14
ago
08

Os olhos de Ivad

Por muito tempo, Ivad foi um ser nostálgico, embriagado em um lago de devaneios impessoais que canibalizavam sua pessoalidade. Pueril, demorou a perceber sua capacidade de observar o mundo com seus próprios olhos. Quando dormia, sentia-se sempre nos confins de sonhos ilógicos, estáticos e inalterados. Pela manhã, acordava questionando-se sobre o motivo pelo qual os homens adotavam para si a ideologia de outrem, mesmo sem a certeza da crença em algo.

Questionava se apenas rememoravam a insipidez da crise existencial ou também mercantilizavam a própria imagem. Divagava tanto que logo surgia uma súbita dificuldade de enxergar. Seria o primeiro sinal de catarata ou glaucoma? Nada disso, era Ivad emocionado. Sentado sobre o galho de uma árvore, banhava-se em lágrimas e, apático, logo sucumbia diante das agruras da realidade humana. Vivia assim, caindo e levantando; monologando e refletindo sobre a condição existencial dos homens.

Quando completou 24 anos, Ivad, insatisfeito e repleto de dúvidas sobre o comportamento humano, resolveu fazer sua primeira viagem longe do clã dos Choira. Conscientes de que o jovem Ivad deveria conhecer vários mundos, diferente daquele com o qual se acostumara, os anciãos o apoiaram em sua jornada, mas exigiram que ele aceitasse a companhia de Ainos, uma jovem da mesma idade. Os dois partiram em uma madrugada de lua nova, quando o entristecer das pradarias foi reconfortado, mais adiante, pelo despontar de girassóis em tons tão purificados que pareciam envoltos por nimbos.

Ivad, de aspecto sorumbático e olhos acinzentados, caminhava calado. Ainos, o contraponto de feições gentis e olhar vivificado, o observava constantemente, tentando encontrar em alguma expressão singela a informação que pudesse cristalizar uma ponte de comunicação entre eles. Ivad temia dividir suas dúvidas e curiosidades com a companheira de viagem. Para ele, mesmo que pertencessem a um mesmo mundo material, ela ainda lhe era como alguém de outra espécie. Ainos o percebia distante, mas sentia-se impelida a saber o que tanto Ivad procurava e porque lhe era tão importante.

No terceiro dia da jornada, Ainos, estarrecida pelo silêncio de Ivad, decidiu questioná-lo. “O que procura em outros mundos que não existe no seu? Não temes o ardil de seus olhos? Somos reféns deles, podem tanto clarear quanto obscurecer nossas vidas e nossos sonhos. Se abri-los demais, pode se ferir com o cisco de outra realidade. Mas, também, se não abri-lo, há de enxergar apenas o mundo semeado em seu interior.”

Ivad, então, dialogou pela primeira vez durante a viagem. “Na minha busca não há certezas, apenas incertezas. Mas preciso ir além do meu universo simbólico para conhecer a verdade dos relatos que me fizeram sobre os homens. Realmente dividem características de deuses e demônios? A mais pura metáfora da incoerência mundana? “, perguntou com expressão tímida. Ivad quis observá-la melhor tanto quanto quis desviar a profundidade de seus olhos – anseios paradoxais.

No oitavo dia da jornada, Ainos fez um comentário que surpreendeu Ivad. “Percebes que o interesse de alguém por algo pode torná-lo parte do que procura, do seu próprio interesse? Tudo depende da intensidade, e não do seu valor positivo ou negativo. Um ser confunde-se com outro quando a curiosidade chega ao ponto de torná-lo avesso a sua própria natureza.” Ivad, acostumado ao ostracismo, decidiu não refugiar-se em seus receios. Relatou a companheira de viagem uma miríade de informações sobre si mesmo.

“Talvez tenha razão. Quem sabe minha preocupação com os homens nasceu de um tácito anseio de tornar-me um. Ou melhor, uma razão desconhecida para existir; algo que me fizesse crer que sou real, e ao mesmo tempo destribalizado, diferente de meus semelhantes. Para ser sincero, não dá para afirmar que essa foi minha única intenção. Isso porque também sou ilusão; uma oferenda a mim mesmo quando faço uso do açoite psicológico”, disse Ivad, sentindo-se vulnerável.

A natureza de Ivad intrigava Ainos que jamais encontrara alguém tão peculiar. Tais existências antagônicas eram como peças que dão sustentabilidade a uma ponte que liga dois universos esculpidos dentro de um. No décimo dia de viagem, quando chegaram a entrada do mundo dos homens, Ivad olhou para Ainos e hesitou. Deu três passos para trás e ela o acompanhou com olhos marejados. Aproximou-se dele, encostou sutilmente a mão em seu ombro e perguntou com voz trêmula: “Vai desistir de sanar suas dúvidas? Encontrar respostas para as questões que o incomodam? Vai abandonar o sonho de adentrar a realidade dos humanos?”

Ivad não desviou os olhos de Ainos. Deu o seu primeiro sorriso sincero, embora acanhado, e explicou:

— Agora percebo porque a designaram para me acompanhar. Não foi coincidência ou receio de que eu pudesse não retornar, muito pelo contrário. Vejo agora o quão confuso estive; não procurava homem algum, mas a mim mesmo. Por um artifício de ingenuidade, decidi vagar para encontrar meu espaço entre os mundos. Tolice de minha parte acreditar que precisaria ir tão longe para sentir-me vivo. Agora ouço a minha respiração. Ela acompanha a sua voz. Não preciso existir em um lugar, mas junto de alguém; uma existência que complementa a minha e para a qual eu também sirva de extensão. Algo como o encontro das águas de dois rios que antes do poente entrelaçam-se dignificando uma única existência. É assim que todos os seres pensantes sobrevivem, não enaltecendo a grandiosidade da própria sapiência, mas encontrando-a na experiência partilhada com outro.

Naquele dia, Ivad desistiu de continuar a viagem, mas descobriu, no cerne de sua existência, curiosamente despertada por uma pessoa que não a si mesmo, motivo para iniciar uma nova jornada, sem hesitações ou receios. “Não preciso mais conhecer o mundo dos homens, pois sei que dentro de mim não habita apenas uma espécie, mas o sincretismo de todas aquelas que, embora imperfeitas, resplandecem sob o manto da Terra”, afirmou.

28
jul
08

A primeira confidência de Magno

Paranavaí, 14 de setembro de 1981.

Minha cara amiga, bem sabe que a ti não escrevo há muito tempo. Se ainda rememora, nos conhecemos no alvorecer do inverno de 1974, ano em que minha família mudou para esta cidade. Não sei se já lhe mencionei, mas a senhora minha mãe, a priori, hesitou em deixar a antiga morada, principalmente a pequena estufa onde cultivava suas amalgamadas hortaliças; mas como sabia que resultaria em significativa evolução pecuniária, não impôs obstáculos. Durante a viagem, tivemos inúmeras discussões no interior do Mercedes-Benz 220S. Quando aqui chegamos, observei a cidade através do vidro embaçado pela geada. Meu pai recomendou não abrir a janela para evitar que contraíssemos resfriado.

 

Insatisfeito, friccionei minha mão contra o vidro e deslizei os dedos em movimentos circulares. Não fiquei extasiado no primeiro encontro com a cidade, mas me recordo bem de quatro imagens: uma bela jovem de aspecto taciturno atravessando a rua a passos céleres; um cão de raça indefinida e olhos fechados, bebendo a água da chuva que escorria em direção a galeria pluvial; um senhor idoso em pé sob a marquise de uma loja de departamentos, com cachimbo enviesado na boca, apontando o dedo para o céu e monologando; uma criança sentada sobre um balão vermelho-carmesim e degustando sofregamente um doce de caramelo. Todas essas imagens me foram proporcionadas tendo como trilha sonora a música Invisible Tears, do mestre Conniff, executada em volume aprazível no toca-fitas de meu pai.

 

Naquele dia, quando chegamos à nova residência a garoa se dissipara e minha mãe ficou mais serena. Meus pais não me pediram nenhuma ajuda, apenas adentraram a casa e recomendaram que não ficasse muito tempo ali fora. Sentei sobre o meio-fio e percorri as imediações com os olhos. Tive abrupta curiosidade em saber quem eram os vizinhos, o que faziam, se tinham animais e filhos. Da residência em frente à nossa, um casarão de madeira abandonado há décadas, vi apenas as chamas de um castiçal por detrás de uma cortina bege. Minutos depois, você veio até mim, caminhando sutilmente, com um olhar tímido, proporcional à sua beleza pueril. Fiquei calado, sem saber se deveria falar ou aguardar que você se manifestasse. Quando entrelacei as mãos e comecei a pressionar os dedos, me cumprimentou cordialmente, com voz suave e amistosa; assim iniciamos, em uma conversa trivial, amizade que sempre considerei infindável.

 

Por respeito, carinho e, acima de tudo, considerar-te a pessoa mais confiável com quem tive o prazer de conviver, resolvi relatar algumas experiências que tive depois de sua partida no dia 21 de dezembro de 1980. Os relatos talvez representem apenas a minha perspectiva memorial. Porém, tentarei ser o mais fidedigno possível aos acontecimentos que me marcaram profundamente. Saiba, dirimiram-me comportamentos e fizeram despontar no cerne de minha existência, reflexões desconhecidas por mim nos meandros de uma juventude ora quixotesca, ora melindrosa. Admito ter refletido muito antes de escrever esta carta; muitas vezes optei por amassar essas folhas e jogá-las na sarjeta, inclusive o fiz. Mas, suplantado por um remorso varonil, decidi, conclusivamente, enfrentar o desafio. Sem digressões, apresentar-lhe-ei, minha amiga, os fatos mais obscuros já vivenciados por mim.

 

Não estou a fazer revelações com o desígnio de receber qualquer retorno, pois julgamentos de ordem sentimental, penso eu, não cabem a ser humano algum, nem mesmo no estado mais próspero de sua lacônica sobriedade. Oferto-te, com palavras tremidas pelo destempero de minha leniência, o juvenil alvorecer de uma de minhas facetas, forjada por uma inconcussa personificação. De qualquer modo, ressalto-lhe que o opróbrio vergasta-me compulsivamente, fazendo sentir-me como se pertencesse a uma raça ou espécie de ser desconhecido, nascido de um ritual de acasalamento entre a apatia e o medo. Pois bem, perdoe-me a subjetividade; deve estar enfastiada por tantas tergiversações. Comecemos os relatos para os quais lhe cobro exímia atenção.

 

Por alguns meses, semeei com alguns camaradas uma relação regozijante, embora volúvel. Saíamos nos finais de semana e viajávamos para cidades da região. Buscávamos fenômenos naturais passíveis de serem fotografados com a minha câmera Leica, a qual você deve se recordar, ganhei de meu avô no natal de 1976. A princípio, percorríamos até oitenta quilômetros com o Jeep Willys de meu pai; depois decidimos ir além, chegando a ficar de três a cinco dias acampados às margens do Rio Paraná e Paranapanema. Viajávamos em quatro e, para minha surpresa, os três camaradas para os quais darei nomes fictícios por discrição, carregavam armas brancas e de fogo em meio aos mantimentos armazenados em três sacos de estopa. A primeira vez que me mostraram as armas, estávamos acampando a 150 metros do Rio Paraná, na Ilha Floresta.

 

Foi em um final de tarde, e a iniciativa de apresentá-las a mim partiu de Ulisses. Ele preparou uma fogueira com gravetos recolhidos nas imediações e trouxe um pequeno saco escuro fechado por um cordão de fibra. Me pediu para abri-lo e quando coloquei a mão no fundo encontrei um revólver municiado. Curioso, questionei o motivo pelo qual levaram pistolas. Alfeu disse que fui tolo em denominar um peculiar instrumento de limpeza e purificação como simples arma. Bem, naquele momento resolvi me calar, inclusive pensei em voltar para casa. Preocupado, Beni fez sinal para o camarada se calar e me ofertou informações reveladoras. Contou-me primeiro que cada uma das três armas de fogo tinha um nome: expiação, expurgação e remissão; a primeira pertencente a Ulisses, a segunda a Beni e a terceira a Alfeu.

 

Segundo eles, as usavam com a intenção divina de livrar o Estado da degradação. Algumas de suas frases ainda continuam frescas em minha memória, como se as ouvisse agora: “Nem todos que vivem nasceram para existir. Muitos ainda não enxergam na morte o prelúdio para o renascimento. São esses que eliminamos. Muitos daqueles que vemos no horizonte e nos certificamos de sua inferioridade. Sim, eles têm os mesmos órgãos que nós; fisicamente são semelhantes. Mas por isso devem ser tratados como iguais? De modo algum! Nascer pode ser um direito, mas para existir você precisa merecer”.

 

Ulisses me entregou uma pistola no mesmo dia, por volta das 15h. Ressaltou que tomou a liberdade de batizá-la antes de me presentear. A denominou como catuiara; era negra como a noite e representava para os membros da pequena organização um artefato de características magnânimas. A tonalidade escura simbolizava a sua autoridade como agenciadora da morte; pensei também que remetia aos magistrados. Enquanto refletia, Alfeu interveio: “Agora você é um de nós, membro da Juventude Carayba”, e bateu a mão sobre o meu ombro, complementando que eu tinha um legado a defender com a própria vida, se necessário. Ignorei tal comentário, mas resolvi, em um ímpeto transviado, participar do grupo para saber quais eram as atividades desempenhadas por eles.

 

Na minha primeira experiência como Carayba, percorremos o Rio Paraná com o auxílio de um pescador local chamado Catulo, que complementava a renda familiar trabalhando como guia em horários alternativos. Ulisses explicou a ele que estávamos em busca de boas caças. Conhecido do grupo, o pescador sorriu e nos levou até a Ilha do Mártir, a trinta e sete quilômetros do local onde acampamos no dia anterior. Ao chegar lá, vi uma pequena vila; crianças imundas brincavam em torno de casebres de barro. Apenas as mais pequenas não se incomodavam com a nossa presença. Os adultos nos observavam como se fôssemos a mais fidedigna representação do mal.

 

Fiquei calado e caminhei ladeado por Beni. Catulo, Ulisses e Alfeu estavam à nossa frente, dialogando em tão baixo tom que não consegui compreender. Beni chamou minha atenção e declarou, apontando com a mão esquerda: “Veja, meu amigo, poderia chamar isso de civilização? Isso é tão degradante quanto a realidade vivenciada nos cortiços das megalópoles. Sabe por que nos incomoda tanto? É um vil retorno ao arcaico, à degeneração do homem e a pressuposição da banalização existencial e, também, de valores. Mas não se preocupe, pois aos poucos ceifaremos o mal. No fim, a árvore se tornará estéril e poucos frutos podres se manterão nos galhos. Por pouco tempo, pois, com a força de um mero sopro, nada há de restar, e logo a brisa de um novo tempo irá se instaurar. Serão novas árvores, com frutos sadios e promissores”.

 

Entramos em um dos casebres, onde um senhor seminu, de pele enrugada, fina e escura, tiritava sobre uma cama composta por galhos e folhas de bananeira. Além dele, outras duas crianças também contraíram malária; uma de cinco e outra de sete anos que dormiam profundamente sobre uma disforme, embora circular poça de vômitos. Betânia, mãe das crianças e filha do senhor adoentado, estava desesperada. Veio até nós e, com lábios trêmulos, suplicou por uma intervenção. Prostrada diante de meus pés, descalça e trajando apenas os retalhos desbotados de algo que fora um vestido, começou a afirmar, aos prantos e agarrando a barra de minha calça, que não tinham condições financeiras para ir até a cidade mais próxima, muito menos levá-los a um hospital.

 

Dessa mulher, ainda me recordo a dualidade dos olhos; pessimistas, mas curiosamente auspiciosos. Não cintilava de modo algum, nem com as lágrimas que, incessantes, faziam o rosto brilhar com a plasticidade de uma bola de bilhar. Notei uma efêmera chama tentando transcender; para mim, foi como observar uma vela ao fundo de um poço descoberto, resfolegando, lutando para se esquivar da chuva. Contudo, julguei ser mais fácil enxergar vivacidade nos olhos fixos de um animal recém alvejado por um caçador.

 

Apesar de pequeno, o casebre de chão de terra batida parecia apto a receber os passos do ceifador. Por um momento, o imaginei deslizando sua foice de cabo longo e lâmina coruscante pelo chão, fazendo brotar, no centro de lugar nenhum, o prelúdio da Marcha Fúnebre. Perguntei a Betânia se aqueles eram seus únicos filhos; quando ouvi a resposta, senti um calafrio que percorreu a espinha dorsal. “Não são meus únicos, são meus últimos”, declarou. Joaquim, Antônio e Lucinda eram remanescentes de um grupo de doze filhos. As outras nove crianças estavam enterradas atrás do casebre. Questionei por qual motivo resolveu sepultá-los ao lado da única parte do cômodo onde estavam dispostas as camas feitas com galhos e folhas de bananeiras. Imagine só! O que separava os filhos vivos dos mortos era uma pequena parede que, aos poucos, tornava-se cada vez mais fina. Parecia próxima do desvanecimento; até imaginei o desmoronar do humilde casebre.

 

Betânia, depois de ouvir a pergunta e o comentário, não se incomodou em respondê-la, muito pelo contrário. Olhou-me como se o questionamento fosse natural. Levou as mãos aos cabelos, coçou a cabeça em um gesto acanhado e contou: “Meu filho, não é a chuva que desfaz esse barro, mas a vontade deles de estarem mais próximos de mim. Quando me deito e encosto a cabeça junto à parede, às vezes escuto a respiração de Roberto atravessando esse pequenino furo. Se um dia acontecer dessa casa cair, a vida não poderá nos separar mais”, relatou Betânia em tom de voz condescendente.

 

Cada palavra daquela jovem mulher, com o corpo marcado por diversas cicatrizes, em vez de sanar minha curiosidade, apenas aumentava. A observava e me sentia impelido a perguntar a história de cada uma daquelas marcas. Não tive coragem, mas pareciam registros litúrgicos. Ulisses, Alfeu e Beni ao perceberem meu interesse em conversar com Betânia, me julgaram copiosamente com olhares flamejantes. Tentavam me acovardar, me impelindo a ignorá-la. Queriam inebriar-me por um medo ainda desconhecido por mim.

 

Quando a mulher percebeu que eu não desviava os olhos das cicatrizes em seus braços, ela os aproximou de mim, os estirou em minha direção e disse: “É isso que chama a sua atenção? Algumas são grandes, né? Essas fui eu mesma quem fiz. Para cada filho perdido, desenho em minha pele um símbolo do que ele representava pra mim. O tamanho varia conforme a idade e a altura. Vê essa espinha de peixe? Fiz pensando em Roberto; nadava como se tivesse barbatanas nos pés. O bichinho era rápido como um lambari”, contou a mulher, sorrindo pela primeira vez desde a minha chegada. Betânia, com ingente simplicidade, se limitava a uma vida de penitência. Suas cicatrizes, confeccionadas com lâminas de pedra, eram como tatuagens, castigos físicos e psicológicos com os quais convivia.

