenistas religiosos de Paranavaí especulavam que a liturgia individualista de Coronato, praticada todos os anos, mesmo aparentando complacência e singularidade, era um ato pagão com o intuito de profanar o solo cristão. “O que quer este rapaz, afinal de contas? Jamais aceitaremos que alguém rendido às crenças panteístas interfira em nossos costumes. Será que ele tenciona dissuadir os moradores das imediações a agirem como ele?”, questionou a dona-de-casa Gertrudes Avanka durante uma reunião na sede da Congregação Cristalizadora da Fé. Estórias sobre o rapaz, que vivia em um sítio de nove alqueires nas imediações da cidade, proporcionavam misto de excitação e medo, mesmo sem nunca ter sido visto de perto por outras pessoas além dos pais.

 

Alguns moradores dizem que durante o inverno de 1978 era comum a cerração formar magnificente abóbada de proporções geométricas cobrindo Paranavaí de norte a sul. A chegada do nevoeiro prognosticava mais um ciclo da “prisão das terracotas”. A Denominação criada pelo advogado Cícero Vesuvili referia-se ao princípio invernal acompanhado por um som peculiar que lembrava ocarinas de terracota. “A sonoridade era acompanhada por um reboar de vozes, ora antropomorfas, ora rudimentares. A verdade é que, apesar de ser um evento inédito, ninguém arriscava inferir se o som era de origem humana ou animal. A maioria decidiu usar a imaginação para semear idéias a serem disseminadas como fatos. Era normal, principalmente em uma sociedade construída sob a égide do temor ao desconhecido”, explicou Vesuvili.

 

Segundo relatos do pioneiro Orfeu Alencastro, os mais céticos defendiam que o fenômeno se resumia aos efeitos de nuvens convectivas de trovoada. O comentário gerou embate com o posicionamento intransigente dos religiosos; estes julgaram ser as brumas de 1978 o exórdio do fim. Porém, inquestionável era o fato de que com a chegada do nevoeiro nenhum habitante conseguia enxergar qualquer coisa à altura superior a vinte metros. Apenas as crianças mais maroteiras se arriscavam em chacoalhar os galhos dos ipês na esperança de avaliar a intangibilidade da redoma.

 

O fenômeno despertou a preocupação de Marcos Roberto Barbero, tenente do Corpo de Bombeiros, que designou sete homens para retirarem as crianças de cima das árvores. Alexandre Vaz Tariani, 12, o mais traquinas dos garotos, foi encontrado mudo e exaurido no topo de um ipê-amarelo, abraçado a alguns galhos. Quando chegou ao chão, teve de ser colocado sobre uma maca frente a um prédio comercial na Rua Getúlio Vargas e levado pelo sargento Roque Frei Cruz para a residência do médico João Miercole, visto cruzando a Rua Marechal Cândido Rondon e avisado sobre o incidente.

 

Na residência de Miercole, na Rua Rio Grande do Norte, o comerciante Norberto Tariani, pai de Alexandre, ficou chocado ao ver os olhos verdes do filho transfigurados em um negro tão abissal que assumira tonalidade plástica. As mãos gélidas pareciam recém tiradas de uma câmara fria. O diagnóstico do médico evidenciou hipotermia – o termômetro registrou temperatura corporal de 25º C. Assustado, Alexandre se mantinha calado, mas arquejava involuntariamente. Os cabelos castanhos na altura do nariz ficaram rijos após contato com uma substância desconhecida de composição viscosa e aderente.

 

Naquele dia 21 de junho de 1978, o tenente da Polícia Militar Manoel Fortunato Gastri e o delegado-titular da 9ª Subdivisão Policial (SDP) Gilmar Tavares decidiram unir forças para conter os populares. Somados ao contingente do tenente Barbero, designaram trinta e dois homens, encarregando-os de percorrerem as ruas da cidade em viaturas, solicitando que os habitantes ficassem dentro de suas casas e evitassem atitudes temerárias.

