28
Jul
08

Rio de águas vermelhas

Meu nome é Pablo Mearim e morri aos quinze anos, após ver minha família ser dizimada nas imediações do Rio Nhu-Guaçu na tarde do dia 16 de agosto de 1869. Na data, saímos da nossa vila por volta das 6h30. Fomos acordados às 5h45 com a cantoria do nosso galo Guará. Quando o vimos, nos surpreendemos. As penas dele que eram claras como o céu prognosticando a chuva estavam com uma sutil tonalidade rubra. Pensamos na possibilidade de ter adoecido, tanta era a agitação quando percebeu que ficaria sozinho. Meu pai, Solano Mearim, ficou ainda mais surpreso, pois o galo nunca agira daquela forma.

O movimento das asas de Guará era tão frenético. Ele digladiou contra a própria natureza e tentou alçar vôo. Minhas irmãs, Melina, 13, e Angela, 11, gargalharam ao ver a cena. Quando nos distanciamos alguns metros o galo subiu no telhado da pequena guarita de barro construída por meu pai e saltou. Os quatro quilos de Guará fizeram-no chocar-se contra o chão arenoso. Sua vontade foi sobrepujada pela natureza. Para consolá-lo, corri até ele e o levei para dentro de casa; com um pano umedecido limpei suas penas.

Enquanto o asseava, percebi tanta complacência nos olhos de Guará que quase pedi a meu pai que deixasse levá-lo. Mas, conhecendo seu comportamento intransigente, desisti e corri até a entrada. Quando fiquei frente à cerca, olhei para trás; o movimento que fiz com as mãos o galo respondeu com a cabeça. Depois de alguns segundos, uma corrente de ar fez com que a terra emergisse e o galo se perdesse em meio à poeira. Sem avistá-lo mais, corri quarenta metros até alcançar minha família.

Eu e Guará tivemos uma amizade que durou os quinze anos da minha vida. O ganhei quando nasci; foi meu primeiro presente. Uma vizinha estava em débito com minha mãe, Carmen Alianza Mearim, pela venda de sete quilos de sabão de soda. Como não tinha condições de quitar a dívida ofertou Guará que à época tinha dois anos.

Quando os alcancei, meu pai entregou-me uma sacola contendo algumas frutas, para o caso de não obtermos êxito com a pescaria. Minha mãe e as garotas levaram mel de cana com queijo, pastel mandió e chipá-guazú. Já os gêmeos Raul e Aurélio tinham apenas cinco anos, então ocupavam as mãos com os bonequinhos confeccionados com choclo (milho terno). Apesar dos dedos miúdos, os dois tinham grande aptidão para criar os próprios brinquedos.

Durante a caminhada, o silêncio equacionou o vôo das aves que percorriam o céu sem sobreporem os cantos umas das outras. Os pássaros almas-de-gato cantavam com basilar maestria. Tive a impressão de que entre aquelas aves havia um regente. Adentramos a Floresta dos Cucos para encurtar o caminho até o rio; trajeto que também não seria completado em menos de duas horas. Após sessenta minutos de caminhada, Raul e Aurélio foram consumidos pela estafa; paramos debaixo de uma congonheira e ficamos ali sentados pelo menos vinte minutos. Às 7h50, nosso pai deu a ordem para seguir viagem. Raul se aproximou vagarosamente de mim, tocou em meu ombro e disse em baixo tom: “Minhas pernas formigam de tanta fadiga”. Me abaixei e ele subiu em minhas costas para continuamos o percurso.

Circunspecto, nosso pai sempre pedia para sermos cautelosos a tudo ao nosso redor; três anos antes seu compadre Gabriel Cales fora morto por uma sucuri de 8,5 metros. A cobra logo recebera o apelido de Bapo porque era a única que tinha um chocalho na cauda e emitia um som semelhante ao executado pelo maracá dos nativos. Os moradores do povoado de Cori costumavam dizer que a cobra era a encarnação do pajé tupi-guarani Essá-Etê que teve sua aldeia incinerada pelos brancos.