 

Mas, entenda minha amiga, não eram as únicas cicatrizes estampadas no corpo da mulher. Em suas costas, parcialmente descobertas, havia outras; assim como nos ombros, nas duas panturrilhas e nos calcanhares. Eram muito diferentes das demais. Quando as fitei, ela fez o possível para ocultá-las; mudou a feição na hora. A ternura dos minutos anteriores foi substituída por vergonha e cólera incompreendida por mim. Resolvi me calar e desviei o olhar; Ulisses me puxou pelo braço e disse precisar falar comigo em particular. A alguns metros do casebre, sob a sombra de um limoeiro, me disse, em tom irascível, que se eu tivesse alguma dúvida ou curiosidade deveria perguntar a eles e não a uma estranha de quem eu nada sabia. Então ele me revelou algo de que duvidei no primeiro momento. “Somos os responsáveis por aquelas cicatrizes. Essa gente que nada representa para o mundo, a não ser uma úlcera em ebulição, não têm sentimentos. Não se engane, meu amigo! O que fazemos aqui é reeducá-los e, se necessário, eliminar o lixo nocivo à natureza”, revelou Ulisses, mantendo o olhar turvo e esboçando sorriso satírico.

 

Quando retornamos ao interior do casebre, Betânia estava ao lado de seu pai, que depois soube se chamar Ajuricaba e era conhecido no vilarejo como frei. Observei o homem adoecido, a filha de um lado, e os netos do outro, cabisbaixos e inertes como se fossem bonecos de pano e não humanos. Tentei entender o que significava as outras cicatrizes no corpo daquela mulher, mas não consegui. Ela percebeu a minha ânsia quando se levantou e me flagrou observando a marca de um corte transversal em suas costas. Betânia pediu aos meus camaradas para saírem do casebre por alguns minutos, pois tencionava falar comigo sobre um assunto que, segundo ela, não era do interesse deles. Alfeu tentou resistir e caminhou em direção a mulher, mas foi interrompido por Beni que o puxou pelo braço.

 

Sozinho com ela e sua família, Betânia disse: “Para você, talvez sejam apenas cicatrizes; algumas mais profundas que outras. Mas não é isso que vejo, de modo algum. Vê essa maior em minhas costas? A chamo de dignidade; perdida quando fracassei em resistir à dor. Vê essa no meu calcanhar? Seu nome é resignação, pois aceitei o que me foi imposto. Tenho muitas outras, como humilhação, fraqueza, torpor, desprezo, agonia e desespero. São tantas marcas visíveis em meu corpo. Mas nenhuma superior ao sentimento que a representa”.

 

Depois de ouvi-la, não percebi em seu rosto nenhuma emoção. Tive dificuldade em enxergar uma expressão vaga, mas que escondia no cerne de sua existência a dor intangível; a única e incômoda inquilina. O corpo estampava muitos sentimentos espoliados; se julgava inapta a recuperá-los. Betânia aguardava em seu mundo tornado vazio, o golpe de misericórdia; para ela, o único sonho próximo da realidade.

 

Pergunto-lhe, minha cara, se nada restava a mulher, em seu universo de incongruências e degenerescências, por que quando adentrei o casebre desesperou-se e pediu minha ajuda? Betânia me contou ter visto em mim a fragrância da vida. “Senti seu cheiro ao longe; não é de um moribundo como de seus amigos, e sim de alguém que carrega a unção na própria alma. Me senti liberta por um instante, e vi em você a ponte que poderia nos levar a algum lugar”, justificou Betânia.

 

Passados onze minutos, impaciente, Alfeu empurrou a porta e chamou a mulher para fora do casebre. Quando ela estava saindo, mandou que escolhesse dois dos três filhos para levá-los consigo. Ulisses me chamou e pediu para buscar a minha Leica, deixada dentro da mochila no barco de Catulo. Fui correndo e ao retornar vi Betânia do lado de fora da casa, recostada à parede, abraçada com os filhos Joaquim e Antônio. Quinho e Toninho, como eram chamados pela mãe, estavam descalços e sonolentos; vestidos com largas e surradas túnicas amendoadas.

 

Toninho, o mais velho, de sete anos, segurava o irmão de cinco anos pelo braço, para evitar que se machucasse ao se chocar contra o chão forrado de gravetos e cascalho. Não foi capaz de mantê-lo de pé por muito tempo; Quinho começou a regurgitar, então Alfeu gritou. Fatigado, com olhar esparso e lábios ressecados, Joaquim, o pequenino homem, não conseguiu chorar. Betânia, que adotara feição melancólica, ficou calada. Ulisses se aproximou dela e ordenou a limpeza do vômito do filho com a língua. Julguei que Beni e Alfeu sorririam, com base em minhas experiências junto a eles – o burlesco regozijo nutrido pela humilhação de outrem. Mas a obviedade de suas origens, refiro-me em específico a proeminente educação da casta aristocracia, os impelia a deixar transparecer somente expressões faciais despida de sons; embora o suficiente para evidenciar satisfação incomensurável.

 

Fiquei parado observando atentamente o acontecido. A mulher deslizou a língua pelo chão com ternura e comiseração, como se tocasse o rosto do filho. Em nenhum momento a vi franzir a testa ou demonstrar repugnância. Quando se levantou, sequer limpou os lábios; continuou silenciosa ao lado dos filhos. Com feição de desprezo, Alfeu deu três passos em direção a Betânia e fez uma proposta: “Se você resistir à dor que lhe infligiremos, nos comprometemos em levá-los de barco até o porto. De lá, vamos para a cidade e pagamos para os seus dois filhos o melhor hospital da região. Mas se você desfalecer, eles quem pagarão o preço. O que você acha? Penso que não há nada a perder, pois ficando aqui, morrerão de qualquer jeito”. Betânia olhou ternamente para os filhos algumas vezes, titubeou por instantes, mas suponho que admitiu a si mesma a falta de condições; aceitou a proposta.

 

Ulisses e Beni comemoraram a decisão trocando mórbidos olhares. Continuei calado, assistindo o acontecido como mero voyeur. As cenas de violência contra Betânia foram grotescas em demasia, então prefiro não relatar as minúcias da sevícia aplicada pelos três camaradas. Para que tenha noção da gravidade dos atos, hei de citar exemplos. Os primeiros golpes foram desferidos por Alfeu; usou como instrumento um anzol preso a um roliço cabo de madeira. Betânia resistiu, mas não por muito tempo. Depois dos doze primeiros golpes, começou a gemer e ofegar enquanto tentava agarrar com as unhas a parede de barro. Olhava para os filhos e se desesperava cada vez mais, consciente da fraqueza poder lhe tirar algo mais importante que a própria vida.

 

Depois, Beni apareceu com uma fivela de ferro presa a uma enegrecida cinta de couro; machucou-lhe as costas e a cabeça com golpes severos. Ulisses também participou; usando um fundíbulo, arremessou pedras contra o ventre de Betânia. Considerei a situação insustentável quando o rosto da mulher ficou ensangüentado. Resolvi intervir; despertei a ira de meus companheiros. Beni pediu que eu me afastasse e, com um olhar reprovador, citou Nietzche: “As próprias mulheres, no fundo de toda a sua vaidade pessoal, têm sempre um desprezo impessoal, meu amigo”. A atitude de Beni foi corroborada por Alfeu e Ulisses; este último seguiu o exemplo do amigo: “Saiba, meu camarada, quase sempre elas fingem desprezar o que mais vivamente desejam”, bradou.

 

Os ignorei e ordenei que parassem enquanto Betânia mantinha-se de pé, sob pernas trêmulas, mas com os olhos semicerrados. Começamos a discutir e me esqueci do grave estado da mulher. Olhei para o lado e, ela estava arqueando o corpo em direção ao solo. Dentro de mim, emergiu um sentimento confuso de culpa pelo que acontecera. Me joguei no chão, tentando evitar a sua derrota. Era tarde demais; Betânia sucumbira mais uma vez. Enquanto continuava desfalecida no chão, os três buscaram os seus revólveres no interior do barco e voltaram para o local onde estávamos. Fiquei ali, divagando enquanto segurava a cabeça de Betânia e umedecia-lhe o rosto com a água de uma poça a menos de um metro do seu corpo. Sabia que não estava morta, mas não entendi o motivo pelo qual resistia tanto em abrir os olhos e lutar pela vida. A resposta para tal pergunta não me foi ofertada por Betânia, e sim por seis sons taciturnos que adentraram o meu ouvido como se, juntos, formassem uma lâmina dilaceradora de princípios e convicções.

 

Não soube o que sentir, ou como reagir, quando percebi mais uma vez o meu fracasso. Eram elas triunfando novamente: a expiação, a expurgação e a remissão. Minha cara, descobri naquele dia que não é o formato o responsável por dignificá-las, e sim a capacidade em enxergá-las. Sei do meu desmerecimento pelo perdão, pois fui ineficaz em desempenhar o papel de um bom juiz. Mas naquele dia percebi que mesmo sem usar a catuiara, eu também fui um Carayba; e a derrota que atribui a Betânia era alegoria da minha própria. Tive mais certeza ainda ao voltar para casa e me conscientizar de ter retornado incompleto. Muitos sentimentos foram sepultados naquela ilha, mesmo que eu não tenha tido a capacidade de enterrá-los.

 

Me despeço de ti envergonhado por desapontá-la e também por não ter coragem de cotejá-la. Entrementes, orgulhoso de jamais hesitar em partilhar com você os fatos que somam e circundam a minha realidade, mesmo descritos em frágeis folhas de papel. Espero, um dia, o obséquio de poder revê-la, mesmo que seja de longe, em um turvo dia, com o rosto próximo à janela do Mercedes 220S, onde as lágrimas invisíveis de Conniff deslizam com amiúde maestria atemporal.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

28
jul
08

O último solstício de inverno

Nuvens plácidas ornamentavam a imponente e fulgurante lua no dia 22 de junho de 1978. Para Gustavo Coronato, a chegada do solstício de inverno simbolizava a maior realização estética da natureza. O rapaz sentia-se tão cativado pelo fenômeno que seus olhos abissais davam a impressão de captar, sorver e então refletir a claridade lunar. Todos os anos, na data, inebriava-se logo cedo, mantendo o corpo levemente arqueado no centro da janela de características rupestres – se restringia a cumprimentar o horizonte e admitir subserviência ao satélite natural.

 

Os jansenistas religiosos de Paranavaí especulavam que a liturgia individualista de Coronato, praticada todos os anos, mesmo aparentando complacência e singularidade, era um ato pagão com o intuito de profanar o solo cristão. “O que quer este rapaz, afinal de contas? Jamais aceitaremos que alguém rendido às crenças panteístas interfira em nossos costumes. Será que ele tenciona dissuadir os moradores das imediações a agirem como ele?”, questionou a dona-de-casa Gertrudes Avanka durante uma reunião na sede da Congregação Cristalizadora da Fé. Estórias sobre o rapaz, que vivia em um sítio de nove alqueires nas imediações da cidade, proporcionavam misto de excitação e medo, mesmo sem nunca ter sido visto de perto por outras pessoas além dos pais.

 

Alguns moradores dizem que durante o inverno de 1978 era comum a cerração formar magnificente abóbada de proporções geométricas cobrindo Paranavaí de norte a sul. A chegada do nevoeiro prognosticava mais um ciclo da “prisão das terracotas”. A Denominação criada pelo advogado Cícero Vesuvili referia-se ao princípio invernal acompanhado por um som peculiar que lembrava ocarinas de terracota. “A sonoridade era acompanhada por um reboar de vozes, ora antropomorfas, ora rudimentares. A verdade é que, apesar de ser um evento inédito, ninguém arriscava inferir se o som era de origem humana ou animal. A maioria decidiu usar a imaginação para semear idéias a serem disseminadas como fatos. Era normal, principalmente em uma sociedade construída sob a égide do temor ao desconhecido”, explicou Vesuvili.

 

Segundo relatos do pioneiro Orfeu Alencastro, os mais céticos defendiam que o fenômeno se resumia aos efeitos de nuvens convectivas de trovoada. O comentário gerou embate com o posicionamento intransigente dos religiosos; estes julgaram ser as brumas de 1978 o exórdio do fim. Porém, inquestionável era o fato de que com a chegada do nevoeiro nenhum habitante conseguia enxergar qualquer coisa à altura superior a vinte metros. Apenas as crianças mais maroteiras se arriscavam em chacoalhar os galhos dos ipês na esperança de avaliar a intangibilidade da redoma.

 

O fenômeno despertou a preocupação de Marcos Roberto Barbero, tenente do Corpo de Bombeiros, que designou sete homens para retirarem as crianças de cima das árvores. Alexandre Vaz Tariani, 12, o mais traquinas dos garotos, foi encontrado mudo e exaurido no topo de um ipê-amarelo, abraçado a alguns galhos. Quando chegou ao chão, teve de ser colocado sobre uma maca frente a um prédio comercial na Rua Getúlio Vargas e levado pelo sargento Roque Frei Cruz para a residência do médico João Miercole, visto cruzando a Rua Marechal Cândido Rondon e avisado sobre o incidente.

 

Na residência de Miercole, na Rua Rio Grande do Norte, o comerciante Norberto Tariani, pai de Alexandre, ficou chocado ao ver os olhos verdes do filho transfigurados em um negro tão abissal que assumira tonalidade plástica. As mãos gélidas pareciam recém tiradas de uma câmara fria. O diagnóstico do médico evidenciou hipotermia – o termômetro registrou temperatura corporal de 25º C. Assustado, Alexandre se mantinha calado, mas arquejava involuntariamente. Os cabelos castanhos na altura do nariz ficaram rijos após contato com uma substância desconhecida de composição viscosa e aderente.

 

Naquele dia 21 de junho de 1978, o tenente da Polícia Militar Manoel Fortunato Gastri e o delegado-titular da 9ª Subdivisão Policial (SDP) Gilmar Tavares decidiram unir forças para conter os populares. Somados ao contingente do tenente Barbero, designaram trinta e dois homens, encarregando-os de percorrerem as ruas da cidade em viaturas, solicitando que os habitantes ficassem dentro de suas casas e evitassem atitudes temerárias.

 

Às 9h do dia seguinte, o sargento Joaquim Magrão, da Polícia Militar, contabilizou que percorreram todas as ruas do município; do distrito de Graciosa ao Sumaré. Pouco mais tarde, às 12h do dia 22, relatório apresentado durante reunião no Batalhão da Polícia Militar, que contou com a presença de cinquenta membros da sociedade civil, revelou ausência de danos materiais e humanos. Mesmo assim, o resultado não satisfez todos os presentes. O empresário Antenor Malagato fez frente ao dissidente coro de religiosos que balbuciavam palavras de depreciação o tempo todo durante o encontro.

 

A dona-de-casa Gertrudes Avanka chacoalhou um guarda-chuva branco apontado em direção a Gastri e bradou: “culpados devem ser encontrados e imputados pelas heresias que acontecem nesta cidade”. Manoel Fortunato, incomodado com o comentário, se dirigiu a ela e afirmou ser lamentável que tal pedido ilógico e plangente adviesse de uma mulher com formação acadêmica. A questionou sobre as relações entre intempéries e bruxaria. Antes de Gertrudes responder, o policial declarou: “cristã como se caracteriza deveria ter a indulgência e sensatez como premissa. Esteja ciente de que vossa descortesia me espanta, dona Gertrudes. A senhora nada mais é que uma inquisidora! Quer deflagrar uma guerra pessoal com o objetivo de preencher o seu vazio existencial com um anátema”.

 

Encolerizado pelos comentários da senhora Avanka, Gastri pediu a todos que tivessem opinião análoga a Gertrudes para se retirarem do Batalhão. Trinta e quatro pessoas continuaram na reunião com a PM, PC e CB. O tenente Marcos Roberto, ciente da alteração comportamental de Manoel Fortunato, pediu para deixá-lo assumir a assembléia popular. Aproveitou a oportunidade para, vinte minutos depois, fazer uma declaração oficial. “A todos os presentes devo informar que acabamos de entrar em contato com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Se comprometeram a enviar ainda hoje número suficiente de profissionais habilitados para as diligências”. A informação conquistou a simpatia da maioria dos presentes. Concomitantemente, na residência de Malagato, um grupo liderado por Gertrudes, composto por nove donas-de-casa, quatro empresários e um produtor rural, deliberou que aquele fenômeno, atribuído pela maioria à natureza, era resultado de artifícios inebriantes e suntuosos de alguém avesso ao progresso da comunidade.

 

A dona-de-casa Guilhermina Mastiggio de Souza, braço direito de Gertrudes, pediu autorização ao impaciente anfitrião e fez a primeira revelação do encontro. Enquanto gesticulava com a mão direita e segurava com a esquerda um exemplar de bolso do Novo Testamento, contou que viu se propagar no ar, na noite anterior, uma substância de coloração amarela. Ao ouvir a declaração da companheira, a impaciente senhora Avanka, que caminhava a passos desconcertados, esbravejou: “Pois bem, Guilhermina nos ofertou a mais casta das verdades. Ontem eu senti um narcotizante odor de enxofre quanto trafeguei pela Avenida Heitor Alencar Furtado em direção ao Jardim São Jorge”.

 

Gertrudes acusou Gustavo Coronato de praticar goécia e usou o agricultor Demóstenes Souto Lins como exemplo para persuadir os presentes a crerem que o rapaz simbolizava a derrocada do progresso citadino e interesses coletivos. Lins, com olhar intumescido e expressão facial ligeiramente mordaz, recobrou o silêncio no salão de festas da residência de Antenor. Contou a todos que começou a investir na cafeicultura em meados de 1960, e desde então todos os anos a safra lhe possibilitava aumentar a produtividade em 15%.

 

Quando Valter Oliveira Coronato e Lucélia Alegari Coronato faleceram em fevereiro de 1973, após acidente ferroviário em Paranaguá, Demóstenes assistiu decadência sem precedentes na história econômica de sua família. Relatou que certa noite, em março daquele ano, ouvira sons ininteligíveis ecoando em direção à sua propriedade. “Pensei que fosse coisa da minha cabeça; nada além de pura imaginação. Só acreditei nos negativos artifícios da experiência quando, em abril de 1973, antes que os frutos dos cafeeiros começaram a amadurecer, os encontrei forrando o chão. Meus amigos, foi algo inacreditável! Os frutos tinham características de ervilhas se avaliada coloração, enquanto que em proporção e tesura lembravam uvas-passas”, destacou.

 

Paulatino, Demóstenes afirmou que nas duas primeiras semanas de julho apenas os cafeeiros que estavam a leste da propriedade, próximos ao sítio da família Coronato, se desvaneceram. Em contraponto, havia frutos em vigoroso processo de maturação a oeste, ladeado pela chácara do farmacêutico Orestes Goschalk. Duas semanas mais tarde, o que restou do cafezal fora dizimado por brocas-do-café.

 

Durante alguns segundos, Lins respirou profundamente e a estouvada Gertrudes aproveitou para intervir. “Meus caros, não sei se é do conhecimento de vocês, mas em março de 1972 a Secretaria Estadual de Agricultura enviou quatro agrônomos ao Sítio do Demóstenes para avaliar a fertilidade do solo. Adivinhem o que descobriram? A incidência de pragas era nula. Foi registrado índice pluviométrico regular na região, sem adversidades”, relatou a senhora Avanka enquanto caminhou, balançou os braços e coçou a cabeça inúmeras vezes. Conforme falava, os olhos de Gertrudes cintilavam como a lâmina de uma foice preparada para a ceifa. Emendou que não havia explicação racional ou científica para os acontecimentos posteriores no sítio de Lins; atribuiu o problema a práticas de sortilégio e quebranto.

 

Gertrudes opinou que o ostracismo simboliza o arquétipo da degeneração, lembrando que Coronato caíra em total isolamento há cinco anos, desde a morte dos pais. O nome do rapaz fora precedido por olhares desdenhosos e gesticulações de menoscabo. Comentários vieram à tona na sala; uns questionando os outros sobre Gustavo, com quem nenhum deles jamais conversou. Tiveram conhecimento de sua existência por intermédio dos pais que não participavam ativamente da sociedade local, mas eram conhecidos pela discrição. Valter era agrônomo e Lucélia se restringia a cuidar do filho único e também das atividades domésticas.