 

Às 9h do dia seguinte, o sargento Joaquim Magrão, da Polícia Militar, contabilizou que percorreram todas as ruas do município; do distrito de Graciosa ao Sumaré. Pouco mais tarde, às 12h do dia 22, relatório apresentado durante reunião no Batalhão da Polícia Militar, que contou com a presença de cinquenta membros da sociedade civil, revelou ausência de danos materiais e humanos. Mesmo assim, o resultado não satisfez todos os presentes. O empresário Antenor Malagato fez frente ao dissidente coro de religiosos que balbuciavam palavras de depreciação o tempo todo durante o encontro.

 

A dona-de-casa Gertrudes Avanka chacoalhou um guarda-chuva branco apontado em direção a Gastri e bradou: “culpados devem ser encontrados e imputados pelas heresias que acontecem nesta cidade”. Manoel Fortunato, incomodado com o comentário, se dirigiu a ela e afirmou ser lamentável que tal pedido ilógico e plangente adviesse de uma mulher com formação acadêmica. A questionou sobre as relações entre intempéries e bruxaria. Antes de Gertrudes responder, o policial declarou: “cristã como se caracteriza deveria ter a indulgência e sensatez como premissa. Esteja ciente de que vossa descortesia me espanta, dona Gertrudes. A senhora nada mais é que uma inquisidora! Quer deflagrar uma guerra pessoal com o objetivo de preencher o seu vazio existencial com um anátema”.

 

Encolerizado pelos comentários da senhora Avanka, Gastri pediu a todos que tivessem opinião análoga a Gertrudes para se retirarem do Batalhão. Trinta e quatro pessoas continuaram na reunião com a PM, PC e CB. O tenente Marcos Roberto, ciente da alteração comportamental de Manoel Fortunato, pediu para deixá-lo assumir a assembléia popular. Aproveitou a oportunidade para, vinte minutos depois, fazer uma declaração oficial. “A todos os presentes devo informar que acabamos de entrar em contato com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Se comprometeram a enviar ainda hoje número suficiente de profissionais habilitados para as diligências”. A informação conquistou a simpatia da maioria dos presentes. Concomitantemente, na residência de Malagato, um grupo liderado por Gertrudes, composto por nove donas-de-casa, quatro empresários e um produtor rural, deliberou que aquele fenômeno, atribuído pela maioria à natureza, era resultado de artifícios inebriantes e suntuosos de alguém avesso ao progresso da comunidade.

 

A dona-de-casa Guilhermina Mastiggio de Souza, braço direito de Gertrudes, pediu autorização ao impaciente anfitrião e fez a primeira revelação do encontro. Enquanto gesticulava com a mão direita e segurava com a esquerda um exemplar de bolso do Novo Testamento, contou que viu se propagar no ar, na noite anterior, uma substância de coloração amarela. Ao ouvir a declaração da companheira, a impaciente senhora Avanka, que caminhava a passos desconcertados, esbravejou: “Pois bem, Guilhermina nos ofertou a mais casta das verdades. Ontem eu senti um narcotizante odor de enxofre quanto trafeguei pela Avenida Heitor Alencar Furtado em direção ao Jardim São Jorge”.

 

Gertrudes acusou Gustavo Coronato de praticar goécia e usou o agricultor Demóstenes Souto Lins como exemplo para persuadir os presentes a crerem que o rapaz simbolizava a derrocada do progresso citadino e interesses coletivos. Lins, com olhar intumescido e expressão facial ligeiramente mordaz, recobrou o silêncio no salão de festas da residência de Antenor. Contou a todos que começou a investir na cafeicultura em meados de 1960, e desde então todos os anos a safra lhe possibilitava aumentar a produtividade em 15%.

 

Quando Valter Oliveira Coronato e Lucélia Alegari Coronato faleceram em fevereiro de 1973, após acidente ferroviário em Paranaguá, Demóstenes assistiu decadência sem precedentes na história econômica de sua família. Relatou que certa noite, em março daquele ano, ouvira sons ininteligíveis ecoando em direção à sua propriedade. “Pensei que fosse coisa da minha cabeça; nada além de pura imaginação. Só acreditei nos negativos artifícios da experiência quando, em abril de 1973, antes que os frutos dos cafeeiros começaram a amadurecer, os encontrei forrando o chão. Meus amigos, foi algo inacreditável! Os frutos tinham características de ervilhas se avaliada coloração, enquanto que em proporção e tesura lembravam uvas-passas”, destacou.

