Arquivo para Agosto, 2008

14
Ago
08

Os olhos de Ivad

Por muito tempo, Ivad foi um ser nostálgico, embriagado em um lago de devaneios impessoais que canibalizavam sua pessoalidade. Pueril, demorou a perceber sua capacidade de observar o mundo com seus próprios olhos. Quando dormia, sentia-se sempre nos confins de sonhos ilógicos, estáticos e inalterados. Pela manhã, acordava questionando-se sobre o motivo pelo qual os homens adotavam para si a ideologia de outrem, mesmo sem a certeza da crença em algo. Questionava se apenas rememoravam a insipidez da crise existencial ou também mercantilizavam a própria imagem. Divagava tanto que logo surgia uma súbita dificuldade de enxergar. Seria o primeiro sinal de catarata ou glaucoma? Nada disso, era Ivad emocionado. Sentado sobre o galho de uma árvore, banhava-se em lágrimas e, apático, logo sucumbia diante das agruras da realidade humana. Vivia assim, caindo e levantando; monologando e refletindo sobre a condição existencial dos homens.

Quando completou 24 anos, Ivad, insatisfeito e repleto de dúvidas sobre o comportamento humano, resolveu fazer sua primeira viagem longe do clã dos Choira. Conscientes de que o jovem Ivad deveria conhecer vários mundos, diferente daquele com o qual se acostumara, os anciãos o apoiaram em sua jornada, mas exigiram que ele aceitasse a companhia de Ainos, uma jovem da mesma idade. Os dois partiram em uma madrugada de lua nova, quando o entristecer das pradarias foi reconfortado, mais adiante, pelo despontar de girassóis em tons tão purificados que pareciam envoltos por nimbos.

Ivad, de aspecto sorumbático e olhos acinzentados, caminhava calado. Ainos, o contraponto de feições gentis e olhar vivificado, o observava constantemente, tentando encontrar em alguma expressão singela a informação que pudesse cristalizar uma ponte de comunicação entre eles. Ivad temia dividir suas dúvidas e curiosidades com a companheira de viagem. Para ele, mesmo que pertencessem a um mesmo mundo material, ela ainda lhe era como alguém de outra espécie. Ainos o percebia distante, mas sentia-se impelida a saber o que tanto Ivad procurava e porque lhe era tão importante.

No terceiro dia da jornada, Ainos, estarrecida pelo silêncio de Ivad, decidiu questioná-lo. “O que procura em outros mundos que não existe no seu? Não temes o ardil de seus olhos? Somos reféns deles, podem tanto clarear quanto obscurecer nossas vidas e nossos sonhos. Se abri-los demais, pode se ferir com o cisco de outra realidade. Mas, também, se não abri-lo, há de enxergar apenas o mundo semeado em seu interior”. Ivad, então, dialogou pela primeira vez durante a viagem. “Na minha busca não há certezas, apenas incertezas. Mas preciso ir além do meu universo simbólico para conhecer a verdade dos relatos que me fizeram sobre os homens. Realmente dividem características de deuses e demônios? A mais pura metáfora da incoerência mundana? “, perguntou com expressão tímida. Ivad quis observá-la melhor tanto quanto quis desviar a profundidade de seus olhos – anseios paradoxais.

No oitavo dia da jornada, Ainos fez um comentário que surpreendeu Ivad. “Percebes que o interesse de alguém por algo pode torná-lo parte do que procura, do seu próprio interesse? Tudo depende da intensidade, e não do seu valor positivo ou negativo. Um ser confunde-se com outro quando a curiosidade chega a ponto de torná-lo avesso a sua própria natureza”. Ivad, acostumado ao ostracismo, decidiu não refugiar-se em seus receios. Relatou a companheira de viagem uma miríade de informações sobre si mesmo.

“Talvez tenha razão. Quem sabe minha preocupação com os homens nasceu de um tácito anseio de tornar-me um. Ou melhor, uma razão desconhecida para existir; algo que me fizesse crer que sou real, e ao mesmo tempo destribalizado, diferente de meus semelhantes. Para ser sincero, não dá para afirmar que essa foi minha única intenção. Isso porque também sou ilusão; uma oferenda a mim mesmo quando faço uso do açoite psicológico”, disse Ivad sentindo-se vulnerável.

A natureza de Ivad intrigava Ainos que jamais encontrara alguém tão peculiar. Tais existências antagônicas eram como peças que dão sustentabilidade a uma ponte que liga dois universos esculpidos dentro de um. No décimo dia de viagem, quando chegaram a entrada do mundo dos homens, Ivad olhou para Ainos e hesitou. Deu três passos para trás e ela o acompanhou com olhos marejados. Aproximou-se dele, encostou sutilmente a mão em seu ombro e perguntou com voz trêmula: “Vai desistir de sanar suas dúvidas? Encontrar respostas para as questões que o incomodam? Vai abandonar o sonho de adentrar a realidade dos humanos?”.

Ivad não desviou os olhos de Ainos. Deu o seu primeiro sorriso sincero, embora acanhado, e explicou: “Agora percebo porque a designaram para me acompanhar. Não foi coincidência ou receio de que eu pudesse não retornar, muito pelo contrário. Vejo agora o quão confuso estive; não procurava homem algum, mas a mim mesmo. Por um artifício de ingenuidade, decidi vagar para encontrar meu espaço entre os mundos. Tolice de minha parte acreditar que precisaria ir tão longe para sentir-me vivo. Agora ouço a minha respiração, ela acompanha a sua voz. Não preciso existir em um lugar, mas junto de alguém; uma existência que complementa a minha e para a qual eu também sirva de extensão. Algo como o encontro das águas de dois rios que antes do poente entrelaçam-se dignificando uma única existência. É assim que todos os seres pensantes sobrevivem, não enaltecendo a grandiosidade da própria sapiência, mas encontrando-a na experiência partilhada com outro”, revelou Ivad.

Naquele dia, Ivad desistiu de continuar a viagem, mas descobriu, no cerne de sua existência, curiosamente despertada por uma pessoa que não a si mesmo, motivo para iniciar uma nova jornada, sem hesitações ou receios. “Não preciso mais conhecer o mundo dos homens, pois sei que dentro de mim não habita apenas uma espécie, mas o sincretismo de todas aquelas que, embora imperfeitas, resplandecem sob o manto da Terra”, afirmou.