 

Passados poucos minutos, Guilhermina frisou, em tom inseguro, que Ágata Fernanda Mastiggio, 15, no dia anterior, por volta das 17h20, passou de bicicleta pela BR-376. “Minha neta avistou alguém no Sítio Theia correndo em meio ao cafezal. O ser não identificado girava algo que parecia uma corda com uma grande bola de fogo na extremidade”, afirmou a senhora Mastiggio com olhos trêmulos e bíblia pressionada contra o peito. No dia mencionado pela mulher, o pôr-do-sol, de modo ímpar, pincelara o céu com cores que transcendem a beleza dionisíaca.

 

Uma outra integrante do grupo, a dona-de-casa Rosa Bargona, revelou que seu filho Geraldo Luiz Bargona, 21, também presenciou situação aterradora na noite precedente ao retornar de Alto Paraná às 20h30. O cabo do acelerador do jipe CJ5, conduzido por Bargona, se rompeu e ele teve de empurrá-lo para fora da estrada. Retirou uma lanterna à bateria de trás do banco e mirou à sua direita; foi quando percebeu que estava a 45 metros de distância da entrada do Theia. Não ficou preocupado, até porque sua mãe afirmou ser tão cético quanto um cientista diante da perspectiva de um milagre; não se deixava influenciar por mexericos.

 

Contudo, empalideceu ao se deparar com restos mortais. Suas pernas tremularam ao reconhecer fragmentos de um crânio humano recostado ao alambrado, próximo a uma embalagem plástica de velas a nove metros da porteira. Teve um extremo sobressalto quando olhou para o céu e avistou fagulhas se sovertendo a cinco metros de sua cabeça. Nos primeiros instantes, sentiu-se como se seus pés fossem as raízes de uma amendoeira. Boquiaberto, salivou e deslizou as mãos úmidas contra o rosto. Após cinco minutos, voltou a si e seguiu caminho a pé até a residência da família no Jardim Iguaçu.

 

A dona-de-casa Brenda Gonçalves dos Reis, percebendo a oportunidade de ofertar mais um depoimento, salientou: “Meu marido, José Marcos Abraão dos Reis; vocês devem conhecê-lo pelo trabalho dele na Tornearia Arenito Caiuá. Pois então, saibam que ele enfrentou situação tenebrosa quando passou em frente ao Sítio Theia. Tudo aconteceu quando retornava da casa do seu patrão Juvenal Gusmão Apronge, que mora a pouco mais de um quilômetro da propriedade dos Coronato. Era mais de cinco horas e, como sempre, ele conduzia a sua moto Guzzi. Como devem saber, ele jamais se envolveu em qualquer acidente, mas, por um artifício melindroso, quase perdeu o controle da motocicleta quando olhou para a direita, em direção ao Theia. O coitadinho viu um licantropo saltando o alambrado da propriedade com os braços arqueados. Podem acreditar nisso? Não entrou em contato direto com ele. Mas até agora se recorda de sua voz antropomorfa gutural. O ser bradou-lhe, a metros de distância e em alto tom, para nunca mais passar por aquelas bandas. Quando chegou em casa falou dezenas de vezes que não conseguia pensar em nada além da fealdade repulsiva do nefasto ser”. Ao ouvirem o relato, ninguém rejeitou o fato da suposta história induzir qualquer morador da cidade a digressões pelo extraordinário; mesmo assim a preservaram como fragmento de uma realidade inquestionável.

 

Antenor, aproveitando o silêncio deixado pelo relato de Brenda, explicou o motivo pelo qual quis contribuir com o grupo. “Peço permissão para revelar a todos os presentes, vocês, meus amigos de longa data, que minha participação na comoção social é de cunho solidário; estamos todos juntos cumprindo com nosso dever cívico. Mas peço que não esqueçam da cautela nas nossas próximas eleições. Para resolvermos problemas como esse é imprescindível a atuação de um gestor com braço forte”, frisou, com um sorriso amarelecido e punho erguido na altura do rosto, e mirando a luminária.

 

Focado no pleito eleitoral de 1980, cada frase de Antenor era precedida por uma breve explanação de sua atuação como gestor, se auto-adjetivando como o homem mais apto a estabelecer diretrizes para um futuro de plena prosperidade. Encerrava comentários com um sorriso tão exagerado que os sardônicos desafetos políticos diziam que fizera cirurgia plástica para erguer os lábios. O intuito era possibilitar que pessoas ao longe pudessem ver seus dentes à mostra, conhecido, de modo pejorativo, como um cult semblante de artificial regozijo. Outra curiosidade era um bottom confeccionado para ser distribuído às escusas em bairros periféricos. O seu era de cor escura e com a frase em branco: “Malagato O Eletivo” – sempre preso ao bolso direito da camisa branca de seda.

 

A sediciosa Gertrudes, que durante alguns minutos dedicara-se a prática de onicofagia, pediu o direito à palavra e apelou para o Velho Testamento: “Como sabem, consta no livro de Êxodo que nenhum cristão deve permitir que viva o feiticeiro”. Emitiu a frase com tanto fervor que tornou mais salientes algumas veias do pescoço. Citou episódios em que amigos e familiares viram de longe Gustavo sentado no chão arenoso, envolto por círculo de velas, adorando a lua.

 

Concluído o relato, as nove mulheres presentes, pertencentes ao grupo religioso “Congregação Cristalizadora da Fé”, em uníssono, disseram: “In nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti, Amen”. Sem velar inclinações totalitaristas, a senhora Avanka discursou que em sociedade organizada, agir de forma catoniana é o único meio efetivo para evitar que uma cidade seja catapultada aos umbrais das trevas. Quando se calou, as religiosas fizeram o sinal da cruz e içaram bíblias como um emblemático símbolo de concordância e adesão.

 

Algumas das mulheres presentes, entre as quais as donas-de-casa Filomena Jezebel de Oliveira, Josefa da Silva Brunholi e Maria Almeida Ramos, concentravam forças na iconofilia; intermitentemente abraçavam ornamentados crucifixos de prata com 35 centímetros de comprimento e 750 gramas. Já os empresários, que também eram gestores de sindicatos patronais e diretórios políticos, estavam alheios à conversa, dispersos em vislumbres particularistas. Minutos depois, não lembravam mais o nome do inimigo; sorrisos evidenciavam corriqueiras projeções futuras. O agroindustrial e líder de um partido local, Alberto Mendes Biaroni, estremeceu ao imaginar-se defronte a prefeitura; aclamado por multidão de milhares que lhe arremessavam clívias em agradecimento por salvar a cidade.

 

A divagação foi interrompida quando o empresário Rui Novaes Bérgamo lhe chamou avisando que o grupo começaria a discutir métodos para aniquilar o recôndito inimigo que vivia em Paranavaí há 25 anos, mas nunca visto na área urbana. Como desconheciam a face do ímpio e receavam qualquer feitiço, decidiram pensar em meios de exterminá-lo sem estabelecer contato direto. Na noite do dia 22, se comprometeram em resolver o problema. Decidiram que Alberto e Rui iriam até o Sítio Theia às 23h45 com a missão de detectar alguma manifestação suspeita.

 

Por volta das 23h57, Bérgamo estacionou o automóvel Alfa Romeo Giulietta Sprint a 850 metros do sítio e percorreram o resto do caminho a pé. Ao chegarem perto da casa estava tudo escuro; não havia nem mesmo uma vela acesa. Pularam o alambrado e encostaram o ouvido à porta; não ouviram nada – o silêncio era pleno. Saíram da propriedade sem fazer barulho e se deslocaram até um prédio comercial no centro da cidade, onde se comprometeram em encontrar os outros membros do grupo à 1h. O escritório na Rua Manoel Ribas, pertencia a Antenor Malagato, que mais uma vez foi o anfitrião e recebeu os dois aventureiros com sutis apertos de mão.

 

Alberto relatou a Gertrudes que Gustavo estava dormindo. Então ela os chamou e mostrou o que armazenaram dentro de um cômodo que funcionava como despensa. No interior, havia 13 galões contendo 12 litros de gasolina por unidade. Todos entenderam o que deveria ser feito. Para dar continuidade ao plano pagaram quatro foragidos de uma instituição penal paulista. Os homens colocaram os galões camuflados por caixas de papelão no interior do baú de um caminhão que pertenceu a uma transportadora de Campo Mourão.

 

Liderados por Alcides Cabral, conhecido como Javali, apelido que recebera pela saliência dos dentes frontais, que o impedia de mantê-los dentro da boca quando a fechasse, os criminosos chegaram ao Sítio Theia à 1h43. Apressados, espalharam o combustível por todo o exterior da casa. Javali pediu que mantivessem distância da residência e depois acendeu um cigarro, deu quatro tragadas, o prendeu entre os dedos médio e anelar, e o arremessou em direção a trilha de gasolina. Correram até a portaria, subiram no caminhão e nunca mais retornaram a Paranavaí.

 

Um dos foragidos, Nelson Veiga Prates, o Condor, esqueceu um galão no baú do caminhão. Javali, desinformado sobre a falha do companheiro, fez algumas manobras perigosas no percurso entre Paranavaí e Nova Esperança. A tampa do recipiente se rompeu com as pancadas provocadas pelo balanço do veículo e a gasolina logo se espalhou por todo o baú. Quando Nelson questionou que sentia cheiro de combustível, Cabral o acalmou. “Cara, não se preocupe. Fique tranqüilo; de certo, é o cheiro de gasolina em nossas mãos”, argumentou. Nelson, mesmo descrente, se calou.

 

Na cabine, o compartimento de acesso ao baú foi deixado aberto e quando Javali arremessou o toco de um cigarro pela janela, uma corrente de ar o levou de volta para dentro, em direção ao interior do baú, próximo à cabeça de Condor. Passados alguns segundos, a fumaça chegou à cabine. Quando perceberam a situação, os criminosos começaram a tossir e se digladiar para tentar sair o mais rápido possível do veículo. Javali, golpeado no rosto pelo desesperado Gringo, um dos comparsas, perdeu o controle do veículo próximo a um trevo. O caminhão caiu dentro de uma profunda erosão hídrica entre Nova Esperança e Uniflor. Com o impacto, a explosão do veículo carbonizou todos os passageiros.

 

Em 23 de junho, o Corpo de Bombeiros foi avisado por Orestes Goschalk sobre o incêndio na residência de Coronato. No local, encontraram o rapaz falecido, com queimaduras de terceiro grau em 80% do corpo. Gustavo estava estirado sobre uma pilha de centenas de livros. Seus olhos estavam intactos e fechados, como se prognosticasse o que lhe aconteceria. Tal dia marcou para sempre os moradores da cidade; não em função da morte de Coronato, com quem pouco se importavam, mas de pareceres da Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar), Secretaria Estadual de Agricultura e Instituto Nacional de Meteorologia.

 

Armando Navarro, gerente regional da Sanepar, reuniu milhares de membros da comunidade em frente ao prédio da companhia e, com um megafone, informou aos presentes que alguém invadiu a Estação de Tratamento de Água (ETA) há dois dias e despejou 37 quilos de Amanita Muscaria, cogumelo tóxico que provoca alucinações. Em meio à multidão era impossível encontrar pelo menos uma pessoa que não se surpreendera com a revelação. Depois, o assessor Élcio Gonzaga, da Secretaria Estadual de Agricultura, apresentou retratos de quatro homens presos em Londrina. Eram contratados por grileiros da região para se passarem por agrônomos do Estado. Demóstenes ficou ruborizado ao reconhecer os rostos dos logradores e foi embora antes de Gonzaga frisar que agiam no Noroeste do Estado há 14 anos. O encontro foi finalizado com o pronunciamento de um meteorologista do Inmet revelando que o quadro climático do município se enquadrava perfeitamente no padrão regional, sem qualquer alteração excepcional.

 

Hoje, poucos moradores conhecem a história de Gustavo. Lins foi o único que, de vez em quando, dedicava algum tempo tentando encontrar meios de saber como o vizinho misantropo ocupava o tempo. Ninguém sabia que Coronato laborava a roça da família todas as madrugadas, quando se sentia mais disposto a abandonar a velha casa de madeira rústica, onde passava 18 horas diárias. Trabalhava para a subsistência na lavoura subdividida em pequenas produções de arroz, feijão, berinjela e tomate. Todos os anos, os únicos dias em que não trabalhava eram 21 e 22 de junho, datas marcadas pelo solstício de inverno.

 

Não é de conhecimento popular, mas é importante ressaltar que na última noite de sua vida, Gustavo viu se formar nas nuvens projeções fisionômicas de Valter, Lucélia e também a própria quando não tinha mais de cinco anos. No latíbulo, sua mãe segurava-lhe a mão efusivamente e o pai se aproximava entregando-a uma rosa vermelha com algumas das pétalas amarelas. Ficou emocionado ao perceber a semelhança com o quadro Vendedor de Flores, do pintor suíço Jacques-Laurent Agasse. Tal sentimento arrebatador remetia ao fato dos pais terem se conhecido há 32 anos em uma floricultura, onde Valter ajudava o pai. Diante dos olhos do jovem Coronato, os personagens se moviam no céu com tanto realismo que se sentiu em uma sessão de cinema, arte que conheceu apenas nos livros. Vislumbrava a experiência ao divagar acordado; assistindo fragmentos de sua vida registrados em rolos super-8. Como background de suas digressões, o rapaz ouvia no gramofone Pailard, da década de 1940, Moonlight Serenade, de Glenn Miller.

 

Coronato acreditava que a força lunar transmitia energia enquanto que os raios solares as usurpavam diretamente do ser humano. O excesso de luminosidade o inebriava em exaustão, motivo pelo qual abandonava a residência apenas com o triunfo da lua. Quando resolvia admirá-la, o fazia por horas, formando um círculo de velas em torno do seu corpo. A intenção sempre foi evitar a aproximação de animais peçonhentos. O jovem enxergava no satélite natural uma semelhante que, como ele, vagava tanto pelo contínuo quanto pelo descontínuo. A cada dia via a lua mais distante e solitária; para a sociedade, não mais que um objeto de fetiches intransponíveis. “Sempre que a vejo ratifico-me da finitude de minha natureza. Ao contrário de vós, o declive da minha existência reafirma a sua infinitude. Ignóbil e parvo seria eu se julgasse que de ti a humanidade capacitada fosse para extrair mais que a cártula. Se lágrimas destoadas umedecem meu rosto quando a admiro é porque nem mesmo distância incomensurável e a magnitude da intangibilidade me impedem de admitir que em ti me vejo refletido em forma inominável”, declarou Gustavo à lua.

 

Às 23h27 do dia 22, o rapaz ajoelhou-se diante da lua com olhar fixo e tenro, preservado desde a infância. Recordou que a relação entre eles surgiu quando tinha apenas cinco anos. Na infância, corria à noite descalço pelo solo arenoso, em meio aos cafeeiros, gritando que a maior satisfação ao fim do dia era encontrar a lua; para ele, a intangível melhor amiga. Porém, se quando criança eram emoções pueris que despertavam atração pelo satélite natural, principalmente a beleza irradiada, na fase adulta teve certeza de ser algo mais profundo.

 

“Iludi-me com sua imagem superficial, que incendiou tantas vezes meus olhos nus. Demorei a perceber o real motivo de nossa aproximação: uma conseqüência contínua de sentimentos sôfregos incitados em mim. Como vós, também sou filho da noite; hoje mais do que nunca abjurado pela minha espécie. Embora seja eu um corpo humano de carne e ossos, e você um corpo celeste de solo e rochas, partilharemos do mesmo destino. Serei eu maculado pelo torpe assim como você. Somos naturezas que se coadunam em um espectro, alvo da jactância que visa profligar a quintessência”, disse Coronato em tom reflexivo.

 

Tal afirmação levou em conta percepções inferidas do mezanino de sua casa. Sempre que alguém lhe invadia a privacidade, com olhares acres e desdenhosos, o rapaz percebia. A vida no ostracismo despertou-lhe perspicácia sensorial a ponto de identificar pelo som até mesmo insetos que voavam a três metros de distância. Fingia não ver os perturbadores, nutrindo menoscabo por todos que tentavam aturdir-lhe a paz.

 

Antisocial desde a infância, fora alfabetizado em casa pelos pais. Ainda criança sentiu-se consubstanciado pelas palavras, seu hobby preferido. Sentado defronte à lareira em noites de inverno, Gustavo enxergava no fogo a mais perfeita projeção de sentimentos arcaicos inerentes à natureza humana. Tonalidades mais claras lhe dirimiam a fúria e desprezo pela humanidade, cedendo espaço ao amor e complacência que conhecera no seio familiar. Já cores mais escuras e vibrantes estimulavam sentimentos arrebatadores de cólera e angustia. Tais emoções se construíam sob a égide das palavras; conhecimento adquirido por meio dos livros. Gustavo se interessava por diversos gêneros, influenciado pelo pai que lhe deixou como herança uma biblioteca doméstica com 1,7 mil títulos.

 

“Desprezado sou por abraçar livros em vez de humanos. Mesmo que na terra me infiltrasse e vivesse no subsolo, lá ainda seria um inquilino indesejável perseguido como hagiômaco. Ah! Se não fosse pela Garatuja de Nepomuceno, difícil seria confrontar o derradeiro a olhos abertos. Oh Lua! Se a ti pudesse tocar com minhas mãos adormecidas pelas chamas de Golgotha, tenho certeza que suas rochas me envolveriam como braços; cairia em visceral sono, ladeado por meus pais. Sentiria o aroma das hoyas carnosas cultivadas pela minha mãe”. Estas foram as últimas frases balbuciadas por Gustavo antes de seu corpo ser consumido pelo fogo. Os olhos negros deixaram de cintilar à 1h57, quando se despediu do seu último solstício de inverno.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

28
jul
08

Rio de águas vermelhas

Meu nome é Pablo Mearim e morri aos quinze anos, após ver minha família ser dizimada nas imediações do Rio Nhu-Guaçu na tarde do dia 16 de agosto de 1869. Na data, saímos da nossa vila por volta das 6h30. Fomos acordados às 5h45 com a cantoria do nosso galo Guará. Quando o vimos, nos surpreendemos. As penas dele que eram claras como o céu prognosticando a chuva estavam com uma sutil tonalidade rubra. Pensamos na possibilidade de ter adoecido, tanta era a agitação quando percebeu que ficaria sozinho. Meu pai, Solano Mearim, ficou ainda mais surpreso, pois o galo nunca agira daquela forma.

O movimento das asas de Guará era tão frenético. Ele digladiou contra a própria natureza e tentou alçar vôo. Minhas irmãs, Melina, 13, e Angela, 11, gargalharam ao ver a cena. Quando nos distanciamos alguns metros o galo subiu no telhado da pequena guarita de barro construída por meu pai e saltou. Os quatro quilos de Guará fizeram-no chocar-se contra o chão arenoso. Sua vontade foi sobrepujada pela natureza. Para consolá-lo, corri até ele e o levei para dentro de casa; com um pano umedecido limpei suas penas.

Enquanto o asseava, percebi tanta complacência nos olhos de Guará que quase pedi a meu pai que deixasse levá-lo. Mas, conhecendo seu comportamento intransigente, desisti e corri até a entrada. Quando fiquei frente à cerca, olhei para trás; o movimento que fiz com as mãos o galo respondeu com a cabeça. Depois de alguns segundos, uma corrente de ar fez com que a terra emergisse e o galo se perdesse em meio à poeira. Sem avistá-lo mais, corri quarenta metros até alcançar minha família.