 

Paulatino, Demóstenes afirmou que nas duas primeiras semanas de julho apenas os cafeeiros que estavam a leste da propriedade, próximos ao sítio da família Coronato, se desvaneceram. Em contraponto, havia frutos em vigoroso processo de maturação a oeste, ladeado pela chácara do farmacêutico Orestes Goschalk. Duas semanas mais tarde, o que restou do cafezal fora dizimado por brocas-do-café.

 

Durante alguns segundos, Lins respirou profundamente e a estouvada Gertrudes aproveitou para intervir. “Meus caros, não sei se é do conhecimento de vocês, mas em março de 1972 a Secretaria Estadual de Agricultura enviou quatro agrônomos ao Sítio do Demóstenes para avaliar a fertilidade do solo. Adivinhem o que descobriram? A incidência de pragas era nula. Foi registrado índice pluviométrico regular na região, sem adversidades”, relatou a senhora Avanka enquanto caminhou, balançou os braços e coçou a cabeça inúmeras vezes. Conforme falava, os olhos de Gertrudes cintilavam como a lâmina de uma foice preparada para a ceifa. Emendou que não havia explicação racional ou científica para os acontecimentos posteriores no sítio de Lins; atribuiu o problema a práticas de sortilégio e quebranto.

 

Gertrudes opinou que o ostracismo simboliza o arquétipo da degeneração, lembrando que Coronato caíra em total isolamento há cinco anos, desde a morte dos pais. O nome do rapaz fora precedido por olhares desdenhosos e gesticulações de menoscabo. Comentários vieram à tona na sala; uns questionando os outros sobre Gustavo, com quem nenhum deles jamais conversou. Tiveram conhecimento de sua existência por intermédio dos pais que não participavam ativamente da sociedade local, mas eram conhecidos pela discrição. Valter era agrônomo e Lucélia se restringia a cuidar do filho único e também das atividades domésticas.

 

Passados poucos minutos, Guilhermina frisou, em tom inseguro, que Ágata Fernanda Mastiggio, 15, no dia anterior, por volta das 17h20, passou de bicicleta pela BR-376. “Minha neta avistou alguém no Sítio Theia correndo em meio ao cafezal. O ser não identificado girava algo que parecia uma corda com uma grande bola de fogo na extremidade”, afirmou a senhora Mastiggio com olhos trêmulos e bíblia pressionada contra o peito. No dia mencionado pela mulher, o pôr-do-sol, de modo ímpar, pincelara o céu com cores que transcendem a beleza dionisíaca.

 

Uma outra integrante do grupo, a dona-de-casa Rosa Bargona, revelou que seu filho Geraldo Luiz Bargona, 21, também presenciou situação aterradora na noite precedente ao retornar de Alto Paraná às 20h30. O cabo do acelerador do jipe CJ5, conduzido por Bargona, se rompeu e ele teve de empurrá-lo para fora da estrada. Retirou uma lanterna à bateria de trás do banco e mirou à sua direita; foi quando percebeu que estava a 45 metros de distância da entrada do Theia. Não ficou preocupado, até porque sua mãe afirmou ser tão cético quanto um cientista diante da perspectiva de um milagre; não se deixava influenciar por mexericos.

 

Contudo, empalideceu ao se deparar com restos mortais. Suas pernas tremularam ao reconhecer fragmentos de um crânio humano recostado ao alambrado, próximo a uma embalagem plástica de velas a nove metros da porteira. Teve um extremo sobressalto quando olhou para o céu e avistou fagulhas se sovertendo a cinco metros de sua cabeça. Nos primeiros instantes, sentiu-se como se seus pés fossem as raízes de uma amendoeira. Boquiaberto, salivou e deslizou as mãos úmidas contra o rosto. Após cinco minutos, voltou a si e seguiu caminho a pé até a residência da família no Jardim Iguaçu.