No último mês, comentou-se que em um período de três anos a cobra se alimentou de vinte e oito pessoas. A história chegou ao conhecimento de todos por intermédio de um ancião indígena de 105 anos, Aderbal Tucunaré, único remanescente da tribo Eçabara. O líder tribal aprendeu a ler e escrever para catalogar os nomes das árvores que existiam nas imediações da nossa vila. Apesar da idade, a decrepitude jamais suplantou a ladinice de Tucunaré. Inclusive, no dia da morte de Cales, ele observou tudo a quatro metros de altura. Subiu em um lapacho rosado logo após o alarde de Bapo. Infeliz foi Cales; nunca imaginou que uma cobra tão grande carregaria um chocalho na cauda. A confundiu com o maracá dos nativos, um erro infactível. Enganou-se ao interpretar o som e após correr dois metros se deparou com a cabeça da anaconda. Ficou vertiginosamente espantado, tanto que o ancião tem dúvidas se Gabriel morreu antes ou depois de ser asfixiado por Bapo.

Quando estávamos nos aproximando do Nhu-Guaçu, fitei Aurélio parado e inerte. Sua atenção estava voltada para o bando de queixadas que seguia para o oeste. Ele apontou o miúdo dedo indicador para cada um dos animais e gritou eufórico: “27! 27! 27! É isso! Acertei!”. Estava tão feliz por vê-los quanto por demonstrar ao nosso pai que já sabia contar. Aurélio cativava os taguicatis com naturalidade. Cheguei a pensar que se comunicava com eles. Recordo-me de um queixada saindo da fila indiana e observando Aurélio por alguns segundos. Tempo suficiente para o macho mais velho do bando, um tajaçu de 108 centímetros e pelagem tão negra que parecia pintada, interromper o trajeto. O dissidente voltou exatamente para o lugar onde estava, respeitando a hierarquia pecari.

Já era pouco mais de 8h30 quando avistamos o Nhu-Guaçu. A água era tão límpida que os raios de sol projetavam a imagem do céu naquela imensidão diáfana. Esperto, Raul saltou das minhas costas e correu em direção à margem. Quando chegamos, pela primeira vez ao longo do trajeto, nosso pai sorriu, rotacionou o corpo e gritou: “Meus filhos, a beleza natural subsiste no imaculado, por isso nunca deve ser passível de transmutação, evitando disformidade. A perfeição do intangível e do impalpável impelem os olhos às lagrimas e por que? É onde a mão reversa do homem ainda não alcançou”. Emocionado, o senhor Mearim abriu os braços, ficou sobre as pontas dos dedos e deixou-se conduzir pelo vento que vinha do Norte. De olhos fechados, entrou em introspecção por dois minutos.

Minha mãe, preocupada com a refeição, me chamou e pediu para tomar conta de Raul e Aurélio enquanto Melina e Angela ajudavam com as iguarias e especiarias. Fiquei ao lado dos garotos que davam golpes na água com os pés. Conforme lhes umedecia os rostos, sorriam de forma tão pueril e benevolente que os percebi extasiados em sua Babilônia. Nem mesmo os extemporâneos pernilongos, sequiosos por sangue, lhes proporcionavam qualquer incômodo. Em breve reflexão, me dei conta de que haviam criado um mundo ocluso, do qual faria parte apenas quem eles quisessem. Uma condição meramente psicológica, mas motivada por uma vontade cândida; truísta para crianças, todavia hermética aos adultos.

Não se passou mais de quinze minutos e meu pai me chamou. Pediu para ajudá-lo a colocar morenitas nos anzóis. Terminado o trabalho, percorremos onze metros e posicionamos, em paralelo, duas varas de bambu presas a uma rocha com corda de palha. Conhecedor da área, meu pai contou que há cinco anos presenciou o pescador Castilho Rojas retirar trezentos quilos de peixe do Nhu-Guaçu; entre as espécies havia pintado, dourado e pacu. Mas a situação se complicou três anos antes, quando cresceu a incidência de traíras e piranhas. Por algumas semanas resultou na decaída do número de pescadores na área. Porém, logo apareceram as ariranhas que reduziram em mais de 50% a presença de peixes carnívoros.