Eu e Guará tivemos uma amizade que durou os quinze anos da minha vida. O ganhei quando nasci; foi meu primeiro presente. Uma vizinha estava em débito com minha mãe, Carmen Alianza Mearim, pela venda de sete quilos de sabão de soda. Como não tinha condições de quitar a dívida ofertou Guará que à época tinha dois anos.

Quando os alcancei, meu pai entregou-me uma sacola contendo algumas frutas, para o caso de não obtermos êxito com a pescaria. Minha mãe e as garotas levaram mel de cana com queijo, pastel mandió e chipá-guazú. Já os gêmeos Raul e Aurélio tinham apenas cinco anos, então ocupavam as mãos com os bonequinhos confeccionados com choclo (milho terno). Apesar dos dedos miúdos, os dois tinham grande aptidão para criar os próprios brinquedos.

Durante a caminhada, o silêncio equacionou o vôo das aves que percorriam o céu sem sobreporem os cantos umas das outras. Os pássaros almas-de-gato cantavam com basilar maestria. Tive a impressão de que entre aquelas aves havia um regente. Adentramos a Floresta dos Cucos para encurtar o caminho até o rio; trajeto que também não seria completado em menos de duas horas. Após sessenta minutos de caminhada, Raul e Aurélio foram consumidos pela estafa; paramos debaixo de uma congonheira e ficamos ali sentados pelo menos vinte minutos. Às 7h50, nosso pai deu a ordem para seguir viagem. Raul se aproximou vagarosamente de mim, tocou em meu ombro e disse em baixo tom: “Minhas pernas formigam de tanta fadiga”. Me abaixei e ele subiu em minhas costas para continuamos o percurso.

Circunspecto, nosso pai sempre pedia para sermos cautelosos a tudo ao nosso redor; três anos antes seu compadre Gabriel Cales fora morto por uma sucuri de 8,5 metros. A cobra logo recebera o apelido de Bapo porque era a única que tinha um chocalho na cauda e emitia um som semelhante ao executado pelo maracá dos nativos. Os moradores do povoado de Cori costumavam dizer que a cobra era a encarnação do pajé tupi-guarani Essá-Etê que teve sua aldeia incinerada pelos brancos.

No último mês, comentou-se que em um período de três anos a cobra se alimentou de vinte e oito pessoas. A história chegou ao conhecimento de todos por intermédio de um ancião indígena de 105 anos, Aderbal Tucunaré, único remanescente da tribo Eçabara. O líder tribal aprendeu a ler e escrever para catalogar os nomes das árvores que existiam nas imediações da nossa vila. Apesar da idade, a decrepitude jamais suplantou a ladinice de Tucunaré. Inclusive, no dia da morte de Cales, ele observou tudo a quatro metros de altura. Subiu em um lapacho rosado logo após o alarde de Bapo. Infeliz foi Cales; nunca imaginou que uma cobra tão grande carregaria um chocalho na cauda. A confundiu com o maracá dos nativos, um erro infactível. Enganou-se ao interpretar o som e após correr dois metros se deparou com a cabeça da anaconda. Ficou vertiginosamente espantado, tanto que o ancião tem dúvidas se Gabriel morreu antes ou depois de ser asfixiado por Bapo.

Quando estávamos nos aproximando do Nhu-Guaçu, fitei Aurélio parado e inerte. Sua atenção estava voltada para o bando de queixadas que seguia para o oeste. Ele apontou o miúdo dedo indicador para cada um dos animais e gritou eufórico: “27! 27! 27! É isso! Acertei!”. Estava tão feliz por vê-los quanto por demonstrar ao nosso pai que já sabia contar. Aurélio cativava os taguicatis com naturalidade. Cheguei a pensar que se comunicava com eles. Recordo-me de um queixada saindo da fila indiana e observando Aurélio por alguns segundos. Tempo suficiente para o macho mais velho do bando, um tajaçu de 108 centímetros e pelagem tão negra que parecia pintada, interromper o trajeto. O dissidente voltou exatamente para o lugar onde estava, respeitando a hierarquia pecari.

Já era pouco mais de 8h30 quando avistamos o Nhu-Guaçu. A água era tão límpida que os raios de sol projetavam a imagem do céu naquela imensidão diáfana. Esperto, Raul saltou das minhas costas e correu em direção à margem. Quando chegamos, pela primeira vez ao longo do trajeto, nosso pai sorriu, rotacionou o corpo e gritou: “Meus filhos, a beleza natural subsiste no imaculado, por isso nunca deve ser passível de transmutação, evitando disformidade. A perfeição do intangível e do impalpável impelem os olhos às lagrimas e por que? É onde a mão reversa do homem ainda não alcançou”. Emocionado, o senhor Mearim abriu os braços, ficou sobre as pontas dos dedos e deixou-se conduzir pelo vento que vinha do Norte. De olhos fechados, entrou em introspecção por dois minutos.

Minha mãe, preocupada com a refeição, me chamou e pediu para tomar conta de Raul e Aurélio enquanto Melina e Angela ajudavam com as iguarias e especiarias. Fiquei ao lado dos garotos que davam golpes na água com os pés. Conforme lhes umedecia os rostos, sorriam de forma tão pueril e benevolente que os percebi extasiados em sua Babilônia. Nem mesmo os extemporâneos pernilongos, sequiosos por sangue, lhes proporcionavam qualquer incômodo. Em breve reflexão, me dei conta de que haviam criado um mundo ocluso, do qual faria parte apenas quem eles quisessem. Uma condição meramente psicológica, mas motivada por uma vontade cândida; truísta para crianças, todavia hermética aos adultos.

Não se passou mais de quinze minutos e meu pai me chamou. Pediu para ajudá-lo a colocar morenitas nos anzóis. Terminado o trabalho, percorremos onze metros e posicionamos, em paralelo, duas varas de bambu presas a uma rocha com corda de palha. Conhecedor da área, meu pai contou que há cinco anos presenciou o pescador Castilho Rojas retirar trezentos quilos de peixe do Nhu-Guaçu; entre as espécies havia pintado, dourado e pacu. Mas a situação se complicou três anos antes, quando cresceu a incidência de traíras e piranhas. Por algumas semanas resultou na decaída do número de pescadores na área. Porém, logo apareceram as ariranhas que reduziram em mais de 50% a presença de peixes carnívoros.

Instantes depois de ouvir a história, escutei passos curtos e rápidos de alguém arquejando; Raul gritou que tinha visto uma ariranha emergir do fundo do rio. O mamífero de 1,80 metro despertou abrupta curiosidade nos garotos, principalmente pela aparência dócil e esguia. “Pabi, podemos tocá-las? É tão bonita. Nada me deixaria mais feliz agora que tocar aquela pele lisa e macia”, perguntou e comentou Aurélio com olhar fixo. Quando abri a boca para articular uma frase, minha mãe relatou-lhes que só podiam observar, porque qualquer mordida provocaria infecção e os levaria a morte. Os olhos de Aurélio e Raul intumesceram e ficaram lívidos em imaginar tal possibilidade.

Melina e Angela estenderam uma toalha de mesa sobre o chão, preparando a ceia. Já era mais de 11h quando Aurélio se aproximou e disse sentir tanta fome que seu estômago começou a entoar a guarânia (música típica paraguaia). A mãe deu um breve sorriso e pediu para chamarem o pai. Passaram-se duas horas desde que ele sentou-se diante do Nhu-Guaçu. Estava tão atento ao movimento do anzol que acompanhava com os olhos a profundidade até onde alcançava a linha. Não pescou muito, mas garantiu a ceia; me entregou um saco com dois pintados que pesavam em torno de cinco quilos cada.

Antes de comermos, sentamos os sete em torno da toalha de mesa, onde estavam todos os alimentos. Começamos a ceia tomando tererê. A guampa confeccionada com chifre bovino foi passada de mão em mão. Depois de satisfeitos, o que restou da erva-mate foi enterrado ao lado da toalha, respeitando um ritual cíclico: o que é da terra volta para a terra. Quando tomávamos tererê sentíamos os efeitos da catarse. Meu pai enfatizava ser a única bebida que carrega a essência imutável da natureza e da nossa identidade cultural.

Aurélio e Raul não tiravam os olhos do pastel mandió e do chipa-guazú, então a senhora Carmen apressou-se em servi-los. Eu e o senhor Mearim nos abstemos de outros pratos enquanto comíamos o peixe. Para nós, uma peculiar tradicão, visando evitar que o sabor da carne branca fosse maculado pelo sincretismo de outros alimentos. Às 13h, satisfeitos, resolvemos fazer a sesta. Apenas Aurélio e Raul não quiseram, os únicos que não foram conquistados pela massa verde e circunforme balançando suavemente. Sentados frente a frente, os garotos posicionaram os bonequinhos de choclo com os pés enterrados na terra, correram até a margem e buscaram um pouco de água. Usaram um pequeno pedaço de madeira pontiaguda de cedro e escavaram oitenta e seis centímetros. Ali preencheram o buraco e, em segundos, a água, de diáfana, se transformou em um líquido marrom avermelhado. Brincaram durante quarenta e dois minutos, arremessando os bonequinhos, até que todos acordaram.

Minha mãe pediu a Melina e Angela para procurarem frutas para levarmos a nossa vila. Preocupado com a segurança delas, o senhor Solano pediu que levassem facas, pois não tinham experiência alguma em exploração florestal. Logo empreenderam caminhada em meio aos cedros; as perdemos de vista bem rápido. De qualquer modo, Melina era tão verborrágica que não precisávamos vê-la para identificar sua voz a noventa metros.

Estávamos em uma área de grande flora herbácea, possibilitando que a senhora Carmen logo se distraísse, principalmente com o grande volume de estévias. Seus dedos hábeis acariciavam os galhos delgados antes de cortá-los. A precisão denunciou vinte anos de conhecimento sobre ervas aromáticas e medicinais. Antes de cortar cada galho, tinha o hábito de distanciar-se trinta e cinco centímetros da planta e efetuar um movimento circunforme com a cabeça, algo que, segundo ela, definiria o ponto ideal do corte. “A fragrância de cada planta denuncia que algumas folhas têm mais qualidade que outras, mesmo dividindo o mesmo galho”, afirmou a senhora Mearim.

Meu pai estava novamente à margem do rio, atento a qualquer vibração do anzol. Por alguns minutos, observei tudo a minha volta, mas o que mais despertou minha atenção foi o silêncio. Em meio à floresta, senti o conforto emanado pela natividade. Era incomum demais para compor um elemento cotidiano. Preocupei-me quando não localizei nenhuma ave sobre cedros e congonheiras. Até mesmo os pernilongos que tanto nos incomodaram estavam recônditos. Corri até a margem do Nhu-Guaçu e também não identifiquei nenhum ser vivo na água. Apenas vi o senhor Solano segurando a vara com destreza, embora esporadicamente cochilasse.

Todos estavam dispersos em realidades distintas, avessos ao que acontecia na floresta. Nutri desespero; meus olhos fumegaram e meus lábios secaram. Carmen estava oclusa em pouco mais de trezentos metros quadrados; seus olhos amendoados se limitavam a acompanhar a dimensão das folhas de estévia. Raul e Aurélio gargalhavam atrás da congonheiras e saltitavam pelos arbustos; era como se o mundo de Raul encontrasse seu fim no fundo dos olhos abissais de Aurélio. A vontade de um era, amiúde, catapultada pela do outro. As garotas, apesar de não observá-las, as percebi quando se ausentaram. Melina tinha com Ângela uma relação de simbiose que beirava o comensalismo, principalmente quando a mais jovem resolvia se expressar, algo raro. A relação de interdependência sempre existiu. O pedantismo de Melina era enriquecido com a esqualidez da irmã que a idolatrava. Quando voltaram, após vinte e sete minutos, minhas reflexões foram confirmadas assim que vi Angela carregando um pesado saco de frutas e logo à frente Melina a verborrágica segurando as duas facas. A fragilidade de uma identificava que sua submissão à outra era tão perpétua quanto a cegueira de um lagostim.

Abandonei minhas reflexões ao ouvir um grito que me tirou da inércia. Era meu pai chamando para ajudá-lo; algo fisgou o anzol. Quando me aproximei, fui surpreendido pela flexibilidade da vara de pescar. O senhor Mearim fez tanta força para içar o peixe que cerrou os dentes e fechou os olhos. Voltou a sorrir quando deitou o pacu de oito quilos em terra firme. O peixe lutou bravamente pela vida; deu um último salto de quinze centímetros antes de entregar-se à morte. Não tardei a questioná-lo sobre a isca usada para pegar o pacu. “Jenipapo, meu filho. Não há nada mais digno e justo que conquistar a sua presa oferecendo a ela uma refeição proporcional ao seu valor”, justificou meu pai.

Como estávamos sem faca para extrair as vísceras do peixe, corri até a senhora Alianza Mearim. Ao seu lado vi Melina e Angela sentadas no chão, descansando. Quando encostei a mão direita no cabo do instrumento, ouvi um estrondo. De imediato, não imaginei se foi provocado por homens ou animais. Receoso, fui até a margem e chamei meu pai. Assustados, Raul e Aurélio também vieram até nós. Ficamos todos juntos, atentos àquele som inidentificável.

Meu pai tentou nos acalmar dizendo que deveriam ser nativos colhendo jenipapo com o intuito de extrair tinta; era a melhor época do ano para a colheita. Os caçulas acreditaram, minha mãe também tentou dar veracidade à informação ao perceber que Melina e Angela estavam com olhos marejados. Passados três minutos desde a primeira tentativa de nos acalmar, o som continuava ecoando entre as congonheiras. As vozes contrastavam com o canto dos almas-de-gato que pareciam porta-vozes alertando a toda a fauna daquele local sobre um iminente acontecimento.

Fiquei desconcertado diante da situação. Por alguns segundos senti náuseas e movimentei a cabeça inúmeras vezes procurando uma explicação para tanto barulho. Depois de quatorze minutos, meu corpo estremeceu. Devagar, olhei a minha esquerda e vi meu pai caído no chão; estava com o olhar fixo para o céu e a boca aberta. Um filete de sangue percorreu-lhe os lábios enquanto esfregava as botas na terra. Tentou se levantar, mas conseguiu apenas resfolegar e encostar o queixo no peito. Uma lágrima percorreu-lhe a maçã e uniu-se ao sangue. Ainda tentou proferir algumas palavras, mas foi interrompido pelo inevitável quando apertou as pontas dos dedos da minha mão direita. Uma resfolegada derradeira indicou que de meu pai restou, naquele chão, apenas a matéria. Foi alvejado com três tiros no peito; me dei conta quando vi seus olhos pretrificados. Levei as mãos ao meu rosto e senti uma forte fragrância de pólvora sincretizada com um entorpecente cheiro de sangue.

Naquele dia, minha mãe estava usando o seu melhor vestido, usado aos domingo nas reuniões do Centro Cultural Moema. Era tão branco que lembrava cápsulas de algodão. A encontrei recostada em uma árvore, pouco tempo depois de eu abandonar o corpo de meu pai. Junto a ela, observei os cabelos finos de Raul e Aurélio. Estavam com o rosto pressionado contra os seios de Carmen Alianza. Algumas gotinhas vermelhas respingavam do bonequinho de choclo de Aurélio, à direita de nossa mãe. Foi a primeira vez que o vi imóvel naquele dia; fiquei desalentado e tive receio de me aproximar.

Frente a eles, os vi desvanecidos; serenos como se divagassem pelo mundo de Morfeu. Eram tão semelhantes vivos quanto mortos; foram assassinados com dois tiros. Um pequeno furo no centro da testa de cada um sorveu a existência dos meus dois irmãos. Fitei o sapatinho de Raul todo manchado de sangue; contra o seu peito estava o bonequinho de choclo que ele chamava de Pope. Na mão direita de Carmen Mearim havia um pequeno buraco; o primeiro tiro desferido contra ela. Na tentativa de proteger os filhos, tomou a frente, esticou o braço e abriu a mão. A primeira e a segunda bala se alojaram no pescoço. Tentou resistir, mas não conseguiu. Quando a encontrei, o sangue havia transfigurado o vestido branco em rubro. Os cabelos dos garotos estavam molhados com o sangue da mãe. Depois percebi que do lado do corpo dela havia algumas folhas de estévia.

Não consegui processar o que presenciei, fechei os olhos por um minuto, então olhei para o céu e algumas alucinações vieram à tona. Juro ter visto diante de minha cabeça uma abóbada tão rubra quanto o sangue derramado. Caí de costas e deitei no chão; ouvi um barulho e senti a poeira enegrecendo meu rosto e invadindo a minha boca. Não me importei, até que lembrei de Melina e Angela. Levantei e olhei a minha direita; as duas estavam abraçadas contra uma congonheira. Eram tão distintas quanto complementares, mas nunca havia visto-as em um abraço tão fraternal como aquele. Me aproximei e encostei minha mão no ombro de Angela; as duas caíram juntas sobre as raízes da árvore. Foram alvejadas na altura do ombro e não resistiram aos ferimentos. Tudo indica que, prevendo uma situação letal, Melina tentou proteger a irmã mais nova, porém não foi o suficiente para neutralizar as balas da carabina Spencer. Desferiram quatro tiros contra minhas irmãs e fiquei tão encolerizado que me esqueci de ter pertencido a espécie dos homens; comecei a urrar como um animal selvagem.

Peguei a faca que estava ao lado do corpo de meu pai e corri até a margem do Rio Nhu-Guaçu, onde ouvi pessoas conversando em um idioma desconhecido por mim. Fiquei mais exasperado ainda ao vê-los assando o peixe do meu pai e comendo o que sobrou do pastel mandió preparado por minha mãe. Frente ao rio, me dispersei por um instante e senti encostarem algo em minhas costas; uma arma de fogo, e não levou mais que alguns segundos para reconhecer o convite da morte. Não sei quanto tempo se passou, talvez segundos até sentir um tiro à queima roupa. Enquanto sangrei, não tencionei procurar o ferimento. Olhei para um senhor esguio e de bigode, e questionei: “Por que assassinaram minha família? Receio desconhecê-lo. Isso é terrível! Sem justificativas, nos restam apenas mortes desdouradas. Pouco sei sobre a vida, mas de algo tenho certeza, senhor. Morrer por nada é como viver sem jamais ter nascido. Para partir tranquilamente é preciso abraçar, no leito de morte, algum valor entranhado em seu coração”. O homem, de aspecto carrancudo, tirou o chapéu e se apresentou como Sargento Marco Antônio Fogassa e revelou: “De ti, tiro a individualidade para saldar os erros da coletividade, em plano específico. Entretanto, sob linhas gerais, você representa o coletivismo que suplantamos em favorecimento de interesses individuais. Me desculpe, meu amigo, mas não cabe a nós decidir onde e quando as beligerâncias acontecerão. Estou aqui para cumprir o meu papel, de dar a você e seus semelhantes uma passagem para o outro mundo, algo simplificado geograficamente. Vê aquela copa de árvores a cem metros daqui? Pois bem, ali está a nascente por onde brota a étnica inimizade. Não sei quem é você, o que faz, ou qual a sua idade, afinal, nada disso nos interessa. Poderia bem ser uma minhoca e rastejar diante de meus pés, ainda assim não lhe outorgaria o direito de viver, pois fora gestado em solo inóspito”.