 

A dona-de-casa Brenda Gonçalves dos Reis, percebendo a oportunidade de ofertar mais um depoimento, salientou: “Meu marido, José Marcos Abraão dos Reis; vocês devem conhecê-lo pelo trabalho dele na Tornearia Arenito Caiuá. Pois então, saibam que ele enfrentou situação tenebrosa quando passou em frente ao Sítio Theia. Tudo aconteceu quando retornava da casa do seu patrão Juvenal Gusmão Apronge, que mora a pouco mais de um quilômetro da propriedade dos Coronato. Era mais de cinco horas e, como sempre, ele conduzia a sua moto Guzzi. Como devem saber, ele jamais se envolveu em qualquer acidente, mas, por um artifício melindroso, quase perdeu o controle da motocicleta quando olhou para a direita, em direção ao Theia. O coitadinho viu um licantropo saltando o alambrado da propriedade com os braços arqueados. Podem acreditar nisso? Não entrou em contato direto com ele. Mas até agora se recorda de sua voz antropomorfa gutural. O ser bradou-lhe, a metros de distância e em alto tom, para nunca mais passar por aquelas bandas. Quando chegou em casa falou dezenas de vezes que não conseguia pensar em nada além da fealdade repulsiva do nefasto ser”. Ao ouvirem o relato, ninguém rejeitou o fato da suposta história induzir qualquer morador da cidade a digressões pelo extraordinário; mesmo assim a preservaram como fragmento de uma realidade inquestionável.

 

Antenor, aproveitando o silêncio deixado pelo relato de Brenda, explicou o motivo pelo qual quis contribuir com o grupo. “Peço permissão para revelar a todos os presentes, vocês, meus amigos de longa data, que minha participação na comoção social é de cunho solidário; estamos todos juntos cumprindo com nosso dever cívico. Mas peço que não esqueçam da cautela nas nossas próximas eleições. Para resolvermos problemas como esse é imprescindível a atuação de um gestor com braço forte”, frisou, com um sorriso amarelecido e punho erguido na altura do rosto, e mirando a luminária.

 

Focado no pleito eleitoral de 1980, cada frase de Antenor era precedida por uma breve explanação de sua atuação como gestor, se auto-adjetivando como o homem mais apto a estabelecer diretrizes para um futuro de plena prosperidade. Encerrava comentários com um sorriso tão exagerado que os sardônicos desafetos políticos diziam que fizera cirurgia plástica para erguer os lábios. O intuito era possibilitar que pessoas ao longe pudessem ver seus dentes à mostra, conhecido, de modo pejorativo, como um cult semblante de artificial regozijo. Outra curiosidade era um bottom confeccionado para ser distribuído às escusas em bairros periféricos. O seu era de cor escura e com a frase em branco: “Malagato O Eletivo” – sempre preso ao bolso direito da camisa branca de seda.

 

A sediciosa Gertrudes, que durante alguns minutos dedicara-se a prática de onicofagia, pediu o direito à palavra e apelou para o Velho Testamento: “Como sabem, consta no livro de Êxodo que nenhum cristão deve permitir que viva o feiticeiro”. Emitiu a frase com tanto fervor que tornou mais salientes algumas veias do pescoço. Citou episódios em que amigos e familiares viram de longe Gustavo sentado no chão arenoso, envolto por círculo de velas, adorando a lua.

 

Concluído o relato, as nove mulheres presentes, pertencentes ao grupo religioso “Congregação Cristalizadora da Fé”, em uníssono, disseram: “In nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti, Amen”. Sem velar inclinações totalitaristas, a senhora Avanka discursou que em sociedade organizada, agir de forma catoniana é o único meio efetivo para evitar que uma cidade seja catapultada aos umbrais das trevas. Quando se calou, as religiosas fizeram o sinal da cruz e içaram bíblias como um emblemático símbolo de concordância e adesão.