Instantes depois de ouvir a história, escutei passos curtos e rápidos de alguém arquejando; Raul gritou que tinha visto uma ariranha emergir do fundo do rio. O mamífero de 1,80 metro despertou abrupta curiosidade nos garotos, principalmente pela aparência dócil e esguia. “Pabi, podemos tocá-las? É tão bonita. Nada me deixaria mais feliz agora que tocar aquela pele lisa e macia”, perguntou e comentou Aurélio com olhar fixo. Quando abri a boca para articular uma frase, minha mãe relatou-lhes que só podiam observar, porque qualquer mordida provocaria infecção e os levaria a morte. Os olhos de Aurélio e Raul intumesceram e ficaram lívidos em imaginar tal possibilidade.

Melina e Angela estenderam uma toalha de mesa sobre o chão, preparando a ceia. Já era mais de 11h quando Aurélio se aproximou e disse sentir tanta fome que seu estômago começou a entoar a guarânia (música típica paraguaia). A mãe deu um breve sorriso e pediu para chamarem o pai. Passaram-se duas horas desde que ele sentou-se diante do Nhu-Guaçu. Estava tão atento ao movimento do anzol que acompanhava com os olhos a profundidade até onde alcançava a linha. Não pescou muito, mas garantiu a ceia; me entregou um saco com dois pintados que pesavam em torno de cinco quilos cada.

Antes de comermos, sentamos os sete em torno da toalha de mesa, onde estavam todos os alimentos. Começamos a ceia tomando tererê. A guampa confeccionada com chifre bovino foi passada de mão em mão. Depois de satisfeitos, o que restou da erva-mate foi enterrado ao lado da toalha, respeitando um ritual cíclico: o que é da terra volta para a terra. Quando tomávamos tererê sentíamos os efeitos da catarse. Meu pai enfatizava ser a única bebida que carrega a essência imutável da natureza e da nossa identidade cultural.

Aurélio e Raul não tiravam os olhos do pastel mandió e do chipa-guazú, então a senhora Carmen apressou-se em servi-los. Eu e o senhor Mearim nos abstemos de outros pratos enquanto comíamos o peixe. Para nós, uma peculiar tradicão, visando evitar que o sabor da carne branca fosse maculado pelo sincretismo de outros alimentos. Às 13h, satisfeitos, resolvemos fazer a sesta. Apenas Aurélio e Raul não quiseram, os únicos que não foram conquistados pela massa verde e circunforme balançando suavemente. Sentados frente a frente, os garotos posicionaram os bonequinhos de choclo com os pés enterrados na terra, correram até a margem e buscaram um pouco de água. Usaram um pequeno pedaço de madeira pontiaguda de cedro e escavaram oitenta e seis centímetros. Ali preencheram o buraco e, em segundos, a água, de diáfana, se transformou em um líquido marrom avermelhado. Brincaram durante quarenta e dois minutos, arremessando os bonequinhos, até que todos acordaram.

Minha mãe pediu a Melina e Angela para procurarem frutas para levarmos a nossa vila. Preocupado com a segurança delas, o senhor Solano pediu que levassem facas, pois não tinham experiência alguma em exploração florestal. Logo empreenderam caminhada em meio aos cedros; as perdemos de vista bem rápido. De qualquer modo, Melina era tão verborrágica que não precisávamos vê-la para identificar sua voz a noventa metros.

Estávamos em uma área de grande flora herbácea, possibilitando que a senhora Carmen logo se distraísse, principalmente com o grande volume de estévias. Seus dedos hábeis acariciavam os galhos delgados antes de cortá-los. A precisão denunciou vinte anos de conhecimento sobre ervas aromáticas e medicinais. Antes de cortar cada galho, tinha o hábito de distanciar-se trinta e cinco centímetros da planta e efetuar um movimento circunforme com a cabeça, algo que, segundo ela, definiria o ponto ideal do corte. “A fragrância de cada planta denuncia que algumas folhas têm mais qualidade que outras, mesmo dividindo o mesmo galho”, afirmou a senhora Mearim.