Quando perguntei o que o estimulava a aniquilar inocentes, o sargento deu uma gargalhada e bradou: “A morte, nesse caso, não atesta o fim do homem, mas suja a bandeira que no mastro mais alto se move respingando sangue pelos rostos dos seus. Na guerra, não matamos homens, mas ideologias. Deitam-se os hinos e as constituições; sob a chancela dos nossos, praticamos a política da boa vizinhança. Para cada fim, cinco hectares. Uma proporção justa para assegurar o direito à saúde, moradia e alimentação”. Ao perceber meu sobressalto, o homem deu uma gargalhada, fitou os homens ao seu redor e afirmou que seria tarefa inteligível me colocar em situação de perigo real e imediato.

Sem mais esclarecimentos, o homem pediu a um soldado, com palavras e gestos, que lhe trouxesse a espada. A ergueu e vociferou: “Pelo Império do Brasil” e desferiu um golpe contra o meu peito. Comecei a perder os sentidos quando a lâmina atravessou minhas costas. Com olhos semicerrados, vi o meu mundo apagar-se vagarosamente. Ainda consegui direcionar meu rosto para o corpo de meus pais e irmãos.

Enquanto agonizava, observei soldados obnóxios colocarem em suas mãos as facas que levamos para preparar os alimentos. As pequenas mãos de Raul e Aurélio foram abertas para substituir o bonequinho de choclo por adagas com lâminas fulgurantes. Sabia que a derrocada seria inevitável, mesmo assim, quando não havia nenhum soldado próximo de mim, rastejei até a margem do Nhu-Guaçu e a ele entreguei meu corpo. Sorri pela última vez quando vi em suas águas diáfanas a imagem de Guará. Deitei de braços abertos e senti uma leveza sublime. Um efeito catártico impossibilitou que a dor consumisse meus últimos segundos de vida. Do resto, a natureza benevolente das ariranhas se encarregou; me protegeram das piranhas ansiosas por flagelarem meu corpo.

Antes do pôr-do-sol, às 17h38 do dia 16 de agosto de 1869, as águas do Nhu-Guaçu ficaram vermelhas após a ablução. Levou setenta e cinco dias para retornar à transparência. A guerra que desconhecíamos findou no ano seguinte, mas de meu corpo não encontraram vestígios.

27
jul
08

Outono no Parque das Figueiras

O encontro e a lembrança: o destempero da bem-aventurança

Na manhã do dia 11 de julho de 1975, o estudante Daniel Ávila, 21, estava estirado na cama espreitando o único e sorrateiro feixe de luz que lhe repelia. Catatônico há uma semana, nutriu angústia pela indesejável réstia. O estado de ostracismo era ingente. Acreditou ser aquela luz uma lâmina com o objetivo de ceifar-lhe a existência. Enquanto se aliava às trevas, lembranças que remontam o início de junho foram à tona.

 

No dia 3 daquele mês, Daniel descobriu que as emoções se transfiguram conforme as experiências de vida. Após algumas horas na Biblioteca Municipal Adolfo de Oliveira Freire, disperso entre Petrarca e Boccaccio, foi embora antes que o Sol cedesse espaço à Lua. Contrariou o pedido de sua mãe, a dona-de-casa Rosa Fassina Ávila, para aguardar que o pai, o produtor rural João Carlos Ávila, o buscasse às 20h. Com transeunte espírito aventureiro, o rapaz decidiu percorrer os 16 quilômetros a pé. Porém, precisaria pegar um atalho pela Ferrovia do Colono.

 

Quando iniciou o trajeto, o sol brilhava como um guerreiro insólito com a missão de sobrepujar o inverno, embora o frio fosse proeminente para Ávila que esfregava os braços cruzados contra o corpo, tentando amenizar os efeitos do vento gélido oriundo do leste. A ânsia de chegar ao lar foi imperiosa até às 17h40 quando o estudante percebeu, a alguns metros dali, um sujeito corpulento de 1,75m, cabelos ruivos ralos e crespos, e braços arqueados.

 

A princípio, não identificou se era jovem ou velho, mas ao se aproximar um pouco mais, uma voz em tom de zombaria, entrecortada com gargalhadas, remeteu Daniel a um passado até então sepultado – era Gilberto Costa de Souza. Para não ser visto, o estudante recostou o corpo contra uma figueira; cerrou os punhos e abaixou a cabeça. Os cabelos lisos, longos e negros esvoaçavam seguindo o ritmo cadenciado das folhas enquanto Ávila rangia os dentes. Sentiu tanto ódio que apertou o tronco da árvore com força descomunal; gotas de sangue embaixo das unhas respingaram sobre a vegetação orlada à árvore. Daniel sentou-se recostado ao ficus, fechou os olhos e viajou ao passado. Gilberto, que se regozijava ao torturar uma lebre branca pressionando a extremidade de um graveto contra os olhos do animal, aterrorizou Ávila na infância. O resultado foi uma auto-estima volúvel e o despertar de um ódio que, aos poucos, tornou-se intrínseco. Por inúmeras vezes divagou e desejou morte atroz para o inimigo.

 

Filho da ex-prostituta Palmira Soares de Souza e do estelionatário chauvinista Orlando Borba Costa, Gilberto era um mentiroso inveterado que velava a realidade com sonhos de consumo. Daniel teve o desprazer de conhecê-lo de modo casual, pois sempre estava em frente ao seu colégio no período da manhã. Normalmente inebriado pelo uso de mescalina, Souza desempenhava trabalhos esporádicos de entrega de panfletos. Um pretexto para entrar na farmácia de Rui de Castro e verificar se o farmacêutico idoso estava sozinho ou não. Castro sofria de glaucoma, o que facilitava o furto de medicamentos. Mescalina, butofenia e dexedrina eram os preferidos de Souza, apreciador de narcóticos desde os onze anos. A primeira experiência foi supervisionada pelo pai que o levou a uma casa clandestina de jogos.

 

Gilberto, amiúde, tinha o hábito de roubar e furtar calçados e materiais escolares dos estudantes, mas nunca visando obter lucro. Levava tudo para o Parque das Figueiras, onde enterrava ou queimava os objetos. Ao prejudicar os outros, satisfazia-se como ninguém. Vivia em função de veleidades, preenchendo o seu abismo existencial com a promoção de contravenções. Tais atos lhe garantiam um semblante jamais esquecido por Daniel, humilhado inúmeras vezes por Souza.

 

Certa vez, ele o obrigou a se despir em frente ao colégio. Em troca, não queimou os livros e cadernos de educação moral e cívica, ciências sociais, história e português. Numa outra oportunidade, chamou Daniel e quando ele se aproximou fez algumas perguntas óbvias. Sem o garoto perceber, armazenou algumas cápsulas de dexedrina dentro da mochila. Depois de minutos, realizou uma ligação anônima para o colégio denunciando que Daniel estava portando entorpecentes. Houve episódios em que Gilberto desferiu socos contra o rosto de Daniel simplesmente por julgá-lo fracassado, alvo digno de qualquer forma de sadismo.

 

A humilhação assegurava a Gilberto um falso prazer de auto-afirmação que nem mesmo ele reconhecia, em seu âmago, como satisfatório. O sorriso irônico destacando somente os dentes da direita era precedido por uma gargalhada estridente. Quem não visse a cena juraria se tratar de um animal em estado convulsivo, excessiva era a sonoridade. O contraventor desdenhava a massa de estudantes que seguiam os preceitos estabelecidos pela reacionária instituição familiar; um paradoxo, já que Gilberto também tinha os pais como norteadores, embora ambos de comportamento volátil.

 

Os atos do jovem se tornariam letais ao completar 17 anos. Orlando Borba, para comemorar o aniversário do filho, o levou para caçar e pescar ao longo de um final de semana nas imediações do Rio Tumbasca. Apresentou-lhe dezenas de armas brancas e de fogo. Sentiu-se atraído pela leveza da Glock 17, calibre de nove milímetros; também demonstrou excitação ao tocar pela primeira vez uma caçadeira Browning Gold Hunter automática. Mas foi ao segurar uma besta Harton e um arco Magnum Master que os seus olhos intumesceram. Ficou sensibilizado pela delicadeza dos instrumentos e, por segundos, lacrimejou. Este foi o primeiro indício do interesse de Gilberto por métodos mais rústicos de violência contra seres vivos. Odiava os outros tanto quanto a si mesmo, embora pusilânime em demasia para promover a automutilação.

 

Ao retornar à cidade na segunda-feira, 13 de junho, Gilberto decidiu não caçar apenas animais irracionais. Às 11h30 estava em frente ao portão do Colégio Francisco Batistella aguardando a saída dos primeiros garotos. Paulo Bartolo Neto, Ricardo Bartolo e Samuel Nitberg, os três com doze anos, foram os primeiros abordados por Souza. “Ei, garotos. Como vão? Vim falar com vocês porque preciso de ajuda para concluir a instalação de uma tirolesa no Parque das Figueiras. O que acham de contribuir? Em troca, pago cem dólares a cada um”. A proposta interessou aos três, mas a reputação de Gilberto deixou-os receosos. Para convencê-los, Souza mostrou o dinheiro previamente. Sem titubear, e com ingênuos sorrisos enobrecendo-lhes os rostos, aceitaram o acordo, ratificando a confiança tão almejada por Souza.

 

Quando chegaram ao parque, Gilberto mostrou o local da instalação e pediu que um deles o acompanhasse até a margem do rio para buscar um pouco de água. “Temos de limpar as ferramentas depois de encerrado o trabalho. Então peço apenas que um de vocês me acompanhe. Quem vai?”, questionou. O menor, Ricardo Bartolo, se prontificou a ajudá-lo. Ao se afastarem setecentos metros do local onde deixaram os outros dois garotos, Souza pediu para Ricardo percorrer o restante do caminho sozinho. O jovem Bartolo, preocupado e temeroso, estranhou a atitude de Gilberto e resistiu em continuar o trajeto. “Não conheço direito este lugar. Prefiro ir embora para casa”, disse o garoto, segurando a barra da calça e observando com olhos trêmulos a floresta à sua volta.

 

Para acalmá-lo, Gilberto argumentou: “Precisamos de outro recipiente para encher de água. Do contrário, não poderemos nos limpar depois de terminada a instalação. Além disso, como seus pais reagiriam se soubessem que você veio até o Parque das Figueiras em companhia de um estranho? Acalme-se, não há nada a temer”. A resposta de Souza desvaneceu as suspeitas de Ricardo que a passos vagarosos caminhou em direção ao rio. Quando olhou para trás, Gilberto desaparecera.

 

Souza percorreu duzentos metros a oeste e mais cem ao norte, onde havia uma barra de concreto retangular. A ergueu e de dentro de um buraco de um metro e meio de profundidade retirou um arco, uma caçadeira Browning e um battle mace. Colocou tudo dentro de uma mochila de camping e correu até a margem do Rio Tumbasca. Ao vê-lo, Ricardo questionou onde estava a vasilha. “Me desculpe, não a encontrei. Bom, mas tenho uma idéia. No final da semana passada, eu e meu pai viemos aqui e achamos alguns pneus velhos. Podemos usar para alguma finalidade. Vê aquela árvore gigantesca? Deixamos atrás dela. Vamos lá pegar”, destacou Gilberto. Apreensivo, Bartolo coçou o pescoço e seguiu a recomendação de Souza. O fez por medo e não por interesse. Lembrou-se dos inúmeros relatos dos colegas destacando que Gilberto tornava-se vingativo ao ser contrariado.

 

Ricardo foi até o local indicado e ergueu o primeiro pneu, enlameado por estar em uma região de várzea. Logo sentiu uma dor súbita e ingente; como se seus ossos fossem liquefeitos. O sangue deslizou pelo corpo franzino e macerado do pequeno Bartolo. Fragilizado, não entendeu o acontecido; desabou no chão, se pôs a chorar e se debateu contra a terra molhada pela recente alta do nível do rio. Enquanto Ricardo soluçava e gritava exasperadamente pelos pais, Gilberto tirou o battle mace da mochila e desferiu um golpe certeiro em suas costas. A dor impediu Bartolo de articular qualquer palavra, se limitando apenas a proferir sons ininteligíveis e chorar. O desespero foi tão intenso que chamou a atenção dos animais. Ouvia-se o bramar de cervos a oitenta metros do local, além de aves agitadas entre os arbustos.

 

Souza apenas observava a dor de Ricardo, sem qualquer comiseração ou tendência à redenção. A força do golpe fez com que alguns pregos, geometricamente alinhados, penetrassem as costas de Ricardo. Gilberto extasiou-se ao ouvir algumas costelas do garoto se partindo. A fragilidade o excitava tanto que se sentiu impelido a comentar. “Tão vulnerável é o homem deitado. Ainda assim, na altivez de sua estupidez, recebe a morte como se fosse um ato desnaturado. Que triste! Sucumbe relaxado, de olhos fechados, negando a morte o direito de levá-lo. Não resista, meu amigo! Se aprumar no momento inoportuno prolonga o sofrimento; desvirtua a sua existência e enaltece a inútil intransigência. Por que choras no porvir do inevitável quando a vida, um bem impalpável, vale menos que um grão de areia? Não morra! Não viva! Esqueça a existência e parta como se ao longe um barco o levasse por águas turvas ao túnel de entrada do limbo. Lá sim, nada há de sentir, pois até mesmo o aroma de sua pele se tornará estéril. Não se preocupe! Antes espoliarão de ti as emoções, os sonhos e as lembranças. Talvez serás como eu, vazio e impreenchível. Não esqueça: não se trata da morte, não se trata da vida, apenas a virulência da sorte que abarca uma saída”.

 

O jovem Bartolo ficou banhado em um líquido rubro tão vivaz que cintilava. Souza se sentiu poderoso e percorreu a trilha de sangue com os dedos da mão direita. Nunca sentira o sabor do sangue humano, nem mesmo o cheiro; tratou de saciar a curiosidade. Ficou inerte por alguns instantes, franziu a testa e entrou em digressão; logo recobrou os sentidos. Pegou o pneu das mãos da vítima e o colocou no pescoço, formando um necklace. Tirou um isqueiro do bolso direito e do esquerdo uma garrafinha contendo etanol. Sem pestanejar, embebedou a borda interior do pneu em álcool, ateou fogo em um pedaço de papel e jogou no pneu; não levou mais que três segundos para estar em chamas. Bartolo se debatia no chão enquanto exprimia palavras incompreensíveis. Após dois minutos e meio, a vida de Ricardo se esvaiu aos 12 anos. Do rosto desfigurado, restou intacta apenas a arcada dentária.

 

Despreocupado com o cadáver, Gilberto encarou a situação como um teorema grego. “É sempre assim. No final todo mundo vai embora”, gritou em tom irritadiço. O jovem assassino lamentou que Ricardo tivesse morrido tão rápido; prometeu a si mesmo, em solilóquio: “Da próxima vez serei mais cauteloso”. Souza limpou as armas nas águas do Rio Tumbasca e observou o sangue espesso formar uma leve camada à margem. Passados três minutos, apareceram dezenas de piranhas digladiando-se umas contra os outras para se alimentar do sangue.

 

Quando Gilberto se aproximou do local onde era aguardado por Paulo e Samuel, jogou a mochila com as armas atrás de uma figueira para evitar suspeitas. Ao parar frente a eles, as primeiras perguntas foram sobre a demora e o paradeiro de Ricardo. Souza disse que o garoto resolveu se lavar no rio e logo se juntaria e eles; estranharam, mas aceitaram a justificativa.

 

No mesmo momento, em frente ao colégio, Daniel Ávila questionava todos, perguntando se alguém viu o seu primo. Sem obter êxito, voltou para casa questionando-se sobre o motivo pelo qual Samuel, que diariamente estava em frente ao portão o aguardando, foi embora. A ausência fez Ávila preocupar-se com a possibilidade de um infortúnio. Além disso, naquele dia, o garoto deveria dormir na residência de Daniel já que os pais de Nitberg viajaram a trabalho.

 

Os imaculados e o semeadouro: no candelabro do matadouro

 

Gilberto olhava para Paulo e Samuel como se fossem ovelhas prestes a sucumbir diante da imolação. Já não distinguia animais de seres humanos. O desejo de ceifar vidas era tão intenso que encarava o homicídio como um instrumento de fortalecimento. Era tão contumaz que a arbitrariedade lhe dirimia a vida social na totalidade. Mas quando queria, ocultava bem a verdadeira face, assumindo um personagem demasiado carismático.

 

Com um sorriso pérfido, Souza deu dois tapinhas nas costas de Paulo e Samuel, enfatizando ao primeiro a necessidade de mais madeiras para terminar a escada de acesso à tirolesa. Gilberto salientou que há oitocentos metros dali um visitante esqueceu um grande número de pedaços de madeira. “Podemos usá-las. Serão de ótima valia!”, sugeriu em tom excitado. Cinco minutos depois da saída de Paulo, Gilberto disse a Samuel: “O garoto esqueceu de levar o saco de estopa para transportá-las. Vou até ele. Me espere aqui”. Antes de encontrá-los, Souza abandonou a mochila com as armas perto do local onde disse haver madeiras. Correu como um leopardo e quando avistou Paulo, se escondeu atrás de uma figueira. Bartolo percebeu o barulho, mas como estava em uma floresta, acreditou ser apenas um animal em meio à vegetação.

 

A pueril conduta dos garotos, crentes de ter a sorte ao lado, acreditando que ganhariam uma quantia bastante superior à mesada ofertada pelos pais, despertava em Gilberto uma excitação que lhe arrepiava até os pêlos finos da nuca. Mordia os lábios paulatinamente e observava Paulo reunindo os pedaços de madeira espalhados e forrando o chão em meio a gravetos e folhas. Atento a atividade, Bartolo sequer olhava ao redor. Quando Gilberto percebeu a distração, correu em direção a ele, saltou com os dois pés juntos e golpeou-lhe as costas; Paulo caiu dois metros e meio à frente. A conseqüência mais visível foi um corte na testa, provocado pelo atrito com o cascalho que ornava a árvore mais próxima.

 

Apesar da visão embaçada e da tontura, conseguiu reconhecer as cores da roupa que Souza usava naquele dia; ficou chocado e sentiu náuseas. “Por que está fazendo isso? O que fizemos? Por favor, pare! Não temos nada contra você”, suplicou Paulo gaguejando, tremendo e lacrimejando. Sem dar ouvidos às perguntas, Gilberto tirou uma navalha do bolso e a girou em direção a boca de Bartolo, provocando cortes profundos dos dois lados. Quando Paulo começou a gritar, Souza tirou a blusa, rasgou a manga da camiseta e fez uma mordaça.

 

Sem descartar o desejo de fuga, Gilberto tirou do bolso inferior da mochila dois pequenos pedaços de corda de fibra. Utilizou-os para amarrar as mãos e os pés de Paulo. O algoz sorria extasiado enquanto era observado pela vítima. Gilberto estalou o dedo e colocou a mão direita no bolso da calça, de onde tirou o porta-agulhas de sua mãe. Quando viu Gilberto sorrindo ao manusear as agulhas com esmero o garoto deu golpes no ar, mesmo com os pés amarrados; em menos de dois minutos a estafa o venceu.

 

O verdugo se aproximou de Paulo, segurou uma agulha e a introduziu no centro da pupila do olho esquerdo da vítima. O estremecer do corpo da criança foi o primeiro sinal de convulsão. Depois de alguns instantes, metade da agulha de dez centímetros foi introduzida. Gilberto a puxou de modo tão abrupto que arrancou o olho do garoto, fazendo respingar sangue em sua boca. Sentindo prazer mórbido diante da situação, Souza deslizou a língua pelo globo ocular e o colocou dentro da boca, mastigou três vezes e cuspiu no chão. Gilberto sentou recostado a uma árvore defronte aquela onde estava Paulo e fitou o sangue escorrendo pelas maçãs da criança; pareciam lágrimas vermelhas. A situação era tão desesperadora que Bartolo só desejava a morte.