 

Algumas das mulheres presentes, entre as quais as donas-de-casa Filomena Jezebel de Oliveira, Josefa da Silva Brunholi e Maria Almeida Ramos, concentravam forças na iconofilia; intermitentemente abraçavam ornamentados crucifixos de prata com 35 centímetros de comprimento e 750 gramas. Já os empresários, que também eram gestores de sindicatos patronais e diretórios políticos, estavam alheios à conversa, dispersos em vislumbres particularistas. Minutos depois, não lembravam mais o nome do inimigo; sorrisos evidenciavam corriqueiras projeções futuras. O agroindustrial e líder de um partido local, Alberto Mendes Biaroni, estremeceu ao imaginar-se defronte a prefeitura; aclamado por multidão de milhares que lhe arremessavam clívias em agradecimento por salvar a cidade.

 

A divagação foi interrompida quando o empresário Rui Novaes Bérgamo lhe chamou avisando que o grupo começaria a discutir métodos para aniquilar o recôndito inimigo que vivia em Paranavaí há 25 anos, mas nunca visto na área urbana. Como desconheciam a face do ímpio e receavam qualquer feitiço, decidiram pensar em meios de exterminá-lo sem estabelecer contato direto. Na noite do dia 22, se comprometeram em resolver o problema. Decidiram que Alberto e Rui iriam até o Sítio Theia às 23h45 com a missão de detectar alguma manifestação suspeita.

 

Por volta das 23h57, Bérgamo estacionou o automóvel Alfa Romeo Giulietta Sprint a 850 metros do sítio e percorreram o resto do caminho a pé. Ao chegarem perto da casa estava tudo escuro; não havia nem mesmo uma vela acesa. Pularam o alambrado e encostaram o ouvido à porta; não ouviram nada – o silêncio era pleno. Saíram da propriedade sem fazer barulho e se deslocaram até um prédio comercial no centro da cidade, onde se comprometeram em encontrar os outros membros do grupo à 1h. O escritório na Rua Manoel Ribas, pertencia a Antenor Malagato, que mais uma vez foi o anfitrião e recebeu os dois aventureiros com sutis apertos de mão.

 

Alberto relatou a Gertrudes que Gustavo estava dormindo. Então ela os chamou e mostrou o que armazenaram dentro de um cômodo que funcionava como despensa. No interior, havia 13 galões contendo 12 litros de gasolina por unidade. Todos entenderam o que deveria ser feito. Para dar continuidade ao plano pagaram quatro foragidos de uma instituição penal paulista. Os homens colocaram os galões camuflados por caixas de papelão no interior do baú de um caminhão que pertenceu a uma transportadora de Campo Mourão.

 

Liderados por Alcides Cabral, conhecido como Javali, apelido que recebera pela saliência dos dentes frontais, que o impedia de mantê-los dentro da boca quando a fechasse, os criminosos chegaram ao Sítio Theia à 1h43. Apressados, espalharam o combustível por todo o exterior da casa. Javali pediu que mantivessem distância da residência e depois acendeu um cigarro, deu quatro tragadas, o prendeu entre os dedos médio e anelar, e o arremessou em direção a trilha de gasolina. Correram até a portaria, subiram no caminhão e nunca mais retornaram a Paranavaí.

 

Um dos foragidos, Nelson Veiga Prates, o Condor, esqueceu um galão no baú do caminhão. Javali, desinformado sobre a falha do companheiro, fez algumas manobras perigosas no percurso entre Paranavaí e Nova Esperança. A tampa do recipiente se rompeu com as pancadas provocadas pelo balanço do veículo e a gasolina logo se espalhou por todo o baú. Quando Nelson questionou que sentia cheiro de combustível, Cabral o acalmou. “Cara, não se preocupe. Fique tranqüilo; de certo, é o cheiro de gasolina em nossas mãos”, argumentou. Nelson, mesmo descrente, se calou.

 

Na cabine, o compartimento de acesso ao baú foi deixado aberto e quando Javali arremessou o toco de um cigarro pela janela, uma corrente de ar o levou de volta para dentro, em direção ao interior do baú, próximo à cabeça de Condor. Passados alguns segundos, a fumaça chegou à cabine. Quando perceberam a situação, os criminosos começaram a tossir e se digladiar para tentar sair o mais rápido possível do veículo. Javali, golpeado no rosto pelo desesperado Gringo, um dos comparsas, perdeu o controle do veículo próximo a um trevo. O caminhão caiu dentro de uma profunda erosão hídrica entre Nova Esperança e Uniflor. Com o impacto, a explosão do veículo carbonizou todos os passageiros.