Meu pai estava novamente à margem do rio, atento a qualquer vibração do anzol. Por alguns minutos, observei tudo a minha volta, mas o que mais despertou minha atenção foi o silêncio. Em meio à floresta, senti o conforto emanado pela natividade. Era incomum demais para compor um elemento cotidiano. Preocupei-me quando não localizei nenhuma ave sobre cedros e congonheiras. Até mesmo os pernilongos que tanto nos incomodaram estavam recônditos. Corri até a margem do Nhu-Guaçu e também não identifiquei nenhum ser vivo na água. Apenas vi o senhor Solano segurando a vara com destreza, embora esporadicamente cochilasse.

Todos estavam dispersos em realidades distintas, avessos ao que acontecia na floresta. Nutri desespero; meus olhos fumegaram e meus lábios secaram. Carmen estava oclusa em pouco mais de trezentos metros quadrados; seus olhos amendoados se limitavam a acompanhar a dimensão das folhas de estévia. Raul e Aurélio gargalhavam atrás da congonheiras e saltitavam pelos arbustos; era como se o mundo de Raul encontrasse seu fim no fundo dos olhos abissais de Aurélio. A vontade de um era, amiúde, catapultada pela do outro. As garotas, apesar de não observá-las, as percebi quando se ausentaram. Melina tinha com Ângela uma relação de simbiose que beirava o comensalismo, principalmente quando a mais jovem resolvia se expressar, algo raro. A relação de interdependência sempre existiu. O pedantismo de Melina era enriquecido com a esqualidez da irmã que a idolatrava. Quando voltaram, após vinte e sete minutos, minhas reflexões foram confirmadas assim que vi Angela carregando um pesado saco de frutas e logo à frente Melina a verborrágica segurando as duas facas. A fragilidade de uma identificava que sua submissão à outra era tão perpétua quanto a cegueira de um lagostim.

Abandonei minhas reflexões ao ouvir um grito que me tirou da inércia. Era meu pai chamando para ajudá-lo; algo fisgou o anzol. Quando me aproximei, fui surpreendido pela flexibilidade da vara de pescar. O senhor Mearim fez tanta força para içar o peixe que cerrou os dentes e fechou os olhos. Voltou a sorrir quando deitou o pacu de oito quilos em terra firme. O peixe lutou bravamente pela vida; deu um último salto de quinze centímetros antes de entregar-se à morte. Não tardei a questioná-lo sobre a isca usada para pegar o pacu. “Jenipapo, meu filho. Não há nada mais digno e justo que conquistar a sua presa oferecendo a ela uma refeição proporcional ao seu valor”, justificou meu pai.

Como estávamos sem faca para extrair as vísceras do peixe, corri até a senhora Alianza Mearim. Ao seu lado vi Melina e Angela sentadas no chão, descansando. Quando encostei a mão direita no cabo do instrumento, ouvi um estrondo. De imediato, não imaginei se foi provocado por homens ou animais. Receoso, fui até a margem e chamei meu pai. Assustados, Raul e Aurélio também vieram até nós. Ficamos todos juntos, atentos àquele som inidentificável.

Meu pai tentou nos acalmar dizendo que deveriam ser nativos colhendo jenipapo com o intuito de extrair tinta; era a melhor época do ano para a colheita. Os caçulas acreditaram, minha mãe também tentou dar veracidade à informação ao perceber que Melina e Angela estavam com olhos marejados. Passados três minutos desde a primeira tentativa de nos acalmar, o som continuava ecoando entre as congonheiras. As vozes contrastavam com o canto dos almas-de-gato que pareciam porta-vozes alertando a toda a fauna daquele local sobre um iminente acontecimento.