 

Indiferente ao sofrimento que infligia, Souza retirou a besta Harton de dentro da mochila, se afastou três metros de onde estava, mirou a boca de Paulo e apertou o gatilho. Segundos depois, a flecha dilacerou a língua do garoto. A ponta atravessou a boca e chegou até a nuca de Paulo; ficou cravada na árvore, como se fosse um suporte, evitando que a cabeça do infanto, já sem vida, perdesse a retidão. Souza ainda se levantou e deu chutes colocados nas coxas de Bartolo; queria saber se realmente estava morto. Para finalizar, retirou uma faca de dentro da meia, cortou alguns galhos e jogou em cima do cadáver. Como era outono, juntou um pouco de folhas e forrou os galhos, fazendo uma cobertura uniforme, embora qualquer corrente de ar pudesse arrastar tudo. Não tinha intenção de ocultar o homicídio, apenas evitar que alguém se deparasse com o cadáver antes de concluir o plano.

 

Lembrando-se que Samuel os aguardava, limpou o sangue das mãos, enterrou as armas que usou no crime e percorreu metade do caminho correndo e o restante caminhando. Com expressão serena e um sorriso exagerado, Gilberto foi ao encontro de Nitberg. “Ricardo ainda não voltou. Me desculpe, mas preciso procurá-lo”, disse o impaciente Samuel. Evitando perder a calma, Gilberto tentou controlar a situação. “Façamos o seguinte. Enquanto esperamos, vamos usar a madeira que eu trouxe para terminar a construção da escada. Se eles demorarem mais, podemos procurá-los juntos. O que acha?”, sugeriu Souza. Samuel conhecia o comportamento dissoluto de Gilberto, mas optou por continuar o trabalho quando lhe foi mostrada novamente a nota de U$ 100 a ser entregue antes do pôr-do-sol.

 

Já era 14h quando Daniel percorreu em vão todo o bairro à procura do primo. Decidiu retornar ao colégio e perguntar ao porteiro Chico Pessoa se viu Samuel naquele dia. “Eu fiquei na portaria até 11h30 porque tinha agendado compromisso no Banco ao meio-dia. Normalmente nesse horário você já foi dispensado das aulas, não é mesmo? Então, quanto ao Samuel, eu o vi em companhia de um garoto desocupado e mais velho que está sempre aqui na frente. Não tenho certeza, mas acho que se chama Gilberto. Ah! Escutei falarem algo sobre o Parque das Figueiras”, revelou Pessoa. Ávila agradeceu a ajuda do porteiro, subiu no banco da bicicleta e pedalou em direção ao parque.

 

Ao chegar ao local onde estava Nitberg, Gilberto entregou-lhe um martelo e explicou como construir a escada. Não passou mais que cinco minutos e acabaram-se os pregos. Samuel virou o corpo em direção a Gilberto para pedir mais; ficou receoso ao vê-lo abrindo a mochila. “Ei, o que você está fazendo? Me mostre o que tanto esconde aí dentro”, questionou o garoto. Souza declarou serem ferramentas para o caso de haver algum imprevisto. Nitberg não acreditou e insistiu para mostrar o interior. Gilberto sorriu, coçou a cabeça e retirou um alicate, uma chave de fenda e uma furadeira. Mesmo sabendo que estes três itens não ocupariam o espaço de 120 litros da mochila, Samuel calou-se e fingiu estar tudo bem.

 

Na pressa, preocupado com a possibilidade de Samuel procurá-los pela demora, Gilberto não racionalizou que a situação poderia gerar suspeita e levou apenas nove pedaços de madeira dentro do saco de estopa. Três foram bem pregados por Nitberg, mas os demais racharam. O garoto pediu que Gilberto trouxesse mais. Prevendo a fuga de Samuel, o chamou para buscarem juntos, justificando com o axioma de dois terem mais força que um. Samuel, dominado pela impaciência, não concordou; correu e disse que não queria mais o dinheiro, e sim procurar os amigos perdidos no parque. “Tenho certeza de uma coisa; estão correndo perigo neste lugar. Sei da existência de muitos animais selvagens por aqui”, afirmou Nitberg.

 

Encolerizado, Gilberto tirou a caçadeira Browning Gold Hunter da mochila e acionou o gatilho três vezes. O suficiente para que Samuel, a 20 metros de onde estava, caísse com os braços abertos sobre uma poça de lama. O impacto do tiro foi semelhante a uma pedra arremessada à longa distância. Inclusive, Samuel acreditou que tivesse sido atingido por uma. Os lábios tremeram quando ouviu um som ecoando pela floresta; seus olhos foram conduzidos até o ombro direito, onde uma flecha de ponta laminada se alojou. O garoto desesperou-se e gritou tão alto que espantou um grupo de anus escondidos em um arbusto a pouco menos de um metro do local onde caiu.

 

Gilberto, às gargalhadas, correu até Samuel e começou a rodopiar em torno do garoto, com os braços arqueados, como se desempenhasse uma liturgia primitiva. Além de ferido, Nitberg sentiu-se escarnecido. Com o galho de uma árvore ao seu alcance, quando Gilberto se aproximou, golpeou-lhe o rosto. Souza ficou furioso e saltou em cima das costas do garoto. De repente parou, preocupado em matá-lo antes da sevícia.

 

Sentou sobre as costas de Samuel e relatou-lhe em minúcias o que fez com os irmãos Bartolo. Nitberg, normalmente calmo e pacífico, foi sobrepujado pela ira. O seu ódio clamava por vingança. Entre seus dentes cerrados deslizava um líquido branco e espumante. Não queria fazer justiça, mas destruir um ser vivo inóspito, arraigado na devassidão e no sadismo. O rosto de Gilberto curiosamente não transmitia emoções, era como uma carcaça flagelada; de um vazio existencial tão nefasto que tinha o mesmo princípio existencial de uma bactéria.

 

Nitberg lucubrou os motivos que levaram Gilberto a viver daquele modo, contudo não chegou a nenhuma conclusão, mesmo que subjetiva. Souza não queria ser compreendido, inclusive descaracterizava qualquer forma de virtude. Segundo ele, pessoas existem apenas como objetos da imolação ou do morticínio. Outros tipos de morte, em seu comportamento ditado pela misantropia, são lúgubres fatos inopinados. Enquanto Samuel proferia palavras ofensivas contra Gilberto, o agressor tentava manter a calma. Perdeu o controle quando Nitberg lembrou que na verdade era ilógico ele crer que Orlando Borba Costa realmente era seu pai, já que sua mãe foi meretriz por tantos anos. Souza coçou a própria cabeça com força e feriu o couro cabeludo. Logo se levantou, segurou o braço esquerdo de Samuel e quebrou cada um dos dedos, enquanto gritava; afirmando que sua mãe é uma respeitável senhora.

 

Gilberto chegou, de fato, a se aproximar do comportamento de um ser humano comum, que naturalmente defende os seus semelhantes. Porém, é importante ressaltar que o fez apenas por egocentrismo; nunca aceitou qualquer iniciativa com o intuito de macular sua imagem. Como retaliação, pegou um galho fino e o introduziu dentro do nariz de Samuel que lutava para resistir à dor, irritando mais ainda Gilberto. Já exaltado, Souza tirou da mochila uma Glock 17, calibre de nove milímetros, e deu quatro disparos contra os dois tornozelos de Samuel. Enquanto o garoto ofegava e gemia de dor, Souza retirou uma faca Bowie Joseph Rodgers, que pegou escondido do quarto de seu pai, e fez quatro cortes profundos e transversais no peito de Samuel. O garoto já lívido não resistiu aos ferimentos e sucumbiu. Insatisfeito, Gilberto decapitou Samuel e encaixou a cabeça no galho de uma figueira.

 

Enquanto guardava as armas dentro da mochila Souza ouviu o som de uma bicicleta. Juntou os pertences que faltavam e correu o mais rápido que pôde. Ao chegar ao local do crime, Daniel caiu em prantos ao ver o primo decapitado. Não disse nada; se ajoelhou diante do ficus e pressionou as mãos contra o rosto, caindo em desalento. Perdeu as forças e ficou desnorteado, até que parou de soluçar. Ao recobrar os sentidos, correu floresta adentro procurando os irmãos Bartolo que, segundo o porteiro, também foram convidados por Gilberto a irem até o Parque das Figueiras.

 

Depois de vinte e cinco minutos pedalando sem destino avistou uma caixa de madeiras a quatrocentos metros ao norte. Também encontrou alguns galhos sobre o cadáver de Paulo Bartolo. Teve dificuldade para crer nos fatos; sobressaltado pela ira mordeu a língua. Concluiu que aqueles crimes foram cometidos por Gilberto Costa de Souza. Flashbacks tomaram conta dos pensamentos de Daniel que não tirava da cabeça o sorriso nauseabundo de Gilberto. Decidiu correr um pouco mais e, quarenta minutos mais tarde, viu o pequeno corpo mutilado de Ricardo Bartolo. O reconheceu pela roupa e também pelas iniciais R.B. que a mãe do garoto bordou nas meias.

 

Quando viu os corpos lembrou da recomendação do tio Fernando Fassina, tenente da Polícia Militar, que lhe disse para jamais remover ou tocar um corpo no local do crime, pois prejudicaria o trabalho da perícia. Daniel sentiu-se tão desolado que o som mais alto escutado por ele era do próprio coração; palpitava como o rufar de um tambor. Apesar de tomado por desejo febril de vingança, sabia que perseguir o inimigo poderia resultar em grande desventura. Decidiu abandonar o parque e pedalar dez quilômetros até chegar à casa da família.

 

Aos pais, relatou tudo que viu. Rosa ficou desesperada ao receber a notícia envolvendo o sobrinho. Sentiu-se mal e desmaiou sobre o sofá. Teve de ser levada até o quarto pelo marido. “Deixo-a em suas mãos, Júlia. Prometo que logo retornaremos”, disse João Carlos Ávila à filha. Ainda com as mãos sujas, por ter acabado de sair do viveiro, onde enxertava algumas mudas de laranjeira, o senhor Ávila pediu ao filho que o acompanhasse até a sede do Batalhão da Polícia Militar. De lá, se deslocaram ao parque, acompanhados pelo tenente Fassina que mobilizou uma equipe de sete policiais. Convidou também o delegado Rogério Basílio Prestes, da Delegacia Regional de Polícia (DRP); e o perito forense Gustavo Deconti, do Departamento de Polícia Científica (DPC).

 

Já passava das 20h, quando a equipe chegou até o local onde estava o cadáver de Samuel Nitberg. Os olhos azuis do garoto estavam esbranquiçados e com aparência viscosa. O corpo extremamente enrijecido era algo inédito para Daniel; nunca tinha visto um cadáver de perto. “Rapaz, isso pode surpreendê-lo na primeira vez, mas saiba que é algo muito natural. O corpo fica assim por causa do acúmulo de cálcio nos músculos”, explicou Deconti. A pele enrugada e amarelecida assustou o jovem Ávila que, por um momento, monologou se aquele realmente era seu primo. Enquanto Daniel continuava negando a si mesmo a realidade, João Carlos ratificou a identidade de cada um dos garotos mediante presença de Fassina, Deconti e Prestes; os três chocados com a brutalidade do agressor.

 

Enquanto conversavam e colhiam dados no local do crime, sete oficiais da Polícia Militar vasculharam o parque em busca de suspeitos ou qualquer vestígio deixado pelo autor; nada foi encontrado. Gustavo inferiu que o modus operandi adotado pelo criminoso não seguia nenhuma metodologia. Se houve qualquer tentativa de ordenar os atos, o inesperado a suplantou. Gilberto sequer cogitou tal possibilidade e, como assassino amador, quis apenas saciar o abrupto anseio de usurpar vidas.

 

O cadáver de Paulo era o que estava em melhores condições, apesar do amiúde odor de putrescina e cadaverina. O novato cabo Joaquim Marcílio dos Reis, que também nunca tinha visto um morto, ameaçou acender um cigarro quando estava ao lado de Bartolo, mas Deconti o interrompeu. “Companheiro, saiba que gás sulfídrico em um cadáver é inflamável. Nunca um cigarro lhe custaria tão caro quanto agora. Acha que vale a pena?”, questionou Deconti com uma expressão irônica.

 

Tarefa difícil foi reconhecer Ricardo Bartolo que estava com o corpo parcialmente queimado. A cabeça só foi reconhecida como de um ser humano pela estrutura óssea. “O menor, que até na hora da morte manteve a boca aberta, de certo, teve a morte mais trágica. As queimaduras, como podem ver, vão da cabeça até o início do tórax”, relatou Rogério Deconti. As outras partes do corpo estavam intactas, com exceção das profundas lacerações nas costas, provocadas pelo battle mace.

 

Até às 21h30, nenhuma arma foi encontrada, até que um repentino vento frio arrastou uma camada de folhas e, em meio à escuridão, a lanterna do sargento Fábio Luiz de Freitas reluziu algo envernizado. Quando se aproximou, a meio metro do tronco de um ficus, puxou o objeto e constatou que era uma faca. A Bowie Joseph Rodgers foi identificada por Fassina que coleciona armas brancas desde a adolescência. Os vestígios de sangue na lâmina não deixaram dúvidas de que foi utilizada para golpear a vítima. Pouco antes de saírem do parque, Daniel relatou as informações obtidas em conversa com o porteiro Chico Pessoa. Prestes se prontificou em colher o depoimento do homem. Antes salientou a importância de levarem as provas do crime (flecha, balas e faca) para serem analisadas na Delegacia Regional de Polícia.

 

Tiveram uma surpresa quando chegaram ao local; se depararam com Gilberto Costa de Souza. O garoto estava defronte à recepção e sentado no chão, arremessando algumas bolinhas de gude dentro de três copos de plástico, posicionados de forma oblíqua. O encontro inopinado levou Daniel a uma viagem abissal. Com olhos marejados deixou que a escuridão tentasse deglutir o bom senso, dando vazão a sentimentos rudimentares. Imaginou-se como membro de um pelotão de fuzilamento, observando frontalmente o corpo inerte de Gilberto na Berlinda. O vislumbrou também sendo executado em períodos remotos. De súbito, extasiou-se ao ver o inimigo na guilhotina, e também tendo os ossos mastigados por um tigre dente-de-sabre.

 

Ao ser chamado por Gustavo Deconti três vezes, Daniel voltou a si. Gilberto se levantou, fitou o garoto e pediu a atenção de todos. Com ar debochado, começou a cantar “a capella”, seguindo uma concisa cronologia, os fatos acontecidos na tarde daquele dia. No final, fez um lento movimento de 360 graus com o corpo e finalizou a canção com um falsete, questionando o paradeiro de sua Bowie. Deu muitas gargalhadas e seu rosto ficou rubro como uma maçã passada. Os policias, assustados com o que ouviram, perguntaram a Gilberto se tudo aquilo era verdade. “Sim, tudo é fato. Fatos completos e incompletos, dependendo de quem fala e também de quem ouve”, disse o garoto em tom sereno e satírico.

 

Diante da declaração, Prestes levou Gilberto para a sua sala. Quando Orlando Borba Costa chegou, acompanhado de Palmira Soares de Souza, exigiu que soltassem o garoto, alegando ultraje. “Como podem tencionar manter uma criança em cárcere? Vocês são loucos? Liberem-no agora e não me façam mais perder tempo”, gritou. A investida era mais um ato de ocultação da verdade sobre o filho. Orlando, apesar de conviver com fortes lembranças do passado, principalmente atos cometidos por Gilberto na infância, se negava a partilhá-las com qualquer pessoa, até mesmo familiares. Sentia-se violentado, mas nunca deixou nenhuma emoção negativa envolvendo o filho transparecer. Na delegacia, se recordou que com cinco anos de idade Gilberto já apresentava tendências à psicopatia. O número de gatos na vizinhança caiu em 20% durante período de seis meses no ano de 1959. Gilberto os enterrava vivo em um terreno baldio a duzentos metros de casa. O garoto teve vinte e dois animais até os dezesseis anos: onze cães, seis gatos, um porquinho-da-índia, uma iguana, um coelho, um hamster e uma tartaruga. Nenhum dos animais viveu com Gilberto por mais de sete meses. O destino mais trágico foi de Lorna; a porquinha-da-índia virou carne à caçarola em um sábado, quando os pais de Gilberto viajaram para visitar a avó Maria Luzia Domingues de Souza.

 

Astuto, Orlando negou o tempo todo que Gilberto fosse capaz de assassinar um ser humano; se restringiu a velar o passado do filho e pulverizar comentários fantasiosos. As investidas foram em vão; a intervenção de Borba Costa não teve qualquer efeito. “Saiba, meu pai, me responsabilizo pelas três mortes. Declaro aqui que os atos foram regozijantes. Se minha vida custar, pouco hei de pagar, pois a grandeza da finitude é a mais bela plenitude. Poucos têm esse prazer; de ver nos olhos da vítima a agonia de falecer. Matem-me, continuarei em débito, a não ser que minha vida valha por três. Dêem o veredicto! Será justiça, será ignorância, será a beatitude que aborrece a jactância? Nada sei, a não ser que a mortandade enaltece a minha salubridade. Aquele que destrói mais de uma vida, nunca terá nada a oferecer para substituir o que espoliou. A justiça existe com qual efeito? É a ilusão de confortar um coração já corroído pela incompreensão? Ou será a dor o agente transformador que arrebata do homem a essência do dissabor? Destruam-me e eliminem as cinzas para varrerem do mundo o fato de eu ser um de seus semelhantes. Morto serei por carregar em mim a sinceridade que lhes falta; ilusionistas da ribalta. Ocultam no seio de seus mundinhos limitados o único fato inquestionável e intratável, de serem animais que, enrolados em pedaços de tecido, se julgam civilizados. Não são! Do primitivo não carregam somente a herança instintiva. A petulância e a ignorância, que por ora ainda dorme, há de acordar, quando no momento oportuno sentirem a fragrância do desespero no ar”, disse Gilberto.

 

Palmira, desesperada com as palavras do garoto, estapeou-lhe o rosto. Como se estivesse em plano transcendental, não reagiu aos tapas da mãe; não sentiu dor. Mesmo com a insistência do pai em dizer a Gilberto que poderia encontrar meios de inocentá-lo, ele esbravejou e disse não se envergonhar de nada. Afastou-se dos pais e caminhou em direção a Rogério Basílio Prestes ladeado por Reis, Fassina e Deconti. Cutucou-lhe o ombro e falou: “Sou culpado, leve-me a uma cela, por favor”. Prestes olhou para o garoto e disse a ele para ir embora com os pais. Antes lhe entregou uma carta em papel timbrado, obrigando que comparecesse à delegacia às 8h para acompanhar o depoimento do porteiro Chico Pessoa e do vigia do Parque das Figueiras Flávio Augusto de Oliveira, outra testemunha que viu o garoto correndo em direção à saída alguns minutos depois de Daniel Ávila adentrar o local.