 

Em 23 de junho, o Corpo de Bombeiros foi avisado por Orestes Goschalk sobre o incêndio na residência de Coronato. No local, encontraram o rapaz falecido, com queimaduras de terceiro grau em 80% do corpo. Gustavo estava estirado sobre uma pilha de centenas de livros. Seus olhos estavam intactos e fechados, como se prognosticasse o que lhe aconteceria. Tal dia marcou para sempre os moradores da cidade; não em função da morte de Coronato, com quem pouco se importavam, mas de pareceres da Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar), Secretaria Estadual de Agricultura e Instituto Nacional de Meteorologia.

 

Armando Navarro, gerente regional da Sanepar, reuniu milhares de membros da comunidade em frente ao prédio da companhia e, com um megafone, informou aos presentes que alguém invadiu a Estação de Tratamento de Água (ETA) há dois dias e despejou 37 quilos de Amanita Muscaria, cogumelo tóxico que provoca alucinações. Em meio à multidão era impossível encontrar pelo menos uma pessoa que não se surpreendera com a revelação. Depois, o assessor Élcio Gonzaga, da Secretaria Estadual de Agricultura, apresentou retratos de quatro homens presos em Londrina. Eram contratados por grileiros da região para se passarem por agrônomos do Estado. Demóstenes ficou ruborizado ao reconhecer os rostos dos logradores e foi embora antes de Gonzaga frisar que agiam no Noroeste do Estado há 14 anos. O encontro foi finalizado com o pronunciamento de um meteorologista do Inmet revelando que o quadro climático do município se enquadrava perfeitamente no padrão regional, sem qualquer alteração excepcional.

 

Hoje, poucos moradores conhecem a história de Gustavo. Lins foi o único que, de vez em quando, dedicava algum tempo tentando encontrar meios de saber como o vizinho misantropo ocupava o tempo. Ninguém sabia que Coronato laborava a roça da família todas as madrugadas, quando se sentia mais disposto a abandonar a velha casa de madeira rústica, onde passava 18 horas diárias. Trabalhava para a subsistência na lavoura subdividida em pequenas produções de arroz, feijão, berinjela e tomate. Todos os anos, os únicos dias em que não trabalhava eram 21 e 22 de junho, datas marcadas pelo solstício de inverno.

 

Não é de conhecimento popular, mas é importante ressaltar que na última noite de sua vida, Gustavo viu se formar nas nuvens projeções fisionômicas de Valter, Lucélia e também a própria quando não tinha mais de cinco anos. No latíbulo, sua mãe segurava-lhe a mão efusivamente e o pai se aproximava entregando-a uma rosa vermelha com algumas das pétalas amarelas. Ficou emocionado ao perceber a semelhança com o quadro Vendedor de Flores, do pintor suíço Jacques-Laurent Agasse. Tal sentimento arrebatador remetia ao fato dos pais terem se conhecido há 32 anos em uma floricultura, onde Valter ajudava o pai. Diante dos olhos do jovem Coronato, os personagens se moviam no céu com tanto realismo que se sentiu em uma sessão de cinema, arte que conheceu apenas nos livros. Vislumbrava a experiência ao divagar acordado; assistindo fragmentos de sua vida registrados em rolos super-8. Como background de suas digressões, o rapaz ouvia no gramofone Pailard, da década de 1940, Moonlight Serenade, de Glenn Miller.