Fiquei desconcertado diante da situação. Por alguns segundos senti náuseas e movimentei a cabeça inúmeras vezes procurando uma explicação para tanto barulho. Depois de quatorze minutos, meu corpo estremeceu. Devagar, olhei a minha esquerda e vi meu pai caído no chão; estava com o olhar fixo para o céu e a boca aberta. Um filete de sangue percorreu-lhe os lábios enquanto esfregava as botas na terra. Tentou se levantar, mas conseguiu apenas resfolegar e encostar o queixo no peito. Uma lágrima percorreu-lhe a maçã e uniu-se ao sangue. Ainda tentou proferir algumas palavras, mas foi interrompido pelo inevitável quando apertou as pontas dos dedos da minha mão direita. Uma resfolegada derradeira indicou que de meu pai restou, naquele chão, apenas a matéria. Foi alvejado com três tiros no peito; me dei conta quando vi seus olhos pretrificados. Levei as mãos ao meu rosto e senti uma forte fragrância de pólvora sincretizada com um entorpecente cheiro de sangue.

Naquele dia, minha mãe estava usando o seu melhor vestido, usado aos domingo nas reuniões do Centro Cultural Moema. Era tão branco que lembrava cápsulas de algodão. A encontrei recostada em uma árvore, pouco tempo depois de eu abandonar o corpo de meu pai. Junto a ela, observei os cabelos finos de Raul e Aurélio. Estavam com o rosto pressionado contra os seios de Carmen Alianza. Algumas gotinhas vermelhas respingavam do bonequinho de choclo de Aurélio, à direita de nossa mãe. Foi a primeira vez que o vi imóvel naquele dia; fiquei desalentado e tive receio de me aproximar.

Frente a eles, os vi desvanecidos; serenos como se divagassem pelo mundo de Morfeu. Eram tão semelhantes vivos quanto mortos; foram assassinados com dois tiros. Um pequeno furo no centro da testa de cada um sorveu a existência dos meus dois irmãos. Fitei o sapatinho de Raul todo manchado de sangue; contra o seu peito estava o bonequinho de choclo que ele chamava de Pope. Na mão direita de Carmen Mearim havia um pequeno buraco; o primeiro tiro desferido contra ela. Na tentativa de proteger os filhos, tomou a frente, esticou o braço e abriu a mão. A primeira e a segunda bala se alojaram no pescoço. Tentou resistir, mas não conseguiu. Quando a encontrei, o sangue havia transfigurado o vestido branco em rubro. Os cabelos dos garotos estavam molhados com o sangue da mãe. Depois percebi que do lado do corpo dela havia algumas folhas de estévia.

Não consegui processar o que presenciei, fechei os olhos por um minuto, então olhei para o céu e algumas alucinações vieram à tona. Juro ter visto diante de minha cabeça uma abóbada tão rubra quanto o sangue derramado. Caí de costas e deitei no chão; ouvi um barulho e senti a poeira enegrecendo meu rosto e invadindo a minha boca. Não me importei, até que lembrei de Melina e Angela. Levantei e olhei a minha direita; as duas estavam abraçadas contra uma congonheira. Eram tão distintas quanto complementares, mas nunca havia visto-as em um abraço tão fraternal como aquele. Me aproximei e encostei minha mão no ombro de Angela; as duas caíram juntas sobre as raízes da árvore. Foram alvejadas na altura do ombro e não resistiram aos ferimentos. Tudo indica que, prevendo uma situação letal, Melina tentou proteger a irmã mais nova, porém não foi o suficiente para neutralizar as balas da carabina Spencer. Desferiram quatro tiros contra minhas irmãs e fiquei tão encolerizado que me esqueci de ter pertencido a espécie dos homens; comecei a urrar como um animal selvagem.