 

O réprobo e a dissimulação: o porvir da emancipação

 

Ao chegar da vez de Gilberto depor, por volta das 9h30 do dia seguinte, questionaram porque ele se preocupou em levar as armas embora e, se tinha intenção de entregar-se, porque fugiu com a chegada de Daniel. Souza declarou: “Bem, naquele momento eu estava cansado e minha única preocupação era uma possível retaliação por parte de algum civil. Me entreguei apenas porque jamais tive intenção de me esconder. É de soberba covardia o homem envergonhar-se de suas realizações, independente de quais sejam. Mesmo assim, retornei por ter muito estima pela faca esquecida em meio à floresta. Já imaginava que estivesse com vocês”.

 

Em momento algum, durante o depoimento, o garoto demonstrou mudança de comportamento. Calmo, finalizou que aguardaria a imputação dos crimes. “Nada mais tenho a declarar. Retiro-me da sala com a esperança de uma bela e suntuosa condenação”, ironizou. Gilberto desfrutou alguns dias de plena liberdade, até que o delegado foi à residência do garoto informar a sentença; pena de cinco anos de tratamento psiquiátrico no Instituto Dom João VI.

 

No início, o garoto hostilizava os funcionários e articulava rixas entre os internos. Certa vez, simulou uma convulsão após tomar sal de frutas e, quando o funcionário Roni Cândido foi socorrê-lo, retirou o aparelho de choque da cintura do agente psiquiátrico e acionou na boca dele descarregando 150 mil volts de energia. Depois de recuperado, Roni pediu demissão. Durante os primeiros seis meses, os funcionários lidaram com situações sem precedentes. Toda semana profissionais pediam demissão e outros, que nada sabiam sobre o garoto, assumiam função.

 

Quando Gilberto completou três meses de internamento, cessaram as contratações por falta de interessados. Preocupado, Maurício Teixeira, diretor do Dom João VI, convocou reunião com a Comissão Gestora de Assuntos Internos, composta por sete profissionais. Deliberaram que a solução seria remanejar Souza para a “Ala Vendita”; local para onde enviavam os internos com mau comportamento. Gilberto passou 27 dias no cubículo de três metros quadrados, ladeado pelo depósito de lixo hospitalar e outros dejetos. Não havia janelas na pequena cela e o oxigênio era proveniente de uma tubulação no teto. À noite, o chorume que escorria por uma fresta ao fundo da pequena cela provocava intensas dores de cabeça em Gilberto. Como parte da punição, era alimentado com ração animal pastosa. Irremediavelmente consumido pelas trevas, o rapaz esqueceu de seu aniversário de 18 anos, completados em 21 de setembro.

 

Depois de alguns dias percebeu que não consumia apenas água; se deu conta do fato quando, pela primeira vez, tocou o líquido consistente no interior do copo enegrecido pela sujeira. Como não consumia instantaneamente a bebida, com o passar dos minutos e das horas, insetos sobrepujados na cadeia predatória sucumbiam na água do copo de trezentos e cinquenta mililitros. A vindita era tão suja e úmida que musgos e fungos ornavam o ambiente. Havia também um cheiro putrefato de animais na tubulação.

 

Passados vinte dias na vindita, Gilberto percebeu que mesmo durante a noite, e sem qualquer fonte de luz, já conseguia identificar tudo à sua volta. Olhava para o cubículo como um habitat natural e não tinha mais problemas em eliminar os animais incômodos. Com o tato, inferia que tipo de animal estava perto dele; alguns serviram como alimento quando a ração lhe repelia o estômago e provocava náuseas.

 

Durante o dia, Gilberto refletia sobre como proceder quando fosse liberado do castigo, e à noite tinha alucinações relativamente etéreas – corria sobre um céu de algodão doce, segurava uma baioneta incandescente e a arremessava contra tríades angelicais. Enquanto o sangue celestial jorrava, ele sorria ouvindo um madrigal. O sonho terminava quando começava a praticar necrofagia. Sempre acordava com o cheiro do chorume.

 

Com o tempo, Gilberto se tornou impaciente e enjoou de viver naquele local que nada tinha a lhe oferecer. Quando saiu da Vindita, o rosto estava pálido, além da perda de nove quilos. O primeiro encontro foi com o diretor do instituto que quis ver de perto os resultados. Souza estava mais contido; apesar de introspectivo, tratou todos com educação exemplar. Criou um personagem e, com este, acreditava cegamente que os funcionários do instituto não seriam capazes de prorrogar a tão vislumbrada emancipação para além de cinco anos.

 

O demônio adormecido estava incólume e, dessa relação de sobrevivência, frutificou um Gilberto obstinado em se retratar diante da sociedade. Durante as sessões de terapia, caía em prantos e relatava aos psiquiatras sua entrega à escuridão quando soube que sua mãe era uma ex-prostituta e o seu pai um estelionatário; alguém que sentia prazer em contar dinheiro, mas não histórias ao filho. Pessoas a quem atribuiu a culpa pela sua conduta antisocial.

 

Atacar o pilar da estrutura familiar, denunciando falhas reais ou falsas no processo educacional e cultural, sempre foi uma peculiaridade positiva para sensibilizar qualquer ser humano; Souza sabia disso. Concluiu que essa seria a forma mais efetiva de garantir a liberdade, após ouvir conversa de Maurício Teixeira com o tesoureiro Pedro Frade, da Fundação Orestes Germano, entidade responsável por captar recursos para o instituto. No gabinete do diretor, Frade comentou que para continuar repassando verbas precisaria de uma contribuição. “Meu caro Teixeira, comece a liberar internos com bom comportamento. Com essa permuta para conter despesas, asseguramos a manutenção da entidade. É o único jeito de dar continuidade ao seu trabalho. Ou você prefere fechá-la?”, questionou o tesoureiro. Embora resoluto, o diretor do instituto concordou. A alguns metros dali, Gilberto tapou a boca com a mão para que não o ouvissem rindo enquanto espiava pela fresta da porta.

 

A austeridade cedeu lugar à flexibilidade. O instituto que ao longo de quatro décadas não dispensou mais de cinco internos por ano aumentou esse número para 25. Antes de findar o quarto ano internado, Souza conquistou a fama de ser um dos cinco internos mais bem comportados do instituto; logo garantiu a simpatia dos funcionários. No último ano, foi alvo de uma tentativa de homicídio praticada pelo interno Jonas Nitberg, diagnosticado como esquizofrênico após a morte do irmão Samuel.

 

Certo dia, pela manhã, Souza foi tomar banho e, de súbito, sentiu uma cotovelada na nuca. Era Jonas cobrando a morte do irmão. Assim que Nitberg começou a golpear a cabeça de Gilberto, quatro agentes psiquiátricos, de passagem pelo local, correram e seguraram Jonas; o imobilizaram com aparelhos de choque. Antes de sair do banheiro, Gilberto sussurrou no ouvido de Nitberg: “Amigo, o sangue de Samuel era tão agridoce, tão sublime e delicioso que nem mesmo o hidromel fabricado pelas mãos de um deus me deixaria tão satisfeito. Lamento e muito, sinto até mesmo meu coração palpitando de tristeza, por não ter a oportunidade de experimentar o sangue de outro Nitberg”.

 

Enfurecido, Jonas desejou impetuosamente o fim de seu inimigo. “Um dia hei de lhe encontrar, câncer; você, moribundo, usurpador de vidas. Corra o máximo que puder, delicie-se com a morte usando uma colher, mas não se esqueça; a sua fragrância o denuncia, mesmo que coberto pela neblina rasteje sob o manto da mescalina. És tão rejeitado pela vida quando pela morte; triste há de ser o seu fim, lançado à eterna solidão cristalizada em um fiorde. Isso na melhor das hipóteses. Se antes não encontrá-lo para fazer com que sinta o sadismo em sua essência mais plena. Será belo, pois lhe darei o prazer de conhecer a si mesmo no âmago; tocando suas próprias entranhas. Vai perceber que a natureza de sua mente é distinta da sua essência material. Não desvaneça, verme! É muito cedo para desfalecer; o seu destino é a extremidade de uma corda que balança em contraposição aos seus anseios. Viva o ódio e o roubo da ingenuidade! O destrinchar do ópio que evidencia sua debilidade!”, gritou Nitberg.

 

Apesar das hostilidades de Jonas, Gilberto contraiu apenas uma fratura no nariz e algumas escoriações no rosto. Depois do episódio, foram colocados em alas distintas e nunca mais se encontraram. Apesar da confusão, Nitberg voltou para casa mais cedo. Gilberto ainda teria mais seis meses a cumprir até ser liberado em maio do ano seguinte. Se dispondo a desempenhar atividades voluntárias e também a ajudar os agentes psiquiátricos a evitar conflitos entre os internos, Souza foi dispensado com 80% de aprovação por parte da Comissão Gestora de Assuntos Internos. No dia, apenas sorriu, agradeceu com extrema singularidade e voltou para casa.

 

Palmira e Orlando programaram uma festa de boas-vindas; reuniram vizinhos e familiares. No dia, um jornal local publicou um editorial atacando o sistema judiciário brasileiro e usando como exemplo o caso de Gilberto. O poder aquisitivo da família de Souza era o suficiente para garantir que o filho tivesse, no mínimo, uma vida social artificial, construída sob o dogma da moeda. Antigos amigos contraventores, pessoas desconhecidas, alpinistas sociais, bicheiros e políticos locupletavam o cenário no dia do retorno.

 

Os pais de Samuel Nitberg, com o apoio da família Bartolo e também dos Ávila empreenderam uma manifestação em frente à residência de Orlando Borba Costa. A mobilização foi abafada com o alto som dos amplificadores de uma banda contratada para animar a festa. Os manifestantes movimentaram bandeiras com os rostos de Samuel, Ricardo e Paulo. Daniel Ávila, acompanhado dos pais, carregou uma faixa defendendo revisão do código penal e exigindo pena de morte para casos em que o assassinato é classificado como barbárie.

Do sótão da residência, Gilberto, com um megafone em mãos, contava piadas e, em tom de deboche, convidava os manifestantes para participarem da festa. Os olhos de Ávila ainda transmitiam o mesmo ódio de cinco anos atrás; conservou o sentimento para jamais esquecer seu maior inimigo. “O sistema judiciário brasileiro é extremamente ineficaz e falho, porém nunca vai ser capaz de suplantar a hombridade. A justiça é para todos. Apesar de parecer ingenuidade da minha parte, acredito que sempre teremos pessoas dispostas a cobrá-la enquanto conceito primordial de cidadania e não exercício de autoridade. Lamento pela sua liberdade, Gilberto, e nunca se esqueça; jamais inventaram sabonete que elimine o cheiro do sangue dos inocentes!”, gritou Daniel Ávila de cima do capô do carro de seu pai. Receosos com a segurança de Gilberto, Palmira e Orlando, no dia seguinte, o levaram para viver a milhares de quilômetros dali; o seu paradeiro jamais foi descoberto.

 

Dois anos se passaram e, para a maioria, os crimes cometidos por Souza se tornaram pouco significativos; vaga reminiscência. Amigos e familiares das vítimas encontraram em formas alternativas de vida o consolo para tanto sofrimento. Os Bartolo se mudaram para o Vale do Cedro, aderiram ao taoísmo e toda semana organizavam reuniões na tentativa de contatar Ricardo e Paulo. Já os Nitberg, fundaram o primeiro movimento em defesa da natureza de Aretema; construíram um chalé na Serra das Brumárias e passavam o dia estudando chakras e aprendendo a controlar a energia vital do corpo (prana). Apenas os Ávila não alteraram o padrão de vida. O cotidiano de Daniel se resumia a faculdade de antropologia e também a ajudar o pai nas atividades campeiras. Mas, mesmo com o passar dos anos, ainda nutria o desejo de encontrar seu inimigo, embora não pensasse muito a respeito.

 

A retaliação e a despedida: o desterro de uma ferida

 

Encerradas tempestuosas lembranças, Daniel aprumou os longos cabelos para trás da orelha e se levantou. Naquele dia 3 de junho de 1975, após sete anos sem contato direto com Gilberto, algo se transfigurou dentro de Ávila minutos após a divagação. Estava com expressão mais serena; a pele alva, de fato, saiu da lividez e voltou ao tom natural. Os olhos negros como a noite espreitavam Souza a alguns metros dali – o voyeurismo contrastado com uma infinidade de idéias que passavam pela cabeça de Daniel. Olhou para o relógio e era 17h57 quando resolveu sair da sombra da figueira e caminhar em direção a Souza.

 

Sorrindo e andando a passos curtos e lentos, se aproximou de Gilberto e estendeu a mão para cumprimentá-lo. Souza ficou tão surpreso com a presença de Daniel que o graveto usado para torturar a lebre, depois executada a meio metro de onde estavam, caiu da mão direita. Com lábios trêmulos perguntou: “O que faz aqui a esta hora? Nunca mais o vi perto da Ferrovia do Colono”. Ávila explicou sua passagem pela Biblioteca Municipal e emendou: “Como meu pai só poderia me buscar às 20h, optei por empreender uma caminhada. Que tal me acompanhar?”, convidou Daniel com os olhos fixos em Gilberto.

 

Souza ficou abismado com o comportamento de Ávila e sentiu um incompreensível calafrio lhe subir a espinha. Mas como ao longo dos 24 anos de existência nunca deu motivo para desconfiarem de sua coragem, deu-lhe um aperto de mão e sorriu. Com voz plácida, Daniel sugeriu que passassem pelo Parque das Figueiras; Souza concordou sem pestanejar. Antes de iniciarem a caminhada, Ávila pegou a lebre para enterrá-la no parque, em um pequeno cemitério clandestino, onde jaziam os animais atropelados na ferrovia.

 

Daniel, iniciando conversa frívola, questionou como Gilberto ocupava o tempo. Com ar de escárnio, o rapaz respondeu: “Meu maior hobby ainda é a caça, principalmente animais selvagens. Bem, a lógica é uma só; dos fracos a natureza dá conta”. Ávila sorriu e disse que realmente faz sentido. Depois de caminharem quase dois quilômetros chegaram ao pequeno cemitério. A imagem do sol no horizonte se dissolvia, dando a impressão de que as figueiras estavam mais imponentes; a escuridão típica do outono suplantando a luminosidade.

 

Daniel pediu para Gilberto cavar um buraco para enterrarem a lebre. “Bem capaz que vou fazer isso. De jeito nenhum. Faça você. Enterrar ou não este animal, nada me acrescenta”, respondeu Souza. Calado e sem replicar as palavras do rapaz, Ávila lhe entregou o pequeno animal; ajoelhou-se e começou a cavar com as mãos. Quando estava terminando o serviço, contou: “Não sei se você sabe, mas muitas das tribos indígenas que visavam preservar sua herança cultural praticavam antropofagia quando morria algum familiar. Uma forma de evitar que servissem de alimento para os vermes. Para ser mais exato, uma liturgia para preservar a essência de quem morreu; seja se alimentando da carne ou do sangue. Muitos povos enxergavam o corpo humano como um templo que não tinha razão de ser violado, embora inanimado. Enterrar alguém, em culturas remotas, é o mesmo que fadá-lo ao esquecimento, arremessar a um buraco abissal. Por isso, penso eu, que cada ser humano tem a obrigação de enterrar os seus”. Daniel Ávila calou-se, olhou atentamente para Souza e apontou-lhe o buraco.

 

Gilberto se aproximou, segurou a lebre pelo pescoço e a arremessou cavidade adentro. Souza não percebeu nenhum movimento, mas sentiu que não podia se mexer. Era Ávila imobilizando a cabeça de Souza. Daniel disse: “Se não respeita os vivos, que pelo menos não desrespeite os mortos. Agora façamos o seguinte, assim poderei perdoá-lo. Tire a lebre do buraco e coma a sua carne”. Souza retrucou: “Você está louco!”. Ao sentir que não conseguiria sair da situação, concordou e aproveitou para pensar em uma alternativa. Densa nebulosidade pairou sobre a cabeça de Souza que transpirou de medo. Ávila aproveitou para frisar: “Estou feliz com a situação. Vejo algum tipo de emoção habitando sua carcaça flagelada”.

 

Ao ver Gilberto assustado, mas também vislumbrando uma saída, tirou um alicate do bolso e disse que arrancaria cada uma de suas unhas se não fizesse um cerimonial em respeito à lebre. Souza sentiu um azedume nos lábios, antes mesmo de dar a primeira mordida. Respeitou a ordem de Ávila e dilacerou vagarosamente o peito branco do animal, engolindo até mesmo os pêlos. Observando a expressão de asco no rosto de Souza, disse: “Qual o motivo dessa expressão de nojo? Saiba! Um animal herbívoro é mais limpo que um ser humano!”. Quando o sangue da lebre escorreu pelos lábios de Gilberto, Daniel chamou-lhe a atenção e disse para não deixar sobrar nada, fosse uma gota de sangue, crânio ou os olhos. Depois de consumi-lo, Ávila afirmou: “A partir de agora o animal é parte de você. Dividirá para sempre a carne o sangue do animal que matou”.

 

Gilberto, inerte diante da situação, pediu: “Agora me deixe ir embora. Entendi muito bem a sábia mensagem”. Ávila não autorizou; tirou dois pedaços de corda de fibra do bolso e o mandou recostar à figueira. Depois de amarrar-lhe os pés e as mãos, Daniel tirou o alicate do bolso e arrancou a unha do dedão da mão direita de Gilberto. O rapaz gritou, olhou para ele e disse que aquilo não fazia parte do trato. Ávila apenas sorriu e salientou: “Não sou um assassino, mas acredito que uma morte só pode ser paga com outra”.

 

Os dedos de Gilberto ficaram com as pontas vermelhas e algumas gotas de sangue percorreram os vãos. Daniel sorriu e falou: “Dívidas são pagas somente quando existe valor de equiparação, do contrário o débito subsiste”. Souza o fitou e declarou: “O que aconteceu há sete anos foi uma casualidade, e os garotos bem poderiam ser outros”. Sem se pronunciar, Ávila assoprou a terra fronte a uma lápide, ladeada pelo buraco onde a lebre seria enterrada, e observou a tampa de um caixote.

 

O carimbo da Companhia Ferroviária Tumbasca continuava intacto mesmo depois de tanto tempo. Daniel puxou a parte superior da caixa e observou o conteúdo: um bacamarte de amurada em perfeito estado – fabricado em 1863 e trazido dos Açores pelo seu tataravô, Bernardo Álvares Ávila, ex-capitão da marinha lusa. Havia também um saco de pólvora, algumas caixas com fósforos, uma machadinha kaingang, três tacos de madeira banhados em cerol, uma zarabatana e um fundíbulo. As armas foram enterradas naquele cemitério clandestino dois meses antes. A maior parte era herança que o avô Bernardo Álvares Ávila Neto deixou para ele. Como seus pais eram pacifistas, evitou que desfizessem das armas enterrando-as no pequeno cemitério.

 

Depois de retirá-las do caixote, Ávila enfatizou: “O homem branco não tem relação cerimonial com as armas, ao contrário dos indígenas. Estes as concebem com critério de artefato artístico. Olhe esta machadinha! Uma arma que simboliza a extensão do braço humano. Já foi muito utilizada em guerras e conflitos para decepar braços na região do úmero ou da escápula. Sabia disso, meu camarada?”.

 

Daniel se predispôs a fazer uma demonstração; sobressaltou que não aceitaria qualquer negativa como resposta. Com um olhar desafiador, Gilberto observou Ávila se aproximar. Daniel golpeou-lhe o braço direito na região do úmero e depois da escápula. Souza começou a gritar e esbravejar: “Você não é diferente de mim. Olha o que fez! Se considera melhor? Temos as mesmas raízes. Fecundados pela devassidão e nascidos da degradação!”. Daniel ignorou e entregou-lhe uma cabaça para armazenar o sangue que, incessante, escorria. “Beba, Gilberto. Desta vez, seja esperto”, ironizou Ávila.