 

Coronato acreditava que a força lunar transmitia energia enquanto que os raios solares as usurpavam diretamente do ser humano. O excesso de luminosidade o inebriava em exaustão, motivo pelo qual abandonava a residência apenas com o triunfo da lua. Quando resolvia admirá-la, o fazia por horas, formando um círculo de velas em torno do seu corpo. A intenção sempre foi evitar a aproximação de animais peçonhentos. O jovem enxergava no satélite natural uma semelhante que, como ele, vagava tanto pelo contínuo quanto pelo descontínuo. A cada dia via a lua mais distante e solitária; para a sociedade, não mais que um objeto de fetiches intransponíveis. “Sempre que a vejo ratifico-me da finitude de minha natureza. Ao contrário de vós, o declive da minha existência reafirma a sua infinitude. Ignóbil e parvo seria eu se julgasse que de ti a humanidade capacitada fosse para extrair mais que a cártula. Se lágrimas destoadas umedecem meu rosto quando a admiro é porque nem mesmo distância incomensurável e a magnitude da intangibilidade me impedem de admitir que em ti me vejo refletido em forma inominável”, declarou Gustavo à lua.

 

Às 23h27 do dia 22, o rapaz ajoelhou-se diante da lua com olhar fixo e tenro, preservado desde a infância. Recordou que a relação entre eles surgiu quando tinha apenas cinco anos. Na infância, corria à noite descalço pelo solo arenoso, em meio aos cafeeiros, gritando que a maior satisfação ao fim do dia era encontrar a lua; para ele, a intangível melhor amiga. Porém, se quando criança eram emoções pueris que despertavam atração pelo satélite natural, principalmente a beleza irradiada, na fase adulta teve certeza de ser algo mais profundo.

 

“Iludi-me com sua imagem superficial, que incendiou tantas vezes meus olhos nus. Demorei a perceber o real motivo de nossa aproximação: uma conseqüência contínua de sentimentos sôfregos incitados em mim. Como vós, também sou filho da noite; hoje mais do que nunca abjurado pela minha espécie. Embora seja eu um corpo humano de carne e ossos, e você um corpo celeste de solo e rochas, partilharemos do mesmo destino. Serei eu maculado pelo torpe assim como você. Somos naturezas que se coadunam em um espectro, alvo da jactância que visa profligar a quintessência”, disse Coronato em tom reflexivo.

 

Tal afirmação levou em conta percepções inferidas do mezanino de sua casa. Sempre que alguém lhe invadia a privacidade, com olhares acres e desdenhosos, o rapaz percebia. A vida no ostracismo despertou-lhe perspicácia sensorial a ponto de identificar pelo som até mesmo insetos que voavam a três metros de distância. Fingia não ver os perturbadores, nutrindo menoscabo por todos que tentavam aturdir-lhe a paz.

 

Antisocial desde a infância, fora alfabetizado em casa pelos pais. Ainda criança sentiu-se consubstanciado pelas palavras, seu hobby preferido. Sentado defronte à lareira em noites de inverno, Gustavo enxergava no fogo a mais perfeita projeção de sentimentos arcaicos inerentes à natureza humana. Tonalidades mais claras lhe dirimiam a fúria e desprezo pela humanidade, cedendo espaço ao amor e complacência que conhecera no seio familiar. Já cores mais escuras e vibrantes estimulavam sentimentos arrebatadores de cólera e angustia. Tais emoções se construíam sob a égide das palavras; conhecimento adquirido por meio dos livros. Gustavo se interessava por diversos gêneros, influenciado pelo pai que lhe deixou como herança uma biblioteca doméstica com 1,7 mil títulos.

 

“Desprezado sou por abraçar livros em vez de humanos. Mesmo que na terra me infiltrasse e vivesse no subsolo, lá ainda seria um inquilino indesejável perseguido como hagiômaco. Ah! Se não fosse pela Garatuja de Nepomuceno, difícil seria confrontar o derradeiro a olhos abertos. Oh Lua! Se a ti pudesse tocar com minhas mãos adormecidas pelas chamas de Golgotha, tenho certeza que suas rochas me envolveriam como braços; cairia em visceral sono, ladeado por meus pais. Sentiria o aroma das hoyas carnosas cultivadas pela minha mãe”. Estas foram as últimas frases balbuciadas por Gustavo antes de seu corpo ser consumido pelo fogo. Os olhos negros deixaram de cintilar à 1h57, quando se despediu do seu último solstício de inverno.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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