Peguei a faca que estava ao lado do corpo de meu pai e corri até a margem do Rio Nhu-Guaçu, onde ouvi pessoas conversando em um idioma desconhecido por mim. Fiquei mais exasperado ainda ao vê-los assando o peixe do meu pai e comendo o que sobrou do pastel mandió preparado por minha mãe. Frente ao rio, me dispersei por um instante e senti encostarem algo em minhas costas; uma arma de fogo, e não levou mais que alguns segundos para reconhecer o convite da morte. Não sei quanto tempo se passou, talvez segundos até sentir um tiro à queima roupa. Enquanto sangrei, não tencionei procurar o ferimento. Olhei para um senhor esguio e de bigode, e questionei: “Por que assassinaram minha família? Receio desconhecê-lo. Isso é terrível! Sem justificativas, nos restam apenas mortes desdouradas. Pouco sei sobre a vida, mas de algo tenho certeza, senhor. Morrer por nada é como viver sem jamais ter nascido. Para partir tranquilamente é preciso abraçar, no leito de morte, algum valor entranhado em seu coração”. O homem, de aspecto carrancudo, tirou o chapéu e se apresentou como Sargento Marco Antônio Fogassa e revelou: “De ti, tiro a individualidade para saldar os erros da coletividade, em plano específico. Entretanto, sob linhas gerais, você representa o coletivismo que suplantamos em favorecimento de interesses individuais. Me desculpe, meu amigo, mas não cabe a nós decidir onde e quando as beligerâncias acontecerão. Estou aqui para cumprir o meu papel, de dar a você e seus semelhantes uma passagem para o outro mundo, algo simplificado geograficamente. Vê aquela copa de árvores a cem metros daqui? Pois bem, ali está a nascente por onde brota a étnica inimizade. Não sei quem é você, o que faz, ou qual a sua idade, afinal, nada disso nos interessa. Poderia bem ser uma minhoca e rastejar diante de meus pés, ainda assim não lhe outorgaria o direito de viver, pois fora gestado em solo inóspito”.

Quando perguntei o que o estimulava a aniquilar inocentes, o sargento deu uma gargalhada e bradou: “A morte, nesse caso, não atesta o fim do homem, mas suja a bandeira que no mastro mais alto se move respingando sangue pelos rostos dos seus. Na guerra, não matamos homens, mas ideologias. Deitam-se os hinos e as constituições; sob a chancela dos nossos, praticamos a política da boa vizinhança. Para cada fim, cinco hectares. Uma proporção justa para assegurar o direito à saúde, moradia e alimentação”. Ao perceber meu sobressalto, o homem deu uma gargalhada, fitou os homens ao seu redor e afirmou que seria tarefa inteligível me colocar em situação de perigo real e imediato.

Sem mais esclarecimentos, o homem pediu a um soldado, com palavras e gestos, que lhe trouxesse a espada. A ergueu e vociferou: “Pelo Império do Brasil” e desferiu um golpe contra o meu peito. Comecei a perder os sentidos quando a lâmina atravessou minhas costas. Com olhos semicerrados, vi o meu mundo apagar-se vagarosamente. Ainda consegui direcionar meu rosto para o corpo de meus pais e irmãos.

Enquanto agonizava, observei soldados obnóxios colocarem em suas mãos as facas que levamos para preparar os alimentos. As pequenas mãos de Raul e Aurélio foram abertas para substituir o bonequinho de choclo por adagas com lâminas fulgurantes. Sabia que a derrocada seria inevitável, mesmo assim, quando não havia nenhum soldado próximo de mim, rastejei até a margem do Nhu-Guaçu e a ele entreguei meu corpo. Sorri pela última vez quando vi em suas águas diáfanas a imagem de Guará. Deitei de braços abertos e senti uma leveza sublime. Um efeito catártico impossibilitou que a dor consumisse meus últimos segundos de vida. Do resto, a natureza benevolente das ariranhas se encarregou; me protegeram das piranhas ansiosas por flagelarem meu corpo.

Antes do pôr-do-sol, às 17h38 do dia 16 de agosto de 1869, as águas do Nhu-Guaçu ficaram vermelhas após a ablução. Levou setenta e cinco dias para retornar à transparência. A guerra que desconhecíamos findou no ano seguinte, mas de meu corpo não encontraram vestígios.


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