 

Daniel retirou do bolso uma agulha de máquina de costura e a introduziu no septo de Souza. “Na falta de um paresi, a agulha lhe cai bem”, comentou. Depois de penetrá-la, deu um golpe sutil com o cabo da machadinha. Gilberto ofegou e não conteve mais a dor; duas linhas oblíquas e rubras deslizaram pelos seus lábios. Foi a primeira vez que sentiu o sabor do seu sangue, além do aroma primordial e excelso da própria morte.

 

Gilberto ficou lívido e seus lábios secaram, perdendo a cor natural. Daniel abriu o saco contendo pólvora; retirou um punhado e esfregou um pouco abaixo da clavícula, na região do corte. Pegou uma caixa de fósforos, acendeu cinco palitos de uma vez só e ateou fogo no braço de Souza. A primeira reação foi fechar os olhos. Uma luminosidade rápida como um raio foi precedida por dor intensa. A sensação foi de que alguém estava lhe grelhando. Daniel comemorou consigo mesmo o efeito. “Ele não morrerá tão cedo graças ao fogo e a pólvora”, refletiu.

 

Ávila escorou sobre uma árvore e descansou por um instante. Ao sentir-se revigorado, pegou um taco banhado em cerol e desferiu dezenas de golpes consecutivos nas costas de Gilberto. A cada pancada, vestígios de pele grudavam no taco. Quando Daniel resolveu observar as costas de Souza, se deparou com uma massa de carne viva. Os golpes extraíram pelo menos 50% da pele. Gilberto tentava preservar a dignidade e, em vários momentos, seu sorriso contrastou com expressões de desespero e êxtase.

 

Já se passavam das 18h30 quando Gilberto, consumido pela fadiga, estava todo ensangüentado. De sua boca saíam borbulhas de sangue misturadas com saliva. A estafa era intensa e mal conseguia movimentar o corpo. Apesar das dores, empreendeu uma cantoria que consistiu em palavras mal articuladas e incompreensíveis. Era a bachiana brasileira nº 1 de Heitor Villa-Lobos, ironicamente improvisada por Souza com um complemento lírico. Usou os dedos da mão esquerda e os lábios para representar a cadencia dos violoncelos.

 

Encerrado o canto, Gilberto teve parte das duas orelhas arrancadas com um alicate. “Pela amiúde e ingente relação que tens com a música o condeno a parcial inaptidão de jamais apreciá-la de novo”, salientou Daniel Ávila; em seguida, recitou:

Por que a carne palpita quando clama pela arte?
Seria mero rudimento de um coração desatento?
Ou orvalho vermelho preso a um estandarte?
Não! Regozijo da incompreensão a contento!

Se a pele evanescente suplicar pelo anil
Arranque as vísceras e componha uma canção
Entregue a existência soterrada em nihil
Se a dor fugaz não dignificar uma unção

Face petrificada é a seresta de um desterrado
Refém de palavras moribundas em lábios semimortos
Que clama ao espelho lagos de sangue sobre o prado
Vislumbra ao relento a chegada de ventos tortos

Canções nutrem e despedaçam sentimentos
Ricocheteadas pela virulência de ocasiões
Que do âmago resgatam singulares momentos
De amor, ódio e mais uma miríade de emoções

Bela forca hei de tecer com suas cordas
Contumaz ícone do definhamento musical
Observe o desvanecer iniciado pelas bordas
Até deglutir-se em desespero outonal

Talvez não seja loucura e nem pieguice
A despótica pretensão de rejeitar a vida
Desprezar ao horizonte o limiar da velhice
Reivindicar para si o direito a partida

Quão bela é uma vida que jaz no âmago da morte
A pele massageada com o dorso de uma navalha
Convite à carne moribunda desfigurada pela sorte
Que do tártaro aguarda a suavidade da mortalha

Filho bastardo de Deimos, por que se embriagaste?
Tomastes quantos banhos sob o fel da degenerescência?
Bebeste do ódio para que a alma se desgaste?
Não pulverize com iniqüidade o álamo da sapiência

Phobos! De dedos longos e mortificadores
Aguarda sobre a terra bravuras travestidas
Sorve com os olhos o sonho dos amadores
Apenas sementes de ilusões combalidas

A última réstia cintila sobre o moribundo
De Longe! De perto! A quintessência da finitude
Semeada por vingança o conduz a outro mundo
Calado para sempre diga adeus à juventude

Terminada a declamação, Ávila se calou e sentou sobre a porção de folhas que cobria o solo. Limitou-se a tapar a própria boca com a mão direita enquanto ouvia Souza gritar e xingar. Levantou-se e, de costas para Gilberto, caminhou ao encontro da machadinha. A levou para perto de Souza e o golpeou três vezes, decepando a perna esquerda. Mais uma vez retardou a hemorragia com pólvora e fósforo. Pegou o bacamarte e disparou dois tiros no abdômen de Gilberto. Deitou o inimigo ao lado de uma figueira e, com uma navalha, guardada no bolso da jaqueta, começou a extrair a pele do peito. Enquanto o fazia, lhe contou: “Gilberto, você sabia que em períodos remotos as capas dos livros eram feitas de couro humano? Faziam isso pelo simples fato de serem mais duráveis e impermeáveis”.

 

Souza não falou mais. Resignou-se – percebeu que a prostração seria inevitável. Já era mais de 19h quando Daniel usou uma corda para amarrar Gilberto com a cabeça para baixo – a dois metros do chão. Balançou o corpo de Souza e usou uma zarabatana para atirar pequenas setas envenenadas com seiva. Vinte minutos mais tarde, pegou um fundíbulo e arremessou inúmeras pedrinhas na boca de Gilberto. Aproximou-se e viu sete dentes quebrados. Às 19h30, desceu Gilberto já desmaiado e o arrastou até a ferrovia, onde o maquinista se encarregaria do resto. Ficou observando de longe, esperando o trem se aproximar. Sem piscar, viu o corpo de Gilberto ser estraçalhado sobre os trilhos. De longe, avistou vestígios da roupa de Souza; do corpo restou pouco. Com voz vivificada, Daniel observou a paisagem e declamou:

Saiba! Seu sangue há de purificar esse caminho
Liquefeito que desvanece o pesadelo de um menino.
Nos meandros da injustiça ganha asas o passarinho.
Renascido! Enaltece o céu sob capitólio cristalino.

Agora! O que há por vir no deliberar de um despertar?
Seria o aroma das folhas que me compete uma visita?
Os olhos da vicissitude me condenando a regurgitar?
O preço da vingança que me transforma em eremita?

 

 

Ávila abraçou uma árvore e esfregou o sangue de suas mãos pelo tronco, fazendo movimentos de cima para baixo. “É minha única testemunha. Para ti, deixo a prova do meu feito nesta floresta, suntuosa natureza. Transmito-lhe a essência de um infausto. Conserve-a para que dos homens funestos jamais se esqueça”. Daniel tirou as mãos da figueira, correu até onde abandonou o inimigo e colocou um pedaço de papel preso ao trilho; uma carta de despedida com a assinatura de Gilberto declarando-se inapto a conviver com seres da mesma espécie. Ninguém reconheceria que o texto era de Daniel. As cartas de Souza eram datilografadas em uma máquina Olivetti Studio 44 – não gostava de escrever e apenas as assinava. Alguns dias antes do homicídio, Ávila comprou uma máquina do mesmo modelo. Teve a ajuda de um amigo carteiro que entregou algumas encomendas na residência de Orlando Borba Costa; conseguiu a assinatura de Souza em um papel em branco, camuflado por um envelope dos Correios.

 

Prelúdio do renascimento

 

Ávila passou pela Ferrovia do Colono diariamente ao longo de 11 dias, informado pelo vigia do Parque das Figueiras Flávio Augusto de Oliveira que Gilberto sempre era visto naquela região no período da tarde. Casualmente, o encontrou apenas no dia 3 de junho. Ninguém suspeitou que Daniel estivesse envolvido no crime. Além da população não comentar mais sobre o assassinato dos três garotos, houve um sentimento coletivo de complacência e cumplicidade para com o anônimo verdugo de Souza. O delegado Rogério Basílio Prestes descartou a realização de perícia na cena do crime; informaram à família que Gilberto praticou suicídio. No dia 4, apenas Palmira, Orlando e um padre, de outra cidade, participaram do velório e da despedida no cemitério. O enterro foi realizado com o caixão fechado. Mesmo assim, de todos os membros, apenas os olhos não foram encontrados.

 

Até o final do mês de junho, uma neblina que pairou sobre Aretema ao longo de 35 dias desapareceu. O céu estava tão claro que parecia desenhado por um artífice divino. No Vale do Cedro, via-se o movimento sincronizado das folhas, tão sublime que levou alguns pioneiros às lágrimas. Mas nada despertou mais curiosidade na população que um fato nunca antes presenciado. Do alto da Serra das Brumárias, a corrente de ar ao leste trazia o intenso aroma das folhas de eucalipto, extasiando os moradores que, a olhos fechados, inalavam incondicionalmente a fragrância. No início de julho, ninguém mais vivia na serra. Os Nitberg foram os últimos moradores. Com a morte de Gilberto, um súbito conforto espiritual os levou a se tornarem ativistas do Greenpeace. Em Aretema comentou-se muito que sem residência fixa, passaram a viver pelos oceanos, na tentativa de proteger as baleias de caçadores soviéticos, islandeses e noruegueses.

 

Tudo estava em perfeita harmonia, tanto que turistas voltaram a freqüentar a cidade após sete anos. Aretema ainda estava despreparada para atendê-los; os bondinhos foram desativados cinco anos antes. O prefeito, preocupado em desperdiçar a melhor oportunidade turística em décadas, contratou uma empresa para realizar a manutenção. Cinco dias depois, os dois bondinhos entraram em operação: um ligando Aretema a Serra das Brumárias, o outro ao Vale do Cedro. A novidade foi satisfatória para quem quis agregar mais renda. Para as crianças e os idosos também – agraciados com novas formas de entretenimento.

 

Somnus Et Finis

 

Em uma propriedade a dez quilômetros de Aretema um homem continuava inapto a observar a evolução da cidade onde nasceu; era Daniel Ávila. Entrou em estado catatônico no dia 4, e os pais, que desconheciam o motivo, tentaram levá-lo a uma psicóloga e a um psiquiatra. A insistência foi em vão. Daniel repelia ou ignorava qualquer presença humana enquanto balbuciava neologismos. Seus olhos estavam sempre marejados, mantendo seus lábios e queixo bem úmidos. Ávila se alimentava de modo esporádico – uma ou duas vezes a cada três dias. Ingeria quantia insignificante de alimentos, estimulando sua mãe a comentar que nem mesmo um canarinho se contentaria com tão pouco. Rosa e João Carlos não passavam mais de cinco minutos no quarto, pois tão logo o filho era consumido por incontrolável mal-estar; efeito de qualquer presença humana. Nunca souberam que o seu estado de misantropia e ostracismo tinha relação com a morte de Gilberto.

 

De madrugada, quando ninguém se dirigia ao quarto de Ávila, ele saltava da cama e arrastava os móveis procurando os olhos de Souza. Acreditava que estava sendo observado por ele e só conseguiria dormir quando os encontrasse. Passava horas vasculhando o quarto, mas nunca achava nada. Desolado, debatia-se contra o chão e sentia ingente dor no palato; como se alguém lhe alfinetasse o céu da boca. A esquizofrenia de Daniel piorou drasticamente no dia 9, quando, com unhas grandes, tentou furar os próprios olhos. Em seu indistinto estado psicológico e emocional, seria o único jeito de não ser incomodado por Souza que o espreitava com olhos intumescidos. Por recomendações médicas, Rosa e João Carlos decidiram internar o filho no Instituto Dom João VI.

 

No dia 11, Daniel Ávila não se levantou da cama, ficou olhando atentamente para o teto. O barulho dos internos jogando futebol suíço ao lado não o incomodou, na verdade, nem os ouviu. A única coisa que lhe consumiu a atenção naquela manhã foi uma pontada no ouvido direito. Quando colocou a mão na orelha, com a simples intenção de coçá-la, Daniel ouviu um som disforme ganhando intensidade descomunal. Não reconheceu a sonoridade e a dor o estimulou a agir. Esfregou as orelhas com força e logo as sentiu dormentes. Acalmou-se com o repentino desaparecimento da dor. Começou a rir consigo mesmo e fixou o olhar em direção a fresta da porta. Ávila teve um calafrio ao ver os olhos castanhos de Souza ao lado da réstia. Começou a balbuciar e sentiu-se asfixiado ao ser tomado por lembranças. Daniel colocou a cabeça debaixo do travesseiro e, pela primeira vez depois de semanas, dormiu profundamente. Quando um agente psiquiátrico foi chamá-lo para o banho de sol, Ávila manteve-se calado; o sujeito entrou e ergueu o travesseiro. Encontrou o rosto de Daniel rubro como nunca, banhado em sangue e com um furo na têmpora. Já estava sem vida e entre seus dedos pálidos uma glock 17, calibre de nove milímetros, faltando cinco cartuchos.

 

No dia 3 de agosto, três crianças brincavam de se esconder no Parque das Figueiras; uma delas encontrou os olhos castanhos de Gilberto enroscados no galho de uma figueira. Já no final da década de 1970, alguns moradores que viviam próximo ao parque comentaram que no outono o vento oriundo do Vale do Cedro, que assoprava até eles, era acompanhado por uma voz antropomorfa.

27
jul
08

Obsoleto: penumbra de um novo mundo

No despontar do crepúsculo observo com olhos intumescidos a virilidade de canas verdes e esguias; é a sapiência de décadas na labuta. Sob a imensidão azul e límpida meu coração digladia com a razão; um duelo mortal contra a gestação de sonhos, inestimáveis desde outrora, quando a minha maior ideologia de servo campeiro era conquistar a liberdade atemporal. Fixar-me! Uma terra onde o anseio de posse ultrapassa a fatídica e lúgubre realidade de encontrar, a contento, a fragrância da terra molhada. Ainda posso senti-la! Uma propriedade de miligramas que subsiste no resto de minhas unhas. Ah! Minha idealização como posseiro! Sempre suplantada por uma condição existencial que, incessante, tenta planificar minhas razões oníricas.

 

Reluto em meu âmago, inconformado com a juventude arrebatada. Eram tempos de fácil regozijo; displicente ingenuidade. Rememoro meus passos pelo canavial; sentia-me como se descobrisse a cada dia um labirinto que esconde o tesouro dos Nibelungos. Sôfrego! Normalmente acordava assim! Com tanta destreza que o canavial me cumprimentava seguindo o ritmo cadenciado e augusto dos ventos do Sul. Poucos pensamentos quebrantavam meu espírito aguerrido, pois ocupava meu corpo com a subsistência e a mente com reminiscências de décadas atrás. Recordo minha mãe defronte ao velho forno à lenha; sua voz suave entoava cantigas com a aptidão de um rouxinol. Nada a distraía, nem mesmo a fuligem que resplandecia sobre seus braços delgados.

 

Recobrava os sentidos quando a dualidade entre sonho e realidade me fazia sentir a perfilada lâmina, em um golpe sutil, atestando a ablução do sangue espesso com o suor que, salgado, lembrou-me o mar onde nunca estive. Está tudo bem! Apenas uma ferida temporária que em breve se unirá a tantas outras. São marcas litúrgicas em meu corpo; registros da minha degeneração, pois, mesmo sem direito a unção, fui contribuinte do progresso que assegurou minha desilusão.

Ontem, às 16 horas, assisti o princípio do fim. Meu coração exasperou-se! Senti o palato incandescer e tentei me conter. Foi impossível vencer a iminência de um passeio pela orla dos derrotados. A causa? A imagem que se formou no horizonte. O sorriso de um senhor bem vestido, com os braços envolvidos em uma máquina colossal. Tão ditoso que me recordei de arquitetar feição semelhante quando meu primeiro filho Roberto nasceu. Fechei os olhos na expectativa de um mero devaneio. Quando abri, lá estava eu, prostrado; de joelhos, com punhos e dentes cerrados. Decidi tirar a pequena faixa branca de meu braço direito para assistir o filete de sangue escorrer; o ferimento não me incomodou. Continuei ali, em ostracismo, sem perceber as lágrimas escorrendo pelo meu rosto e minhas mãos tremulando.

 

Gritaram meu nome e, aturdido, perambulei pelas minhas companheiras até chegar a uma fila. Sobre a carroceria do pau de arara, com um sutil movimento de lábios rachados pela estiagem, gritei: “Adeus, canavial que me sorveu a existência. Principia um novo tempo que deglute o velho mundo, sem oferecer aurora ao moribundo”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

27
jul
08

Reminiscências de uma funesta realidade

As reminiscências ecoam na minha mente como bruscos flashes do que vivi. Lembro dos momentos de corriqueira harmonia, mas que me foram plenos como o infinito. Os cães correndo pela casa de encontro a um abraço humano amortecido por pêlos grossos e brancos. O aroma vindo da cozinha e deslizando como ondas radiantes ao encontro de minhas narinas que o absorviam com um suave suspiro a olhos fechados.

 

Sinto como se fosse hoje os dissabores das discussões durante as viagens, mas que sempre terminavam num resplandecente ar de calmaria e reflexão. Época em que os sorrisos eram mais preciosos que a matéria prima de qualquer ourivesaria. Ao momento que a representação dos sons, imagens e fragrâncias vão me confortando sinto a pontada que me sorve a existência. Minhas têmporas dilatam a cada imagem do passado, como se a dor rogasse pelas simples, mas representativas alegrias.

 

Percebo meus lábios secos que um dia já foram úmidos e corados como morangos frescos e silvestres. O abstêmio azedo em minha boca sorvendo um entorpecente filete de sangue. Sangue formador de pequenos traços que fomentam uma abstração do vermelho; obra de fazer inveja a Tristan Tzara. Decidido por uma ignóbil saída abracei as mãos da ignominiosa finalização da realidade, essa que me fora apresentada como um doce caminho percorrido por quem tropeçou no abismo das inverdades.

 

A pólvora fora uma das grandes invenções da humanidade, e talvez sem a qual eu não tivesse decidido por evitar o futuro da lúdica realidade. A bala que se aloja em minha cabeça gera aflição enquanto forma uma pequena cascata à sua volta. O sangue derrama-se como uma pequenina bica de mina ao mesmo tempo em que se confunde de encontro às deslizantes inquilinas lágrimas de meus olhos. Como a relação do pequeno riacho com a sua nascente (essa que preconiza o fim das ilusões em chão). O salgado orvalho transparente em ablução com o doce vermelho (segundo os falsos princípios da vida).

Apresento-me imóvel e relativamente lúcido a derrocada do meu mundo paralelo, ao tempo que pressinto a lugubridade do meu final se aproximando da emancipação da carne. As imagens persistem em meu espólio mental como se a altivez da morte me espreitasse a vida mais do que nunca. Sinto-me como a tela de uma arte despojada de seus valores morbidamente conceituais. O universo paradoxal me deixa a melindrar entre o falso puritanismo e a misantropia, como se a minha existência fosse desvanecendo numa macabra, mas pueril e complacente liturgia.Tornei-me um todo poderoso, senhor da própria morte, que antes do meu último suspiro deixei levar com o sangue toda uma enganosa virtuosidade ideológica. Mas, previamente ao mortiço, antes do meu consciente estardalhaço, consenti uma reflexão que me acalmou as células, o fato de que o mundo em que vivi era tanto de Odin como de Fenrir.